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Pedro Antunes

'Bohemian Rhapsody' arruinou filmes de rock com fake news e novas verdades

Rami Malek em "Bohemian Rhapsody" (2018)
Rami Malek em "Bohemian Rhapsody" (2018)
Divulgação
Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

14/12/2020 16h22

O escritor George Orwell escreveu em 1948 o que parecia ser uma ficção exagerada, mas hoje assustadora e perigosamente real. O livro "1984" falava sobre um governo totalitário que reescrevia a própria história a partir do Ministério da Verdade.

O protagonista da história trabalhava para esse ministério e tinha o trabalho de reescrever documentos e contar a história do ponto de vista do governo - e destruir contradições, erros e qualquer coisa que não defendesse os ideais de quem estava no topo.

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Orwell e a ideia de "1984" martelavam minha cabeça a cada nova cena de "Bohemian Rhapsody" (filme, aliás, que será exibido na Tela Quente hoje, 8, na TV Globo), longa de 2018 que conta a história de Freddie Mercury e do Queen.

Estou falando de outra "queen", fãs de "The Crown"

O que acontecia ali?

Bom, construiu-se uma nova verdade.

Ou a pós-verdade. É a fake news que seu tio recebe por WhatsApp e repassa sem pesquisar as fontes, em forma de entretenimento.

Incoerências históricas

Sob o pretexto da liberdade poética da narrativa artística, a história do Queen e Freddie Mercury (bem interpretado por Rami Malek, da ótima série "Mr. Robot", disponível no Amazon Prime Vídeo) foi destruída para ser contada de uma forma que funcionasse melhor na tela grande.

Qual é o problema, certo? Harry Potter é um sucesso literário e no cinema e não prova que bruxos e magos existem, certo? Corretíssimo, mas?

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Mas o sucesso da franquia (hoje um tanto combalida por conta das falas da criadora JK Rowling) abriu a porteira para uma enxurrada de ficções fantasiosas de baixa qualidade para surfar na onda do sucesso do bruxinho com uma cicatriz de raio na testa.

"Bohemian Rhapsody" é um filme chapa-branca que reescreve a história de Freddie Mercury e do Queen a partir de uma visão romântica e corretinha demais. A verdade nem sempre é bonita, mas é ela que torna humanos até os grandes astros, como Mercury.

Alterações históricas incomodam

Até fãs do Queen se irritaram com a forma como passagens da história da banda foram transformadas para encaixar na narrativa. E isso vai desde a forma como Freddie conhece os integrantes da banda Smile (que viria a se tornar o Queen) à narrativa brega de como clássicos da banda foram criados.

Veja as cenas abaixo, por exemplo:

Como arte, cinema e tudo mais, o que a gente vê ali é dificílimo de engolir.

A narrativa é vaga, há pouca construção de personagens e sub-tramas. Para que, não é minimamente iniciado na história do Queen vai ver uma história sendo contada às pressas, sem que a gente possa entender quem é, por exemplo, John Deacon, o baixista quietão do Queen (mas músico genial).

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Ou ainda o motivo de Roger Taylor ser tão rabugento.Quem é, de verdade, é o animado Brian May? Até mesmo as nuances da personalidade de Freddie Mercury. Como ele lidou com a fama, de onde veio a autoconfiança na conversa com as gravadoras?

É a sensação de que alguém juntou alguns momentos chaves da história do grupo, sem se preocupar em explicar e justificar algumas passagens ou transformações.

A verdade é que "Bohemian Rhapsody" é como se a história de Freddie Mercury e Queen tivesse passado por um filtro da Disney. Tudo fica engomadinho e certinho demais.

Até mesmo momentos mais tensos da narrativa (o distanciamento de Freddie do restante da banda, o ego inflado de cada um dos integrantes, o fundo do poço e a doença do vocalista) passam por um filtro embelezador e romantizador.

Nem Mark Zuckerberg e os padronizadores filtros de Instagram teriam capacidade de fazer tanto estrago.

Isso não quer dizer que outras cinebiografias sejam precisas, 100% verídicas. Isso não é exatamente a questão em "Bohemian Rhapsody".

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Aqui vão 5 filmes que valem a pena assistir, pensando em narrativas cinematográficas:

  • 'Johnny e June' (a história de Johnny Cash e June Carter)
  • '8 Mile - Rua das Ilusões' (do rapper Eminem)
  • 'Amadeus' (inspirada em Mozart)
  • 'Ray' (a história sobre Ray Charles)
  • 'The Doors' (título autoexplicativo, certo?)

O perigo da pós-verdade

O perigo de "Bohemian Rhapsody" é que o Queen tem sucessos gigantescos, populares a níveis absurdos, e Freddie Mercury era uma figura mítica, mas a história e a trajetória da banda nunca foram tão esmiuçadas ou retratadas, diferentemente de outras bandas do panteão roqueiro clássico.

Atiçou a curiosidade, obviamente. Principalmente porque o trabalho de marketing e de divulgação do filme foi exemplar. E soube usar e abusar nos vídeos promocionais do grande acerto do longa: a restituição do histórico show do Queen no Live Aid, no lotado estádio de Wembley, em julho de 1985:

Foi um sucesso absoluto, com mais de US$ 900 milhões arrecadados de bilheteria (segundo o site Box Office Mojo) e cinco indicações ao Oscar (destas, foram 4 vitórias, três em categorias técnicas e uma para Rami Malek como Freddie Mercury).

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Cópias genéricas e pasteurizadas

O que a indústria entendeu de "Bohemian Rhapsody" é a fórmula de se fazer um filme de sucesso não passa por um apreço artístico (no ponto de vista de cinema, mesmo), com muito dramalhão e resoluções clichês.

Principalmente, sacou ser preciso dar uma polida na trama, tirar as derrotas e as instabilidades dos personagens para valorizar uma jornada do herói mais simples, como se fosse um filme da Marvel, com um vilão esquecível e um personagem que parece falho, mas é só impressão.

Falta aquela humanidade. E, depois desse arrombo de bilheteria, vimos pelo menos outros dois músicos (igualmente ingleses, aliás) ganharem adaptações sofridas para as telonas.

Sim, estou falando de "Rocketman", a história de Elton John, e de "Stardust", filme sobre o mito de David Bowie.

Em comum, são filmes ultraprocessados, tipo aquele leite vendido no supermercado.

Mas e o The Dirt?

Vi muita gente elogiando "The Dirt", a história do Motley Crue, por não "esconder" alguns momentos mais pesados da banda, como as arruaças em hotéis, abusos de drogas e problemas pessoais.

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É bom notar que até esses causos foram tratados pelo filtro embelezador para mostrar a jornada da banda, nada foi realmente pesado e tudo foi colocado ali, milimetricamente posicionado na narrativa, para fazer com que o grupo tivesse um triunfo no final feliz.

O filme, aliás, está na Netflix:

Aliás, finais felizes até quando?

É isso que eu me pergunto, por vezes.

Mas sigamos.

O que "Bohemian Rhapsody", principalmente, nos ensinou antes de criar o hype em torno de um filme desse:

Quando a banda/artista está envolvida demais, desconfie

Diferentemente de algumas autobiografias, nas quais o personagem se coloca em uma posição de franqueza e fraqueza diante dos acontecimentos da vida, no cinema, a história se condensa em duas horas, mais ou menos, e poucas são as personalidades que vão se permitir expor de tal maneira na tela grande.

Brian May e Roger Taylor, do Queen, participaram ativamente na criação de "Bohemian Rhapsody", o que faz com que a gente pensar na veracidade de algumas cenas, principalmente com eles ali.

Por ser contra a visão puritana do projeto, aliás, Sacha Baron Cohen foi expulso do papel de Freddie.

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Afinal, a banda segue em turnê (nos últimos anos, acompanhada do exemplar Adam Lambert). E "Bohemian Rhapsody" fez crescer demais a procura pelas performances da banda (assim como subiu os números de plays dos maiores clássicos do grupo nas plataformas de streaming.

Então, é óbvio?

ÓBIVO...

ÓÓÓÓÓBVIO que o filme foi criado como parte de uma grande engrenagem e jamais entregaria situações que pudessem arranhar ou prejudicar a imagem da banda.

Ninguém vai perder dinheiro para favorecer a verdade nua e crua. Pior, vai recontar a história, de modo que ela fique eternizada (em um filme, por exemplo), da maneira que melhor lhe convir.

Sim, isso é cinema e não livros de história, mas conforme a história escrita é esquecida, apagada, ultrapassada e afogada pelas narrativas audiovisuais (basta ver como as redes sociais deixaram, aos poucos, os textos cada vez menores e as imagens em maior destaque), isso se torna perigoso.

Não faz muita diferença, num plano mais amplo, se Freddie Mercury conheceu Brian May e o Queen de um jeito ou de outro, mas talvez questões da personalidade dele ou as brigas pra valer entre os integrantes do Queen, ao sumirem do filme, sejam igualmente esquecidas, sabe?

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A inexistência do registro da volatilidade entre os integrantes da banda retira (do grande público) a possibilidade para entender o motivo pelo qual os discos sofreram com inconsistências ou o que fez Freddie Mercury se lançar, realmente, em carreira solo - e não funcionar sem o resto do Queen.

Cinema não é registro histórico

Mas pode perigosamente passar a ser, principalmente quando a linha entre ficção e realidade se torna tão tênue.

Pior para quem não tiver instrução ou conhecimento e supor que essa é a história. E, com isso, a gente volta para as páginas escritas por Orwell em "1984" e também para aquelas notícias falsas compartilhadas sem checagem.

Portanto, como cinema puro, "Bohemian Rhapsody" não compensa o tempo de tela.

Como registro histórico, o filme é frágil. Soa como um videoclipe gigante, copiado no esquema ctrl+c e ctrl+v por produtores gananciosos e, pior, pode ser que há quem entenda aquela narrativa como verdadeira.

A pós-verdade chegou até no rock. E nem sequer é um entretenimento bom o suficiente para valer um textão deste tamanho.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL