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Brasileiro dá volta ao mundo com muletas e sonha com lugar no Guinness

Luiz Thadeu, em São Luís, no Maranhão - Arquivo pessoal
Luiz Thadeu, em São Luís, no Maranhão Imagem: Arquivo pessoal

Eduardo Vessoni

Colaboração para Nossa

20/10/2021 04h00

O aposentado Luiz Thadeu Nunes e Silva, 62, tem planilha para tudo. Só não conseguiu calcular a rota que a vida tomaria.

Depois de sofrer um grave acidente de carro no interior do Rio Grande do Norte, em 2003, esteve internado por quatro meses, sua perna esquerda teve osteomielite (infecção óssea), passou por 43 cirurgias e ficou quatro anos sem conseguir colocar os pés no chão.

Quase duas décadas depois, contrariando todas as perspectivas (médicas e pessoais), esse maranhense de São Luís já esteve em 143 países, foi homenageado com uma placa no aeroporto da sua cidade natal e até estampou um selo dos Correios como "o brasileiro com mobilidade reduzida mais viajado".

Sempre fui um rato de biblioteca apaixonado pelo mundo. Foi numa biblioteca pública de São Luís que comecei a viajar através dos livros", conta esse engenheiro agrônomo.

E ele só não concluiu sua terceira volta ao mundo de muletas por conta da crise sanitária provocada pelo coronavírus.

Na Igreja da Natividade, em Belém, na Palestina - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Na Igreja da Natividade, em Belém, na Palestina
Imagem: Arquivo pessoal
Nas pirâmides de Gize, no Egito - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Nas pirâmides de Gize, no Egito
Imagem: Arquivo pessoal

Quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou a pandemia, em março do ano passado, Luiz estava em Amsterdã, na Holanda, mas não quis arriscar. Abortou a missão e voltou para o Brasil, deixando para trás nove trechos aéreos já comprados para aquela travessia, que deve ser retomada em março de 2022.

"Sempre saio de casa com o melhor plano de saúde, mas tenho medo de ficar doente no exterior", conta em depoimento para Nossa.

Assim como ele mesmo descreve, São Luís é seu mundo, o mundo é seu quintal e Guarulhos, o ponto de partida. Foi dali que o viajante persistente partiu para sua primeira viagem com mobilidade reduzida, no final de 2009, para visitar os filhos que na época faziam intercâmbio na Irlanda.

O teste físico foi ainda no aeroporto de Paris, quando os passageiros tiveram que desembarcar, remotamente, em terreno com neve, pois não tinha fingers [ponte entre o avião e o teminal] disponíveis para seu voo.

Para quem já tinha tido um ataque pânico ao atravessar a avenida do Estado, em São Paulo, um ano antes, cruzar o oceano foi sua primeira conquista. Sozinho e sem falar nada em inglês, desde então, Luiz já esteve na Ucrânia, Belarus, Marrocos, Maldivas, Sheychelles e China. Sem falar nas tantas vezes no continente africano, onde visitou Marrocos, Quênia e Uganda.

Ele só não entende por que ainda é tão difícil viajar pelo próprio país.

O pior e o melhor do mundo

Luiz Thadeu, em São Luís, no Maranhão - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Luiz Thadeu, em São Luís, no Maranhão
Imagem: Arquivo pessoal

"As pessoas não se colocam no local do outro. No Brasil, não existe nenhum compromisso por parte das administrações públicas, não há uma politica de estado para resolver isso", lamenta Luiz sobre a falta de estrutura para pessoas como ele.

Embora se orgulhe de nunca ter caído em suas andanças pelo mundo com muletas, ele acredita que o Brasil foi o pior lugar que visitou nessas condições.

"Em 2017, fui dar uma palestra sobre mobilidade, em Fernando de Noronha, e não tinha condições mínimas para me receber", lembra o viajante, em referência à ladeira íngreme de pedras no centro histórico desse arquipélago pernambucano.

Luiz aponta também a falta de estrutura em locais como o aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, onde já teve "muitos problemas com desembarques remotos", e na própria cidade onde mora, cujas "calçadas não têm recuo nem rampa".

O Peru e a Bolívia estão muito mais adaptados para deficientes do que o Brasil", analisa.

No Salar do Uyuni, na Bolívia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
No Salar do Uyuni, na Bolívia
Imagem: Arquivo pessoal

Por outro lado, na sua opinião, o Japão foi o país melhor preparado para recebê-lo.

"Em Tóquio vi coisas inacreditáveis. Apesar de grande concentração populacional, ninguém atropela ninguém e procuram até facilitar o fluxo com áreas exclusivas para quem está de cadeira de rodas", lembra Luiz, para quem a Austrália foi outra boa surpresa com relação à acessibilidade.

Na prática

Seja no Brasil ou do outro lado do mundo, viajar com algum tipo de mobilidade física requer não só vontade, mas também planejamento (e não só na hora de preencher planilhas).

Em Moscou, na Rússia, com um de seus filhos - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Em Moscou, na Rússia, com um de seus filhos
Imagem: Arquivo pessoal
Em Paris, capital da França - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Em Paris, capital da França
Imagem: Arquivo pessoal

"Como não posso puxar malas, preciso contar com uma estrutura contratada, previamente, como transfers, hotéis reservados em áreas centrais das cidades e uma boa internet", ensina Luiz que, por segurança, prefere não se aventurar em seus roteiros.

Viciado em pesquisas virtuais e promoções de viagens, Luiz costuma usar milhas para viajar e tem até uma conta bancária onde reserva parte dos ganhos, exclusivamente, para compras de passagens aéreas.

"Tenho sonhos profundos e bolso raso. Só vou pra onde eu consigo ir [financeiramente]", descreve.

E os sonhos ainda são altos.

Luiz diante da placa em sua homenagem no aeroporto de São Luís, no Maranhão - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Luiz diante da placa em sua homenagem no aeroporto de São Luís, no Maranhão
Imagem: Arquivo pessoal

Segundo informou para a reportagem, um dos seu filhos enviou para o Guinness, no início deste ano, a documentação para Luiz receber o título de "o primeiro brasileiro a pisar nos extremos do mundo em um único mês", em referência à sua viagem do Ushuaia, na Argentina, ao Alasca, nos Estados Unidos, em setembro de 2015.

Luiz só lamenta não ter conseguido ainda conhecer destinos como a Mongólia. Mas se depender de suas muletas "de rodinhas", o viajante, que quer colocar os pés em todos os países do mundo, ainda tem muita milha para gastar.

Eu ando o mundo todo como 'Poliana'. Não olho só os problemas, os perrengues são tão poucos diante de tanta coisa boa que tem para ver" conclui.