PUBLICIDADE
Topo

Crivella é o 1º prefeito do Rio a manter distância do Carnaval

O prefeito do Rio, Marcelo Crivella (Republicanos) - Gabriel de Paiva/Agência O Globo
O prefeito do Rio, Marcelo Crivella (Republicanos) Imagem: Gabriel de Paiva/Agência O Globo

Gabriel Sabóia

Do UOL, no Rio

21/02/2020 04h00

Se confirmada a expectativa, Marcelo Crivella (Republicanos) terminará o mandato como o primeiro prefeito do Rio de Janeiro a permanecer distante do Carnaval da Marquês de Sapucaí. Bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, Crivella prefere fugir de explicações quando indagado quanto ao porquê da ausência da festa e sempre negou resistência religiosa. "Eu não sei sambar", justificou na semana passada ao afirmar que não irá ao sambódromo.

Na ausência dele, outros políticos fizeram da passarela do samba seus palanques. No último ano, porém, de olho nas eleições deste ano —quando tentará a permanência no cargo— o prefeito chegou a debater com representantes da Igreja Universal a possibilidade de comparecer aos desfiles das escolas de samba, segundo informaram ao UOL fontes próximas a Crivella.

No entender do chefe do Executivo municipal, seria uma oportunidade para sinalizar tolerância a outros credos e atrair os votos daqueles que o veem como radical religioso. A presença de prefeitos nos desfiles é tida como protocolar na rotina da cidade, e a ausência de Crivella, independentemente da questão religiosa, seria vista como uma espécie de descaso com a agenda local. Apesar dos argumentos, o prefeito seguiu vetado do evento e seus eleitores devem terminar o mandato sem vê-lo tentar um "pé-ante-pé".

Para atenuar a imagem de "inimigo do samba", o prefeito, que segue marcado por cortes de verbas às agremiações, chegou a tentar neste ano aproximações com sambistas. Em janeiro, ele entregou a Ordem do Mérito Cultural Carioca a 15 nomes ligados ao samba. Entre os condecorados, estavam nomes como Nelson Sargento e Arlindo Cruz.

No entanto, o que era para ser uma homenagem, foi visto como um "tiro que saiu pela culatra". Nem mesmo os homenageados pouparam críticas diretas ao prefeito na hora da premiação.

"Nós criamos um Carnaval democrático, senhor prefeito. Fizemos uma coisa que os políticos têm dificuldade: trouxemos a comunidade para a Sapucaí. A festa é para todos. O senhor podia participar, senhor prefeito?", questionou ao ser homenageada a produtora cultural Maria Moura, responsável pela tradicional lavagem da Sapucaí.

A esposa de Arlindo Cruz, Babi Cruz, também não poupou o prefeito. "Crivella está no último Carnaval do mandato. Nós somos sambistas e gostaríamos de ter recebido em alguns dos outros anos de mandato dele. Antes tarde do que nunca", resumiu.

Apesar da relação conturbada, Crivella se elegeu com o apoio de todas as escolas de samba que compunham o Grupo Especial do Carnaval carioca em 2016. Além de ter afirmado durante a campanha que era favorável à subvenção financeira para os desfiles, o prefeito fez uma nomeação considerada icônica no início do seu mandato: Nilcemar Nogueira, a neta do compositor Cartola e de Dona Zica da Mangueira, assumiu a Secretaria Municipal de Cultura, dando a impressão de que o convívio seria pacífico.

Em sua cerimônia de posse, em janeiro de 2017, Crivella —que também é cantor gospel— chegou a entoar um trecho do "Samba da Minha Terra", composição de Dorival Caymmi ("quem não gosta de samba, bom sujeito não é..."). No mesmo dia, ao ser questionado sobre a presença no sambódromo naquele ano, o prefeito voltou a cantar. Desta vez, deu voz ao lendário samba "Festa para um Rei Negro", levado à Sapucaí pelo Salgueiro em 1971, e cantou "Ô-lê-lê, ô-lá-lá, Pega no ganzê, Pega no ganzá".

Crivella justificou os cortes de verba durante os últimos três anos dizendo que eles se deviam à crise financeira que atingiu os cofres públicos e que outras áreas deveriam ser priorizadas neste cenário. Em entrevistas, ele chegou a afirmar que a verba seria destinada a creches municipais.

Na ausência de Crivella, Witzel marca posição

Sucessor de Eduardo Paes, que é frequentador assíduo da quadra da Portela e segue sendo figura fácil na bateria da escola durante os desfiles, Crivella também sofreu com os comparativos com outros antecessores.

Apesar de não fazer o gênero "sambista", César Maia (DEM), por exemplo, não perdia a chance de ser fotografado na avenida. Saturnino Braga, Luiz Paulo Conde e Marcelo Alencar também bateram ponto no sambódromo durante os seus mandatos.

No vácuo da ausência do prefeito, o governador Wilson Witzel (PSC) ocupou o espaço logo no seu primeiro ano de mandato. De chapéu panamá na cabeça, Witzel recebeu outros políticos em seu camarote e cumprimentou eleitores.

Nesta semana, aproveitando a fresta aberta, Witzel reuniu representantes das escolas de samba no Palácio Guanabara e voltou a declarar apoio à festa. "Nunca deixaremos o samba morrer", declarou ele, que já confirmou presença na Sapucaí neste ano.

CarnaUOL