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Caso Mil Grau: "Estava cansado de tudo isso", diz autor da mobilização

Ricardo Regis mobilizou gamers nas redes sociais - Reprodução
Ricardo Regis mobilizou gamers nas redes sociais Imagem: Reprodução

Natália Alves

Colaboração para START

05/06/2020 14h25Atualizada em 05/06/2020 16h18

Resumo da notícia

  • Ricardo Regis mobilizou denúncias em massa contra o canal Mil Grau, que já foi banido da Twitch
  • Vídeos na internet mostram comentários racistas e homofóbicos do grupo de streamers
  • Jornalistas e criadores de conteúdo revelaram ter sido vítimas de perseguição do mesmo grupo

O ex-integrante do canal Nautilus, Ricardo Regis, achou "horroroso" o que o jornalista da ESPN, Luiz Gustavo Queiroga, estava passando nas redes sociais. "Ele fez um tuíte comemorando que, no jogo Valorant, da Riot Games, finalmente poderia escolher um personagem negro para jogar, o que é incomum nesse mercado. E ele foi automaticamente atacado pelo pessoal do canal Mil Grau", conta Regis, que trabalha como editor de vídeos.

"Estava cansado de tudo isso, mas achei aquilo tão horroroso que quis mostrar meu apoio, deixar claro que o Luiz não estava sozinho". Foi assim que Ricardo se tornou o líder de um mutirão para derrubar o canal de streaming Mil Grau, antigo Xbox Mil Grau.

Os streamers, que têm mais de 170 mil inscritos no YouTube, são mal vistos na comunidade gamer por usar frases racistas, misóginas e homofóbicas durante suas lives.

Em materiais reunidos por Ricardo e outros gamers, a equipe do canal, que tem entre os integrantes Henrique Martins, conhecido como "capim", aparece falando frases como "negros tinham que voltar para senzala" e "brincando" que, caso uma namorada quisesse curtir o Carnaval, ela seria "morta, esquartejada e dada para os cachorros".

Integrantes Mil Grau - Reprodução - Reprodução
Integrantes do Mil Grau são conhecidos como "Japa", "Chief" e "Capim"
Imagem: Reprodução

O discurso de ódio do grupo não se restringe aos vídeos: o grupo também é conhecido por ameaçar e perseguir jornalistas e profissionais do mercado.

Após o ataque ao jornalista da ESPN, Capim e seus companheiros fizeram uma live no YouTube com o título "Odeio Macaco".

"Mas eles brincam com o limite, então colocaram na imagem um personagem de videogame para dizer não estavam sendo racistas", afirma Regis. Porém, o estopim para o mutirão foi, de acordo com ele, um tuíte publicado no sábado (30) por "capim", comparando manifestantes negros, que protestam nos EUA contra o racismo da polícia e a morte de George Floyd, e astronautas brancos.

Assim, Ricardo Regis reuniu, em uma thread, diversos registros em que os integrantes do Mil Grau são racistas ou misóginos. O fio ensina, também, como denunciar vídeos em plataformas como o YouTube, além de dar dicas de segurança para não serem vítimas de possíveis ataques cibernéticos.

Histórico de polêmicas

Desde que começou a fazer o movimento, Ricardo Regis diz que tem recebido e-mails de alerta porque seguidores do Mil Grau estão tentando roubar suas contas de redes sociais.

As pessoas costumavam ficar em silêncio por medo, mas eu quis mostrar que eles não me assustam
Ricardo Regis, líder da mobilização contra o Mil Grau

Após o ex-editor do Nautilus começar a fazer o dossiê, outros profissionais decidiram abrir o jogo sobre perseguições que sofreram. O grupo costuma expor críticos em suas redes sociais e incitar seguidores a mandar mensagens diretas ameaçando jornalistas e profissionais como uma forma de intimidá-los.

Uma vítima, que pediu anonimato para a reportagem, foi alvo de mensagens de seguidores do Mil Grau após desavenças profissionais com o grupo. "Eles expuseram meu perfil nas redes sociais, além de me constranger nas redes sociais de meu empregador", disse em entrevista ao START.

Por sua vez, Guilherme Dias, apresentador do site The Enemy, do grupo Omelete, contou em uma sequência de tuítes que passou "meses infernais".

"Recebíamos insultos e ameaças diárias em nosso ambiente de trabalho, o YouTube, e em nossas redes sociais", diz Dias. O motivo: "Questionei publicamente a perseguição deles contra uma colega de outro veículo, em que eles fizeram horas de transmissão insultando, divulgando as redes sociais e, no chat, mensagens odiosas que ameaçavam até estupro".

Já o advogado Erick Santos também começou a ser ameaçado ao publicar, na última quarta-feira (3), um tuíte dizendo que estaria disponível para aconselhar judicialmente qualquer pessoa que fosse ameaçada de processo pelos streamers.

"Ele estavam em uma live no YouTube fazendo deboche sobre o caso quando ficaram sabendo do meu tuíte. Comecei a receber mensagens diretas e mentions de prints de fotos minhas, dos lugares que frequento, onde trabalho, como uma forma de me intimidar", conta Santos, que fez um boletim de ocorrência por ameaça na Polícia Civil de São Paulo.

"Também estou encaminhando prints e provas de crimes de divulgação de discurso de ódio ao Ministério Público de São Paulo e Federal pelos canais de denúncia".

Repercussão

A mobilização iniciada por Regis logo se espalhou e foi apoiada por diversas personalidades nas redes sociais, incluindo o youtuber BrkSEdu e o canal Jovem Nerd. O caso ganhou repercussão internacional entre jornalistas e membros da indústria, chegando até a Corey Barlog, diretor do jogo God of War.

O jornalista norte-americano Jason Schreier, da Bloomberg, também repercutiu o caso, que logo foi respondido pelo perfil da Xbox Brasil, em inglês.

Até mesmo celebridades compartilharam a publicação de Regis, como o ator Mark Hamill (o Lukeskywalker de Star Wars)

O que dizem as empresas?

Xbox, YouTube, Twitch e Twitter estão sendo pressionados a se posicionar e banir o Mil Grau de suas plataformas. A marca de videogame, que pertence à Microsoft, soltou, na segunda-feira (1), uma mensagem de repúdio sem citar o episódio especificamente. Na terça-feira (2), a Xbox publicou um comunicado exigindo a remoção da marca dos canais de "Capim". "O conteúdo da conta Mil Grau não reflete nossos valores fundamentais de respeito, diversidade e inclusão", declarou por meio de sua assessoria de imprensa. "Não temos informações adicionais nesse momento."

O YouTube compartilhou com o START uma nota de repúdio:

"Trabalhamos constantemente para elaborar e agir de acordo com nossas políticas, dando aos usuários os recursos necessários para sinalizarem conteúdos que julguem violar essas regras. Por esse sistema, tomamos conhecimento do conteúdo do canal XBOX Mil Grau, que teve conteúdos removidos por violação de nossas diretrizes", disse um porta-voz da plataforma.

Xbox Mil Grau Canal YouTube sem vídeos - Reprodução - Reprodução
Vídeos foram tirados do ar ou colocados em "privado"
Imagem: Reprodução

Nas redes sociais, a conta do YouTube também revelou que o Mil Grau foi removido permanentemente de programa de parcerias da plataforma, ou seja, eles não poderão mais receber doações no chat e monetizar os vídeos do canal.

A Twitch chegou a banir o canal da plataforma por 15 dias por conta de declarações racistas, mas a empresa ainda não respondeu as mensagens e e-mails enviados pela equipe de START à assessoria de imprensa. Assim que as plataformas entrarem em contato, atualizaremos esta reportagem.

Xbox Mil Grau nota - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução
Em seu Twitter, Henrique Martins, o Capim, publicou uma nota oficial alegando que o canal Mil Grau "jamais cometeu atos de racismo ou discriminação".

O texto diz, ainda, que o perfil dos streamers é para maiores de 18 anos e que, por isso, "fazemos brincadeiras e piadas conhecidas como de 'humor negro'". Após a grande repercussão, todos as publicações do twitter oficial do grupo foram apagados.

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