Essequibo: brasileiro viajou por área da Guiana que a Venezuela quer anexar

Apesar de fazer fronteira com o Brasil, a Guiana é um mistério para grande parte dos brasileiros. Como são as paisagens, a cultura e a culinária desse ex-domínio britânico, que ganhou sua independência em 1966? Poucos sabem.

Mesmo desconhecido e com pouco peso no cenário diplomático mundial, o país aparece nas manchetes desde o último mês de dezembro. O motivo: a vizinha Venezuela renovou esforços para anexar mais de dois terços do território da Guiana, que se espalham por uma região chamada Essequibo, rica em petróleo.

Ainda é remota a possibilidade de uma invasão militar orquestrada pelo governo de Nicolás Maduro, mas é tenso o clima nesse canto da América do Sul.

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Imagem: Arquivo pessoal

O viajante brasileiro Guilherme Canever esteve na Guiana (e em Essequibo) antes de toda essa crise começar e conta a Nossa o que viu por lá.

Acostumado a visitar países fora da rota do turismo de massa (como Mali, Argélia e Libéria), ele se surpreendeu com diversas características da Guiana, como sua enorme diversidade cultural e sua natureza farta.

"Fui por terra da cidade de Boa Vista, em Roraima, até Georgetown, a capital da Guiana, que fica junto ao oceano Atlântico", relata. "Foram seis dias de viagem e mais de 700 km rodados".

Floresta, vilas e cidades

Na jornada, o brasileiro passou por extensas regiões de floresta, vilarejos indígenas e cidades como New Amsterdam e Georgetown.

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"Quando atravessei a fronteira do Brasil com a Guiana, o primeiro lugar que visitei foi uma cidade chamada Lethem", diz.

É um pequeno centro urbano cuja economia depende muito do Brasil e onde se fala bastante português. De lá, saem as 'navetes', vans que só começam viagem depois que ficam lotadas de passageiros e que cruzam todo o país.
Guilherme Canever

Vans chamadas de 'navetes' fazem travessia do rio Essequibo, na Guiana
Vans chamadas de 'navetes' fazem travessia do rio Essequibo, na Guiana Imagem: Arquivo pessoal

A bordo de uma apertada "navete", Guilherme logo se viu entrando nas profundezas de Essequibo. "É uma área de florestas e com um clima muito úmido. As estradas estavam esburacadas e choveu bastante. Passamos o dia viajando a pouca velocidade. Demorou muito."

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Imagem: Arquivo pessoal

Essequibo tem apenas 125 mil habitantes e uma extensão territorial pouco maior que a do Ceará. A baixa presença humana na região chamou a atenção de Guilherme.

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"Grande parte da população de 800 mil pessoas da Guiana mora na costa. Em Essequibo você quase não vê vilarejos ou cidades", explica. "Todo mundo ali parece estar de passagem. São pessoas locais em trânsito para o litoral do país ou estrangeiros envolvidos com a exploração de recursos naturais. Vi muitos sinais de garimpo por lá. Há brasileiros buscando ouro em Essequibo".

Indígenas e indianos

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Imagem: Arquivo pessoal

No final do primeiro dia viagem, a "navete" de Guilherme parou em um vilarejo de Essequibo chamado Annai, habitado por indígenas macuxi e onde os viajantes se acomodaram em redes para dormir por algumas horas.

"Antes de o sol nascer, a gente acordou e seguiu viagem", lembra o brasileiro. "E, após mais algumas horas na estrada, chegamos ao rio Essequibo, que atravessamos de balsa".

Mesmo com a infraestrutura precária, Guilherme se impressionou com a riqueza da natureza da área, forrada por florestas que parecem não ter fim e cortada pelo caudaloso rio Essequibo.

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Na região está, inclusive, uma das mais imponentes cachoeiras da América do Sul: a Kaieteur Falls, com mais de 220 metros de altura.

Centro cultural Swami Vivekananda, Alto Comissariado da Índia, Georgetown, Guiana
Centro cultural Swami Vivekananda, Alto Comissariado da Índia, Georgetown, Guiana Imagem: iStock

A natureza deu lugar a uma interessante paisagem humana assim que o viajante chegou às cidades de Georgetown e New Amsterdam, ambas já fora de Essequibo.

Durante a época de domínio britânico, chegaram à Guiana muitos indianos. Também houve a imigração de chineses e uma enorme quantidade de pessoas escravizadas trazidas do continente africano.

Georgetown é hoje um caldeirão cultural. O inglês é a língua oficial, mas há muita gente de origem indiana que ainda preserva seu idioma, costumes e culinária. Boa parte da população negra, por sua vez, fala o creolese [onde o léxico inglês tem influência de línguas africanas, indígenas e do holandês]. E nas cidades há templos hinduístas, muçulmanos e cristãos
Guilherme Canever

O atual presidente da Guiana, Irfaan Ali, é muçulmano e tem família indiana. E o país já teve presidentes negros e de origem chinesa.

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Em Georgetown, porém, é fácil se lembrar do antigo domínio britânico sobre a Guiana. Aqui e ali surgem prédios que lembram edificações históricas encontradas no Reino Unido.

"Lá às vezes você esquece que está na América do Sul", diz Guilherme.

Stabroek Market, um dos principais cartões-postais de Georgetown, na Guiana
Stabroek Market, um dos principais cartões-postais de Georgetown, na Guiana Imagem: Arquivo pessoal
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Imagem: Arquivo pessoal
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Imagem: Arquivo pessoal


Disputa não era assunto

Essequibo é uma reivindicação antiga da Venezuela. Mas, na época em que Guilherme visitou a Guiana ele não ouviu a população falando sobre essa disputa territorial.

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"Isso não era assunto entre as pessoas que conheci lá. Para o povo macuxi, por exemplo, não sei se importa muito se Essequibo faz parte da Guiana ou da Venezuela. Eles são uma minoria marginalizada, que vive em um lugar isolado. Dificilmente teriam uma melhoria de vida se a Venezuela tomasse conta da região, mesmo com o dinheiro que o governo pode ganhar com o petróleo".

Para Guilherme, a Guiana tem ainda outros problemas com os quais se preocupar. Apesar de seus aspectos positivos, ele diz que trata-se um país com muita desigualdade social e pobreza.

"Na capital Georgetown há um clima pesado, de tensão. É uma cidade com altos índices de violência. Muita coisa precisa ser melhorada por lá."

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