PUBLICIDADE
Topo

Pedro Antunes

O brasileiro não tem condição de sofrer com o novo (e ótimo) disco de Adele

Conteúdo exclusivo para assinantes
Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

19/11/2021 06h43

"Eu levarei flores para o cemitério do meu coração."

Com esse primeiro verso acachapante de "Strangers By Nature", Adele Laurie Blue Adkins, a inglesa de 33 anos, introduz o quarto álbum da carreira, "30", lançado oficialmente hoje.

Na faixa, Ludwig Göransson acaricia um sintetizador e logo é acompanhado por violinos que parecem ter saído de algum filme musical estrelado por Judy Garland (homenageada nesta canção).

Dona do vozeirão mais potente da música pop da última década, Adele canta contida aqui, quase como se aceitasse o seu melancólico e inevitável destino de visitar o túmulo do próprio coração, vez após outra, a cada término e desilusão amorosa.

Pausei a música rapidamente, tirei os fones de ouvido e andei pela sala e cozinha de casa, aflito em pensamentos. "Não, não, não", refleti. Já tinha ouvido o álbum no escritório da Sony Music no Rio de Janeiro, a convite da gravadora, mas quis escutá-lo mais uma vez nesta sexta, pós-lançamento.

"O Brasil está preparado, emocionalmente, para sofrer com esse disco? Depois destes anos de 2020 e 2021?".

Desculpe, Adele, mas a resposta é não. Depois de tudo o que se descobriu durante a CPI da Covid, de ver Bolsonaro falar isso ou aquilo no exterior, de denúncias de laranjas, rachadinhas.

2021, para o brasileiro, parece ser uma longa luta contra o Mike Tyson no auge da forma. Quando o tempo no ringue já está no final e o adversário, cansando diminui o ímpeto, surge Evander Holyfield para somar-se a ele. Adele é Holyfield.

Lá vem mais pancada, supus. Errei em partes. Vamos lá.

Afinal, "30" é fruto de mais um rompimento. Dolorosíssimo. Adele e o empresário Simon Konecki se separaram em 2019 em processo que foi invasivamente debatido na imprensa e entre os fã-clubes da cantora.

Houve quem comemorasse, até, o desgosto da inglesa famosa por transformar amarguras do coração em álbuns geniais. Abutres do coração dos outros, isso que são.

Mas a figura mais fascinante da música (e também uma das mais rentáveis) desde a morte de Amy Winehouse estava há cinco anos sem lançar um álbum e questionava até se seguiria a fazê-lo.

O novo disco é um ponto fora da curva do "Adeleverso" (o universo de Adele) iniciado em "19" (2008) e consagrado com o disco multipremiado "21" (2011). Também se distancia do impactante "25" (2015), o antecessor, que foi impulsionado para as alturas graças ao single blockbuster "Hello".

Mais do que chorar as pitangas (e saiba, ela o faz vez ou outra neste trabalho), ela está pronta para a próxima. Em vez de lamentar o passado, "30" é um esperançoso olhar para o futuro apesar de um presente difícil.

E muito disso se deve a Angelo, o filho de Adele e Simon, atualmente de 9 anos. Quando Adele iniciou o álbum e o divórcio, o pequeno tinha 6 e, quem está habituado a ter criança por perto sabe que esta é uma fase cheia de perguntas e "por quês".

"30" é um disco de "por quês"

De respostas, não só de lamúrias. Afinal, quando Adele leva flores para o cemitério do seu coração, mais do que sofrer, ela está prestando uma homenagem à memória e ao que já foi. Mas ela segue lá, pronta para mais.

Em "I Drink Wine", outro petardo do álbum, ela admite viver o momento "mais turbulento da minha vida".

A diferença aqui é a perspectiva do eu-lírico cantado pela cantora. Os versos de Adele, até os mais arrasadores, parecem já ter sido medicados com o "remédio do tempo", como costumava de falar da Dona Ângela na minha infância, toda vez que chegava na escola triste por alguma paixonite não correspondida (tenho ascendente em câncer, sabem como é: sofridinho desde criança).

Adele sabe, assim como eu, que essas dores vêm e vão. Algumas deixam cicatrizes até e a sensibilidade pode incomodar, mas passam.

E essa dica está escondida em "To Be Loved", uma canção em que Adele canta como se não houvesse amanhã de forma vagarosa acompanhada só por piano.

"I'll stand still and let the storm pass by
Keep my heart safe 'til the time feels right"

Algo como "eu seguirei firme e deixarei a tempestade passar. Vou deixar meu coração seguro até sentir que é a hora certa".

Isso, meus amigos, é maturidade.

"30" é um disco, acima de tudo, corajoso. Foge das fórmulas que deram tão certo antes. A gravadora deve ter ficado preocupadíssima. Não por acaso, "Easy On Me" foi a escolhida como single do disco. É a faixa mais "Adeleverso" do trabalho.

Mesmo assim, será um petardo de vendas, números de plays e recordes quebrados.

Um tempo atrás, escrevi que não repetiria o impacto cultural de "21". E a sensação é a mesma. Impacto cultural não significa números astronômicos e, sim, força em mexer nas estruturas da indústria. Mas também não acho que seja mais necessário no caso de Adele.

"30" brinca com o vintage, algo que sempre fascinou Adele. Nos outros álbuns, ela usava referências do soul e R&B retrô. Aqui, a música alcança um lugar de mais conforto sonoro. Tudo soa vintage e lo-fi, com ruidinhos meticulosamente deixados para parecer que estamos ouvindo um disco de vinil mesmo usando super fones de ouvido e o plano mais caro de alta definição de uma plataforma de streaming.

Como ela contou em entrevista à revista Vogue, tudo mudou aos 30 anos. Com o divórcio, vieram outros tantos planos quebrados. Pesadíssimo. A crise dos 30 não se chama crise dos 30 à toa.

Mas depois de toda a crise, chega a calmaria.

Para a sorte de nós, brasileiros, "30" não é um álbum de sofrência pura. Pelo contrário, é um álbum que canta o pós-sofrimento. Chega a ser otimista até.

As primeiras impressões são de que não existem hits inquestionáveis, mas o disco é um parrudo trabalho que reúne algumas das canções mais emotivas e bonitas que Adele já entregou.

"My Little Love" é gentil e afetuosa na conversa entre Adele e Angelo, "Oh My God" leva a cantora para a pista de dança com desenvoltura. "Woman Like Me" é um hino que nasceu pronto.

Mas falta um quê de Martinho da Vila, isso é verdade. (Risos)

Há uma paz em "30", uma certeza de que a tormenta vai passar. Também soa como uma artista mais confiante no próprio ofício, sem tentar replicar fórmulas que deram certo no passado.

A idade (e Adele) nos ensinam que o passado sempre fica para trás.

Em "30", Adele chora, ri, bebe vinho e dança como se amanhã não fosse dia útil, esquecida da ressaca e da dor no corpo. Bem-vinda ao clube, Adkins. Os 30 anos são terríveis. E incríveis.

Você pode reclamar comigo aqui, no Instagram (@poantunes), no Twitter (também @poantunes) ou no TikTok (@poantunes, evidentemente).

*O colunista viajou ao Rio de Janeiro a convite da Sony Music para ouvir o álbum "30", da Adele.