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Julio Gomes

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Ranking da Década de 50: Grandes dividem títulos, Brasil se mostra ao mundo

Corinthians Campeão Paulista do IV Centenário, em 1954 - Reprodução/Corinthians
Corinthians Campeão Paulista do IV Centenário, em 1954 Imagem: Reprodução/Corinthians
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Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

29/03/2021 05h00

Estamos na década do pós-Guerra. Os anos 50. Depois de duas batalhas mundiais que destroçaram a Europa e boa parte do mundo, a hora é de reconstrução. Duas Copas do Mundo foram canceladas, e, em 1950, o Brasil foi a sede do Mundial que marcaria o retorno. Foi quando o país se mostrou ao mundo, e a consolidação da imagem internacional veio através do futebol, com o título de 1958. Somos, até hoje, o "país do futebol" graças a tudo o que aconteceu nos anos 50 e as subsequentes glórias dos anos 60.

Os anos 50 marcam o início real da era profissional do futebol. O esporte era completamente amador até os anos 30. A partir da primeira Copa, começa a dar passos rumo à profissionalização. Mas chegam as guerras e isso só acontece efetivamente nos anos 50. A partir dos 70, começa a internacionalização do esporte. E, neste século, a globalização total do conhecimento com a concentração da qualidade em um lugar só (a Europa).

Mas eu falava dos anos 50. E ali, enquanto a Europa vivia a reconstrução, estava sendo plantada a semente do domínio total que o Brasil exerceria entre 58 e 70, ganhando três Copas. O domínio que os clubes de lá têm hoje era nosso 60, 70 anos atrás. Podemos dizer tranquilamente que o Brasil teve, com todo respeito a outras forças, os melhores times de futebol do mundo por 20 anos. E a pulverização de títulos entre as forças da época é impressionante.

Nós sabemos que o futebol brasileiro era melhor do que os outros. E, da mesma forma, sabemos que, nos anos 50, os times de São Paulo e do Rio de Janeiro eram, de longe, os melhores do Brasil. Sim, já havia vida fora, é claro que havia. Não estamos aqui para menosprezar a linda história de vários clubes espalhados pelo país. Mas, nos anos 50, Rio e São Paulo já eram cidades de mais de 2 milhões de habitantes e um monte de quadrangulares e amistosos eram disputados pelo país, sempre com vitórias dos times do "eixo".

Querem uma medida mais, digamos, quantitativa? Sim, havia. Na época, o jogador que se intitulava "campeão brasileiro" era o que havia vencido o Campeonato Brasileiro de Seleções. Eram convocadas seleções de cada Estado da nação, que se enfrentavam e nos davam a medida de onde estavam as forças. Isso começou em 1922, ganhou corpo nos anos 40, tinha muito peso ainda nos anos 50 e acabou em 1962 - quando já existia a Taça Brasil para medir a força dos clubes.

O Distrito Federal (Rio de Janeiro) ganhou 14 títulos e foi vice 11 vezes. São Paulo conquistou 13 títulos e foi vice 14 vezes. No total, foram 29 edições. Façam as contas. A Bahia ganhou uma vez, ainda no amadorismo, em 1934. Minas ganhou em 1962. Fora isso, sempre São Paulo e Rio.

É por essas e outras que podemos tranquilamente considerar que o Torneio Rio-São Paulo, que teve seu esplendor entre 1950 e 1965, foi um verdadeiro Campeonato Brasileiro. Aliás, o nome oficial do Rio-SP era Torneio Roberto Gomes Pedrosa. Ele ficaria conhecido como "Robertão" a partir de 1967, quando passou a receber times de outros Estados. Era o embrião do Brasileiro, que passou a ser disputado a partir de 1971.

Nos anos 50, foram disputados quatro Brasileiros de Seleções (52, 54, 56 e 59). São Paulo ganhou do Rio de Janeiro as quatro edições. O que também nos mostra, em certa medida, alguma superioridade dos paulistas sobre os cariocas. Não à toa, os seis primeiros Rio-SP são vencidos por paulistas, e os cariocas só conseguem a primeira taça em 1957, com o Fluminense.

É uma década muito pulverizada em termos de títulos. Entre os paulistas, o Corinthians, de Luisinho e Baltazar, é o claro dominador da primeira metade da década, chegando ao ápice com o título do Paulista do IV Centenário da cidade de São Paulo, em 1954. O Santos, mesmo antes da chegada de Pelé, começa, em 1955, a ganhar tudo. E assim seria até o fim da década seguinte (clique para ver o Ranking da Década de 60).

O Palmeiras conseguiu ter momentos vitoriosos no início e no fim da década. E possivelmente o melhor time brasileiro (de 1 a 11) deste período foi o da Portuguesa, bicampeão do Rio-São Paulo e que chegou a ser base das seleções paulista e brasileira. Palmeiras e Portuguesa, talvez pelas raízes conectadas a colônias, eram também dos clubes que mais faziam excursões para a Europa e demonstravam força diante dos europeus. O Corinthians também teve sucesso estrondoso lá fora.

Em 1954, por exemplo, a Portuguesa venceu em uma destas excursões o Stade Reims por 3 a 1 - o time francês seria vice-campeão da primeira Copa dos Campeões da Europa, em 56. Na mesma excursão, fez 7 a 1 no Arsenal, em Londres. Enfim, são apenas pequenas amostras de como o futebol jogado aqui era o que havia de melhor. Assim como a Champions League é hoje um campeonato que define o melhor do mundo, naquela época o Rio-São Paulo possivelmente tivesse o mesmo efeito.

Entre os cariocas, o Vasco, ainda na esteira do domínio exercido nos anos 40, e o Fluminense, de Telê Santana, Castilho e Waldo, obtiveram os melhores resultados. O Vasco voltaria a ser forte no fim da década - era o time de Vavá e Bellini.

Os dois clubes cariocas, além do Palmeiras, ganharam a tal Taça Rio (com este nome em 51 e 52, depois mudou para Rivadávia em 53. Hoje, muitos torcedores buscam o (bobo) reconhecimento de tais torneios como "Mundiais" - como se isso fosse necessário para mostrar a grandeza de cada um na época.

Eles até podem ter tido tal conotação, assim como a "mini Copa do Mundo", disputada algumas vezes na Venezuela nos anos 50 - uma delas vencida pelo Corinthians. Mas o fato é um só: ganhar o Campeonato Paulista ou o Carioca era muito mais importante e muito mais difícil do que ganhar estes "Mundiais". Era aqui, nas disputas entre os clubes daqui, que se jogava o futebol mais forte e competitivo do planeta.

Quando a seleção entrou em campo para a final da Copa de 58, estavam lá entre os titulares três jogadores do Vasco, três do Botafogo, dois do Santos, um do Flamengo, um do Corinthians e um da Portuguesa, o que dá a noção de como estavam pulverizadas as forças do nosso futebol.

Quem se mostrou grande naqueles anos 50 de Rio-São Paulo continua grande até hoje - exceto a Lusa, e agora vemos Vasco e Botafogo traçando caminhos perigosos. Nas décadas seguintes, os grandes do Sul e de Minas se incorporaram às disputas nacionais com protagonismo - não à toa, as seleções destes dois Estados eram quase sempre terceira e quarta colocadas no Brasileiro de Seleções.

Quando o Bahia conquista a primeira edição Taça Brasil, em 1959, vencendo o Santos na final, era um sinal de que o claro domínio de Rio e São Paulo acabaria.

É como se o Bahia fosse a seleção brasileira de basquete de Marcel e Oscar, ganhando o Pan em cima dos EUA em 1987. Não éramos melhores que os americanos, mas mostramos que eles não eram invencíveis.

Não à toa, cinco anos depois os profissionais da NBA começaram a participar de Olimpíadas. No futebol brasileiro, a mudança viria oito anos mais tarde, com a transformação do Rio-São Paulo no Robertão ampliado. Foi um feito isolado o do Bahia em 59, mas que precisa ser muito respeitado.

Desde 67, quando é disputado o primeiro Robertão, até hoje, times do Rio ou São Paulo são campeões brasileiros 42 vezes, contra 13 de outros Estados (76%). É plausível pensar que, nos anos 40 ou 50, os clubes das duas maiores cidades do Brasil tivessem vencido todos os hipotéticos campeonatos "nacionais" que fossem disputados com a presença de todos eles. É por isso que o Torneio Rio-São Paulo era tão "pesado" e é assim tratado aqui abaixo.

RANKING DA DÉCADA DE 50:

#1 Corinthians
2 - Torneios Rio-São Paulo (53 e 54)
3 - Paulistas (51, 52 e 54)
1 - Torneio de Caracas (53)
1 - Torneio Charles Miller (55)
1 - Fita Azul (52)
1 - Vice Rio-SP (51)
1 - Vice Paulista (55)

*convocações para as Copas - 4

#2 Vasco
1 - Torneio Rio-São Paulo (58)
3 - Cariocas (52, 56 e 58)
1 - Copa Rivadávia (53)
4 - Vices Rio-SP (52, 53, 57 e 59)
*convocações para as Copas - 6

#3 Santos
1 - Torneio Rio-São Paulo (59)
4 - Paulistas (55, 56, 58 e 60)
1 - Taça dos Campeões Estaduais SP-RJ (56)
2 - Vices Paulistas (57 e 59)
*convocações para as Copas - 3

#4 Fluminense
2 - Torneios Rio-São Paulo (57 e 60)
2 - Cariocas (51 e 59)
1 - Copa Rio (52)
1 - Vice Rio-SP (54)
5 - Vices Cariocas (52, 53, 56, 57 e 60)

*convocações para as Copas - 5

#5 Portuguesa
2 - Torneios Rio-São Paulo (52 e 55)
3 - Fita Azul (51, 53 e 55)
1 - Vice Paulista (60)
*convocações para as Copas - 4

#6 Palmeiras
1 - Torneio Rio-São Paulo (51)
1 - Paulista (59)
1 - Taça Brasil (60)
1 - Copa Rio (51)
1 - Vice Rio-SP (55)
3 - Vices Paulistas (51, 53 e 54)

*convocações para as Copas - 3

#7 Flamengo
3 - Cariocas (53, 54 e 55)
1 - Taça dos Campeões Estaduais SP-RJ (55)
2 - Vices Rio-SP (57 e 58)
2 - Vices Cariocas (52 e 58)

*convocações para as Copas - 7

#8 São Paulo
2 - Paulistas (53 e 57)
1 - Torneio de Caracas (55)
2 - Taças dos Campeões Estaduais SP-RJ (53 e 57)
3 - Vices Paulistas (52, 56 e 58)
*convocações para as Copas - 7

#9 Botafogo
1 - Carioca (57)
1 - Vice Rio-SP (60)
1 - Vice Carioca (59)

*convocações para as Copas - 4

#10 Bahia
1 - Taça Brasil (59)
6 - Baianos (52, 54, 56, 58, 59 e 60)
*convocações para as Copas - 0

Menções estaduais:

América-RJ
1 - Carioca (60)
2 - Vices Cariocas (54 e 55)

Bangu
1 - International Soccer League - EUA (60)
1 - Triangular de Caracas (58)

Atlético-MG
6 - Mineiros (52 a 56 e 58)

Grêmio
5 - Gaúchos (56 a 60)

Internacional
4 - Gaúchos (51, 52, 53 e 55)

Cruzeiro
3 - Mineiros (56, 59 e 60)

Náutico
4 - Pernambucanos (51, 52, 54 e 60)

Sport
4 - Pernambucanos (53, 55, 56 e 58)

Coritiba
7 - Paranaenses (51, 52, 54, 56, 57, 59 e 60)

River
9 - Piauienses (51 a 56 e 58 a 60) - entre 50 e 63, perdeu só um

Goiânia
8 - Goianos (51 a 54, 56 e 58 a 60)

CSA
6 - Alagoanos (52, 55 a 58 e 60)

ABC
6 - Potiguares (53 a 55 e 58 a 60)

Santa Cruz-SE
5 - Sergipanos (56 a 60)

*****

CLIQUE ABAIXO PARA VER O RANKING DE CADA DÉCADA DO FUTEBOL BRASILEIRO:

DÉCADA DE 40
'Expresso da Vitória' do Vasco e São Paulo de Leônidas marcaram época

DÉCADA DE 50
Grandes pulverizam títulos e futebol do Brasil começa a ganhar o mundo

DÉCADA DE 60
Santos foi o maior quando éramos os maiores

DÉCADA DE 70
Inter domina início da "era nacional" do futebol

DÉCADA DE 80
Flamengo rompe fronteiras e ganha o mundo

DÉCADA DE 90
São Paulo supera concorrência em década 'paulista'

DÉCADA DE 00 (ANOS 2000)
Inter brilha na Libertadores e supera o São Paulo, tri brasileiro

DÉCADA DE 10
Corinthians campeão do mundo; brasileiros dominam Libertadores

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL