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Dupla cria rede online de proteção a mulheres vítimas de violência

Anne Wilians e Gabriela Manssur são finalistas do Prêmio Inspiradoras na categoria Acesso à Justiça - Júlia Rodrigues
Anne Wilians e Gabriela Manssur são finalistas do Prêmio Inspiradoras na categoria Acesso à Justiça Imagem: Júlia Rodrigues

Patrícia Junqueira

colaboração para Universa

18/10/2021 04h00

O isolamento social imposto pela pandemia de covid-19 fez crescer as denúncias de violência doméstica feitas ao Ligue 180 nos primeiros meses de 2020. Fechadas em casa com seus agressores, as mulheres viraram alvo fácil. De acordo com dados da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (ONDH), o aumento médio de casos foi de 14,1% em relação a 2019.

Desde os primeiros dias de isolamento, a promotora Gabriela Manssur, 47, e a advogada Anne Wilians, 32, passaram a acompanhar a situação não só no Brasil como em outros países. E decidiram agir rápido. Uniram forças para fundar o Justiceiras, uma força-tarefa online de voluntárias de várias áreas para proteção e defesa da mulher. A dupla é finalista na categoria Acesso à Justiça do Prêmio Inspiradoras 2021.

A iniciativa funciona de forma bastante simplificada para quem busca ajuda. Basta mandar uma mensagem por WhatsApp e, em seguida, preencher um formulário que é enviado como resposta. Os dados são encaminhados diretamente para a voluntária com formação adequada para cada tipo de necessidade: orientação jurídica, psicológica, assistencial e médica.

Em três meses, o projeto tinha 3 mil voluntárias.

Anne Wilians

Com um ano e meio no ar, o Justiceiras conta com 7.515 mulheres atendidas e 7.871 voluntárias cadastradas. Ao citar os números, Gabriela diz sentir-se realizada.

Nenhuma dessas mais de 7 mil mulheres foi vítima de feminicídio. A gente conseguiu tirá-las da violência.
Gabriela Manssur

"O projeto é um exemplo muito vívido da união das mulheres que podem ou não ter vivido situações de violência e que doam sua força e sua vontade de ajudar outras para que nós consigamos enfrentar a violência doméstica", avalia Denice Santiago, criadora da Ronda Maria da Penha na Polícia Militar da Bahia e referência nacional na proteção de mulheres vítimas de violência doméstica.

Solução ágil para um problema grave

A necessidade de criar algo do tipo já estava no radar de Gabriela. Por ser reconhecida no combate à violência contra a mulher, a promotora recebia muitos pedidos de ajuda diretamente e por meios diversos. O problema é que sentia falta de uma forma mais ágil de ajudar as mulheres de maneira ampla: um espaço de denúncia e apoio.

No contexto da pandemia, era ainda mais importante que o acesso a meios de denúncia fosse simplificado e que as vítimas recebessem orientações claras. E se orgulha de ter conseguido. "As pessoas se preocupam muito em criar algo totalmente mirabolante, mas faltava o básico, o óbvio", diz a promotora, que ganhou notoriedade nacional por ter estado à frente do caso João de Deus, acusado de abusar sexualmente de mulheres que o procuravam para ajuda espiritual.

Vanessa Alves do Nascimento, 37, foi uma das primeiras mulheres atendidas pelo movimento. A história dela começou como tantas outras. Assim que se casou, o marido mudou de comportamento e se tornou agressivo. "Ele me privava de sair, de ter contato com a minha família, eu não podia ter acesso a dinheiro, ele controlava minhas redes sociais", conta. Ela engravidou e, quando as filhas gêmeas nasceram, em dezembro de 2019, a situação ficou insustentável. Decidiu, então, ir para a casa de parentes.

As ameaças continuaram e Vanessa mudou-se para o interior na tentativa de fugir do ex-companheiro. Mas ele logo descobriu o novo endereço e retomou a intimidação. "Ele colocava foto da minha casa nas redes sociais e dizia que estava indo me buscar, que ia quebrar meu pescoço", lembra.

Nos primeiros dias de pandemia, ficou sabendo da criação do Justiceiras. Logo após preencher o formulário, foi contactada pela equipe e recebeu orientação adequada para fazer o boletim de ocorrência, abrir o inquérito e conseguir a medida protetiva.

Com apoio do projeto é mais fácil, porque as advogadas ensinam a cobrar que se cumpra a lei.
Vanessa Alves do Nascimento, uma das primeiras a usar o serviço do Justiceiras

Em poucos dias, o agressor foi preso. Condenado a 10 meses de prisão, foi solto após cumprir 8, mas nunca mais a procurou. "A medida protetiva é por tempo indeterminado e se estende para toda minha família. Ele não pode nem chegar perto das filhas". Vanessa conta que usou o que aprendeu em seu processo para ajudar uma outra mulher que se relacionou com seu ex a também conseguir uma medida protetiva. "O Justiceiras me devolveu a vida. Hoje eu posso trabalhar, levar minhas filhas à escola e sair na rua sem medo".

Uma dupla de Justiceiras

Conhecidas de longa data, a dupla Anne e Gabriela uniu suas qualidades para colocar o projeto de pé. "Falei para a Gabriela ficar na linha de frente e que eu cuidaria da gestão", revela Anne, que é presidente do Instituto Nelson Wilians e que tem carreira dedicada ao terceiro setor. Ela criou os fluxos de trabalho para cada grupo de ação do projeto. "É difícil ainda para a sociedade identificar o que é violência", conta, ao explicar a necessidade de treinamentos e manuais para padronizar os atendimentos. "A gente precisava dar respaldo para que essa ajuda fosse bem direcionada, pois estávamos tratando de algo muito delicado".

Mas Anne não deixou de lado as voluntárias que não se encaixavam nas funções formais do projeto. Para dar espaço a essas mulheres, foi criado um grupo de acolhimento e apoio às vítimas, formado por quem não tem formação em áreas específicas. "Se essa mulher compreendeu o papel dela em relação ao gênero, eu não posso desperdiçar essa vontade, não posso dizer que ela não serve para aquilo".

Na linha de frente, Gabriela usou toda sua experiência na defesa dos direitos das mulheres, tema que tem norteado sua carreira de promotora desde que assumiu o cargo em 2003. Ela percebeu que existiam poucas políticas públicas em trabalho de mapeamento da violência contra a mulher e decidiu fazer dessa sua missão.

Quando eu olho para mulheres assim, eu fico pensando que estou no caminho certo. E que venham mais, que nós inspiremos mais mulheres a estarem ao nosso lado fazendo a diferença na vida de tantas outras.
Major Denice Santiago, criadora da Ronda Maria da Penha

Eleita pela revista Forbes uma das 20 mulheres mais poderosas do Brasil em 2019, Gabriela diz que "trabalhar com mulheres é algo que bate na alma, é algo que faz a gente sentir vontade de fazer cada vez mais".

Para ela, o aumento da conscientização das mulheres sobre a necessidade de romper o silêncio e pedir ajuda é um dos maiores avanços dos últimos anos. Anne também destaca a importância da expansão do diálogo sobre a violência contra as mulheres. "A partir do momento que a gente traz para a consciência esses comportamentos, a gente consegue quebrar esses ciclos que se repetem de família em família e que são normalizados".

A promotora reforça a importância da união entre as mulheres. "Temos que respeitar mais umas às outras, sem puxar tapete porque tem espaço para todo mundo. Quando uma mulher dá um passo para trás todas nós damos dez para trás".

Sobre o Prêmio Inspiradoras

O Prêmio Inspiradoras é uma iniciativa de Universa e do Instituto Avon, que tem como missão descobrir, reconhecer e dar maior visibilidade a mulheres que se destacam na luta para transformar a vida das brasileiras. São 21 finalistas, divididas em sete categorias. Além de Acesso à Justiça, tem também: Inovação em Câncer de Mama, Informação para vida, Conscientização e Acolhimento, Equidade e Cidadania, Esporte e Cultura e Representantes Avon.

Para escolher suas favoritas, basta clicar na votação a seguir. Está difícil se decidir? Não tem problema: você pode votar quantas vezes quiser. Também vale fazer campanha, enviando este e os outros conteúdos da premiação para quem você quiser. Para saber mais detalhes sobre a votação, é só consultar o Regulamento.

No mês que vem, durante dos 21 dias de enfrentamento à violência, uma série de lives com as finalistas de todas as categorias vai debater este e outros temas relacionados ao universo feminino. Dá para acompanhar as novidades no portal Universa e em nossas redes sociais.

A premiação é uma iniciativa de Universa e do Instituto Avon, que tem como missão descobrir, reconhecer e dar maior visibilidade a mulheres que se destacam na luta para transformar a vida das brasileiras. Tem foco em três principais causas: violência contra a mulher, câncer de mama e equidade de gênero.