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Por que a Covid-19 é perigosa para os povos indígenas?

Indígenas da etnia Guarani Mbya, da comunidade guarani Jaraguá, na zona norte de São Paulo, são alguns do que estão em risco durante a pandemia - Felipe Rau/Estadão Conteúdo
Indígenas da etnia Guarani Mbya, da comunidade guarani Jaraguá, na zona norte de São Paulo, são alguns do que estão em risco durante a pandemia Imagem: Felipe Rau/Estadão Conteúdo
Priscila Tapajowara

Priscila Tapajowara

Nascida em Santarém (PA), Priscila é do povo tapajó, um dos 13 povos indígenas da região do baixo Tapajós. É militante indígena, ativista climática, fotógrafa e produtora audiovisual. Participa do coletivo Mulheres indígenas - Lutar é resistir, em São Paulo, e do coletivo Mídia Índia. Atualmente reside entre São Paulo e Santarém. Seu perfil no Instagram é @priscilatapajowara

15/04/2020 04h00

Umas das principais vulnerabilidades de nós, povos indígenas, é a dificuldade em obter atendimento em saúde. Se o sistema de saúde já é precário para quem vive na cidade, imagine para nós, principalmente para os povos que vivem em aldeias distantes e de difícil acesso. Em muitas aldeias, especialmente na floresta Amazônica, quando é necessário o tratamento de algum indígena em hospital, levamos horas ou dias para chegar ao serviço de saúde mais próximo.

Os atendimentos de saúde são realizados pelos Distritos Sanitários Especiais de Saúde Indígena - Disei, vinculados à Sesai, do Ministério da Saúde. Com os cortes orçamentários da Sesai, que o atual governo promoveu no ano passado, agrava a situação e coloca em perigo as pessoas do grupo de risco, principalmente quando os casos forem graves, pois a locomoção que antes era feita pela Sesai foi cortada e também não há capacidade técnica nem infraestrutura médica para atendimento nas aldeias. Faltam servidores e equipamentos. E, como agravante, diga-se que o sistema imunológico da grande maioria dos indígenas não está aparelhado perante as doenças dos brancos, principalmente os indígenas isolados ou com recente contato.

Em nossa cultura indígena, tanto para quem mora nas aldeias ou nas cidades, vivemos em comunhão com o próximo. Nós compartilhamos utensílios domésticos, dividimos o mesmo espaço de convivência, em nossas habitações vivem muitas pessoas, o que facilita o contágio de doenças infecciosas.

A representatividade dos anciões é de extrema importância em nossas culturas, pois eles carregam nossas sabedorias e nossas histórias. Quando algum deles morre repentinamente, perdemos não somente o ancião, mas também toda a sua sabedoria, conhecimento.

Outro fator preocupante diante dessa pandemia é a questão econômica. Principalmente para os indígenas que têm relação com a cidade e que dependem de benefícios do governo ou de venda de artesanatos.

Aqui em São Paulo, por exemplo, o povo Guarani, que vive no bairro do Jaraguá, não consegue vender seus trabalhos, já que quase tudo está parado, nem consegue circular fora da aldeia com segurança. Além disso, com a falta de mata e rio para tirar seus alimentos, eles tendem a passar fome. Isso também acontece com indígenas de outras regiões, pois às vezes as plantações e as caças não são suficientes para todos — muitos territórios são pequenos e estão rodeados por grandes áreas desmatadas.

Ao longo da história, desde a invasão até os dias atuais, nós povos indígenas viemos sofrendo grandes massacres e muitos povos foram dizimados. Nossos antepassados foram escravizados, evangelizados, tiveram terras invadidas, o que resultou em muitas mortes. E um outro fator que dizimou povos inteiros foram as doenças trazidas pelo homem branco.

Doenças infectocontagiosas, como gripe, sarampo, tuberculose e varíola, quando em contato com uma população indígena, principalmente os povos isolados ou de recente contato, foram umas das responsáveis pela redução da nossa população.

Diariamente lutamos contra os grileiros, fazendeiros, sojeiros, madeireiros, garimpeiros, missionários que ilegalmente invadem nossos territórios poluindo os rios, destruindo as florestas e transmitindo doenças mortais.

O novo coronavírus será mais uma tragédia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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