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Pedro Antunes

'Então é Natal', de Simone, é a música mais injustiçada do Brasil

Simone, na capa do disco "25 de Dezembro" - Reprodução
Simone, na capa do disco "25 de Dezembro" Imagem: Reprodução
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Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

24/12/2020 10h53

Sem tempo?

  • "Então é Natal e o que você fez?"
  • Depois de ter vendido mais de 1 milhão de cópias, a faixa caiu no desgosto popular
  • Por tempo demais, a música "Então é Natal" foi a injustiçada do País
  • A verdade é que está na hora da gente abraçar "Então é Natal", de Simone

O dia 25 de dezembro se aproximava e Dona Tereza, como de costume, buscava o CDzinho já gasto de "25 de Dezembro", da cantora Simone, em uma coleção cheia de álbuns do cantor Fagner (o qual adorava até descobrir as recentes escolhas políticas do artista, um eleitor arrependido de Bolsonaro), e colocava-o para tocar.

"Então é Natal" ecoava pelas caixas de som do pequeno aparelho de CDs e invadia os cômodos da casa - ela gostava tanto que levava o álbum para ouvir no carro até o meio do ano, meses distantes da época propícia. Os filhos, os três nascidos da geração dos anos 1990, reclamavam.

Óbvio que reclamavam

A verdade é que o Brasil inteiro já reclamou de "Então é Natal" - com exceção, talvez, da própria Simone e das pessoas mais próximas a ela que, certamente, beneficiaram-se do fato de que o álbum tenha vendido mais de 1 milhão de cópias quando lançado, em 1995.

Virou moda, por certo tempo, esnobar de "Então é Natal", uma versão abrasileirada escrita por Cláudio Rabello de "Happy Christmas (War is Over)", uma trova criada por John Lennon em 1971.

Na época, John vivia com Yoko Ono em um hotel em Nova York. E canções natalinas (e até discos inteiros) eram muito comuns nos Estados Unidos e Europa - é uma tradição meio besta, é verdade, mas que já gerou muito dinheiro para nomes do pop.

Portanto, ao viajar para os Estados Unidos, entrar numa loja de discos e se ver rodeada de álbuns com inspirações natalinas, Simone decidiu fazer o mesmo em terras brasileiras.

E deu muito certo. O disco "25 de Dezembro" é um marco e não só pelo número expressivo de vendas. É antropofágico, modernista até. Ouvir Simone e os autores absorverem as heranças principalmente anglo-saxãs (tradicionalmente impostas para países dos trópicos) de Natal e trazerem para a linguagem da época e local é até transgressor.

Por fim, estávamos em meados dos anos 90, afinal, uma década que vivia a ressaca da efervescência dos anos 80. Em 1995, o País vivia uma efervescência econômica com o bem-sucedido Plano Real e a democracia parecia estabelecida após as eleições presidenciais. A classe média irradiava felicidade com a equivalência do real e do dólar.

E "Então É Natal" é a primeira música do álbum. O curioso que apertasse o play naquele disco (há quem diga que foi o primeiro trabalho exclusivamente dedicado ao Natal do País, inclusive) receberia, de primeira, essa porrada melancólica na voz grave de Simone.

Depois, vinham outros clássicos recebidos com menos azedume pela população, como "Bate o Sino", "Noite Feliz" e até "Ave Maria" (esta última, em uma reedição do álbum de 1998).

Ser a primeira faixa do disco foi a benção e a maldição de "Então é Natal". É a primeira a ser tocada, sempre - já que, caso você não saiba, os CDs começavam pela primeira música da tracklist e era impossível fugir, pelo menos, de ouvir os primeiros segundos da música.

Críticos, lá pela década passada, chamaram a canção de "brega" numa reportagem.

Oras, os anos 90 foram inerente e deliciosamente bregas na música popular.

Veja só essa versão ao vivo, transmitida pelo SBT, com Simone acompanhada pelo Coral Meninas Cantoras de Petrópolis, de 1995. É o puro suco de anos 90.

A versão da Simone é infinitamente melhor do que aquela de John Lennon

Tudo é grandioso em "Então é Natal". Sinos tocam, o coral canta, Simone, dona de uma das melhores vozes que o País já ouviu, entrega uma performance segura e com assinatura.

"Então é Natal e o que você fez?" Direta ao ponto, Simone propõe uma reflexão - tão necessária nessa época de fim de ano, aliás.

A música mais injustiçada do Brasil

Simone e "Então É Natal" sofreram pelo excesso de execuções em lojas de departamento e rádios no passado. Hoje, a faixa não tem a mesma procura e, mesmo assim, o peso de ser esse martírio musical natalino prossegue.

O que difere "Então É Natal" de hits do pop da atualidade, aqueles de Barões da Pisadinha, Tierry, etc, que tocam em todos os lugares? A música de Simone representa uma época, tal qual "Tá Rocheda", dos Barões. Mas, em 2020, a gente sabe que a canção dela sobreviveu mais do que a uma estação do ano. Tocou tanto, por tantos anos, que até enjoou. Faz parte.

Mas são dois pesos e duas medidas, não é?

Afinal, Mariah Carey é louvada até hoje por "All I Want For Christmas Is You", uma canção breguíssima que volta todo ano, também.

Se comparadas, sou mais "Então É Natal" e a melancolia de Simone do que a Mariah e naquele esforço exagerado para conquistar alguém, acompanhada desses arranjos tão pouco inspirados.

Deveria ser A MÚSICA DO NATAL 2020

Pense neste ano de 2020 tão cheio de balbúrdias. Qual música é melhor para propor uma autorreflexão e buscar um 2021 melhor do que "Então é Natal"?

Afinal, como foi seu 2020? Votou direitinho? Ficou em casa, se possível? Pensou no próximo algumas vezes? Deu caixinha de Natal para quem você podia?

Chacota virou bullying

Há alguns anos chegaram a fazer campanhas contra Simone e a cancão. Bullying virtual, mesmo, que na época era visto como "engraçado".

Para a geração de 20 a 30 anos, "Então é Natal" é uma música que não a representa, mas não se incomodam, aparentemente, em dar stream para Mariah Carey e a "Então é Natal na versão em R&B meloso dos Estados Unidos". O que, por si só, é algo a se pensar, certo? Também é uma música que apanhou dos críticos.

Ou seja, levou bordoada de um lado e de outro. E era para tanto?

Engraçado, mesmo, é pensar que nunca vi uma campanha contra a versão da música de John Lennon. Também não li, ano após ano, muitos artigos citando que Lennon "pegou" essa melodia de uma música já bastante conhecida e histórica do folclore irlandês.

Ou, ainda, não vi nenhum movimento que pedisse para que as pessoas parassem de dar play em "All I Want For Christmas Is You".

O tratamento que "Então É Natal" recebe é desproporcional a tantas outras músicas que marcaram gerações. A música leva bordoada por todos os lados.

Sobrou, mesmo, para Simone.

E para Dona Tereza, quem, espero eu, esteja agora ouvindo "Então É Natal" sossegadamente em casa, já que os filhos estão crescidos e são donos dos próprios fones de ouvido.