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Julio Gomes

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Ranking da Década de 60: Nunca se repetiu ou repetirá o que fez o Santos

Santos campeão mundial de 1962 - Em pé: Lima, Zito, Dalmo, Calvet, Gilmar e Mauro; agachados: Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe - Reprodução
Santos campeão mundial de 1962 - Em pé: Lima, Zito, Dalmo, Calvet, Gilmar e Mauro; agachados: Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe Imagem: Reprodução
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Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

27/03/2021 04h00

A Década de 60 foram os "anos de ouro" do futebol brasileiro. Nunca diga nunca, dizem. Eu digo. Sem medo de errar. Nunca mais um país será tão dominante, tão superior a todos os outros como foi o Brasil naquela década, culminando com o tri em 70. E, dentro deste universo onde o melhor futebol do mundo era jogado, havia um time muito acima dos outros. Querem outro "nunca"? Nunca mais um clube será tão dominante no futebol brasileiro quanto foi o Santos na Década de 60. Nunca.

O Santos de Pelé ganhou tudo o que tinha para se jogar. Ganhou até de menos. Porque, naquela época, tão importantes quanto os troféus eram os amistosos contra times e seleções do exterior, as excursões, a grana que o esporte começava a movimentar de forma mais robusta. Pelé fez 1282 gols. Destes, 787 em jogos oficiais. O futebol era outro.

Os clubes brasileiros não estiveram, por exemplo, em três das dez Libertadores da década. O torneio sul-americano começou a ser disputado em 1960, o Santos jogou quatro vezes e ganhou duas. E se tivesse jogado mais? O Santos abriu mão da Taça Brasil de 68, da final do Rio-SP de 66...

O que havia de mais importante eram os campeonatos estaduais (disputados em pontos corridos e ocupando a maior parte do calendário) e o Torneio Rio-São Paulo, considerado o "Brasileiro" desde os anos 50, dada a indiscutível força dos clubes das duas maiores cidades do país.

O Brasil vivia o êxodo rural, ocorreram mudanças políticas importantes, chegou a ditadura militar, cidades cresceram desordenadamente. O futebol era parte de um contexto de controle social e útil para o regime. O esporte bombava país afora e surgiam estádios em todas as capitais. Em 1965, por exemplo, foi inaugurado o Mineirão.

Quando o Cruzeiro (que também foi pentacampeão estadual) quebra o domínio de Santos e Palmeiras e ganha a Taça Brasil, em 66, as coisas mudam. Nota-se ali a necessidade de se adaptar a uma nova realidade: havia clubes fortes e que arrastavam multidões fora do tal "eixo". Antes, em 1962, havia sido disputada a última edição do prestigiado Campeonato Brasileiro de Seleções, e a seleção de Minas havia sido a primeira e única a derrubar paulistas e cariocas na era profissional.

Belo Horizonte, uma cidade de 350 mil habitantes em 1950, havia saltado para 1,2 milhão em 1970. Salvador e Recife já batiam no 1 milhão, Porto Alegre e Belém estavam perto disso. Neste contexto, o futebol passa a incorporar clubes de outros centros, e o Rio-São Paulo é transformado no "Robertão" em 1967.

Os "Robertões" de 67 a 70 vão incorporando clubes de mais Estados até que, em 1971, surge o Campeonato Nacional. Foi em um Robertão, em 1969, que Pelé faz o milésimo gol - em cima do Vasco. A unificação de títulos promovida em 2010 pela CBF acerta ao considerar os Robertões equivalentes a um Brasileiro. Mas errou ao fazer o mesmo com a Taça Brasil, que tinha um perfil mais parecido com o da Copa do Brasil.

A Taça Brasil era curta e não era prioritária para as forças do eixo Rio-SP. Era uma copa que reunia os campeões estaduais, mas estes jogavam várias fases por "zonas geográficas" até, lá na frente, se encontrarem com os campeões de São Paulo, do Rio e do ano anterior. Na prática, Santos e Palmeiras, os mais fortes da década, sempre apareciam na boca do gol e decidiam entre eles quem seria campeão.

O Botafogo de Garrincha foi o grande time do Rio de Janeiro na década de 60, mas o fato é que não conseguia fazer frente ao Santos de Pelé. Só venceu a Taça Brasil de 68, quando Santos e Palmeiras se recusaram a jogar a competição.

O Flamengo ganhou seu único Rio-São Paulo (61) e levou dois Cariocas. Um deles, o de 63, teve na final, um Fla-Flu, o maior público já registrado em uma partida de futebol - 194.603 pessoas no Maracanã. Mas a década foi dura para os flamenguistas, com quatro vice-campeonatos, um deles para o Bangu.

O Bangu de 66 é o último campeão carioca da história que não faz parte do grupo de quatro grandes do Estado - o clube ainda foi vice-campeão três vezes na década.

Em 1970, dois grandes saíram de uma fila incômoda. O Vasco, quebrando um jejum de 12 anos sem títulos, e o São Paulo, que saiu de uma seca de 13 anos e foi campeão paulista justo no ano da conclusão do Morumbi. O Corinthians passou a década toda sem ganhar nada.

O Grêmio conseguiu seu único heptacampeonato gaúcho, entre 62 e 68. Na sequência, começou o domínio local do Inter, que se transformaria também no clube mais vencedor do país nos anos 70 (clique aqui para ver o Ranking da Década de 70).

Outros clubes que dominaram em seus Estados foram o Náutico, único hexacampeão pernambucano da história (entre 63 e 68) e duas vezes vice da Taça Brasil; o Paysandu, sete vezes campeão paraense; e o Campinense, único hexa da história da Paraíba. A Copa Norte-Nordeste, no fim da década, movimentou os clubes daquelas regiões e teve títulos de Sport, Ceará e Fortaleza. O Atlético-PR (hoje Athletico) saiu de uma fila de 12 anos em 70 (engataria outra de 12 em seguida) ao ganhar o Paranaense com os veteraníssimos campeões do mundo Djalma Santos e Bellini.

Na lista abaixo, atribuo a Botafogo e Santos o título do Rio-São Paulo de 1964. O Botafogo ganhou a primeira final, mas o segundo jogo nunca ocorreu. Em 1966, Botafogo, Santos, Vasco e Corinthians terminaram empatados, mas não havia datas para ser definido o campeão. Não atribui o título de 66 a nenhum deles, o campeonato simplesmente não acabou. As convocações abaixo se referem a jogadores chamados para as Copas do Mundo de 1962, 1966 e 1970 e são um importante elemento para entendermos a força de cada clube naquela época.

RANKING DA DÉCADA DE 60:

#1 Santos
2 - Intercontinentais (1962 e 1963)
2 - Copas Libertadores (1962 e1963)
1 - Robertão (1968)
7 - Paulistas (1961, 1962, 1964, 1965, 1967, 1968 e 1969)
2 - Torneios Rio-São Paulo (1963 e 1964)
5 - Taças Brasil (1961, 1962, 1963, 1964 e 1965)
1 - Recopa Intercontinental (1968)
*convocações para as Copas - 18

#2 Palmeiras
2 - Robertões (1967 e 1969)
2 - Paulistas (1963 e 1966) - 5 vices
1 - Torneio Rio-São Paulo (1965)
1 - Taça Brasil (1967)
2 - Vices Libertadores (1961 e 1968)
1 - Vice Robertão (1970)

*convocações para as Copas - 6

#3 Botafogo
4 - Cariocas (1961, 1962, 1967 e 1968)
2 - Torneios Rio-São Paulo (1962 e 1964)
1 - Taça Brasil (1968)
3 - Triangulares de Caracas (67, 68 e 70)
*convocações para as Copas - 12

#4 Cruzeiro
6 - Mineiros (1961 e 1965 a 1969)
1 - Taça Brasil (1966)
1 - Vice Robertão (1969)
1 - Triangular de Caracas (70)

*convocações para as Copas - 4

#5 Fluminense
1 - Robertão (1970)
2 - Cariocas (1964 e 1969) - 2 vices
*convocações para as Copas - 7

#6 Grêmio
7 - Gaúchos (1962 a 1968)
*convocações para as Copas - 2

#7 Flamengo
2 - Cariocas (1963 e 1965) - 4 vices
1 - Rio-São Paulo (1961)
*convocações para as Copas - 3

#8 Náutico
6 - Pernambucanos (1963 a 1968)
1 - Vice Taça Brasil (1967)
*convocações para as Copas - 0

#9 Bangu
1 - Carioca (1966) - 3 vices
1 - Torneio dos Campeões (1967)

*convocações para as Copas - 2

#10 Internacional
3 - Gaúchos (1961, 1969 e 1970)
2 - Vices Robertão (1967 e 1968)
*convocações para as Copas - 0

#11 Bahia
4 - Baianos (1961, 1962, 1967 e 1970)
2 - Vices Taça Brasil (1961 e 1963)
*convocações para as Copas - 0

#12 São Paulo
1 - Paulista (1970) - 3 vices
*convocações para as Copas - 5

#13 Vasco
1 - Carioca (1970) - 1 vice
*convocações para as Copas - 1

#14 Atlético-MG
3 - Mineiros (1962, 1963 e 1970)
*convocações para as Copas - 1

#15 Fortaleza
4 - Cearenses (1964, 1965, 1967 e 1969)
1 - Torneio Norte-Nordeste (1970)
1 - Vice Taça Brasil (1968)

*convocações para as Copas - 0

Menções estaduais:

Ceará
3 - Cearenses (1961, 1962 e 1963)
1 - Torneio Norte-Nordeste (1969)

Sport
2 - Pernambucanos (1961 e 1962)
1 - Torneio Norte-Nordeste (1968)

Paysandu
7 - Paraenses (61, 62, 63, 65, 66, 67 e 69)

Campinense
6 - Paraibanos (61 a 65 e 67)

Grêmio Maringá
2 - Paranaenses (1963 e 1964)
1 - Torneio dos Campeões (1968)

Siderúrgica
1 - Mineiro (1964)

América-RJ
1 - International Soccer League - EUA (62)

Corinthians
2 Vices Paulistas e 1 Rio-SP
*convocações para as Copas - 3

Portuguesa
*convocações para as Copas - 2

*****

CLIQUE ABAIXO PARA VER O RANKING DE CADA DÉCADA DO FUTEBOL BRASILEIRO:

DÉCADA DE 40
'Expresso da Vitória' do Vasco e São Paulo de Leônidas marcaram época

DÉCADA DE 50
Grandes pulverizam títulos e futebol do Brasil começa a ganhar o mundo

DÉCADA DE 60
Santos foi o maior quando éramos os maiores

DÉCADA DE 70
Inter domina início da "era nacional" do futebol

DÉCADA DE 80
Flamengo rompe fronteiras e ganha o mundo

DÉCADA DE 90
São Paulo supera concorrência em década 'paulista'

DÉCADA DE 00 (ANOS 2000)
Inter brilha na Libertadores e supera o São Paulo, tri brasileiro

DÉCADA DE 10
Corinthians campeão do mundo; brasileiros dominam Libertadores

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL