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Papo de vagina

Por que existem tantos anticoncepcionais femininos e tão poucos pra homens?

Questões científicas e de gênero fazem com que a responsabilidade sobre a contracepção recaia sobre os ombros das mulheres - Priscila Barbosa
Questões científicas e de gênero fazem com que a responsabilidade sobre a contracepção recaia sobre os ombros das mulheres Imagem: Priscila Barbosa

Patrícia Beloni

Colaboração para Universa

14/09/2021 04h00

Para a mulher, há uma variedade enorme de opções de métodos anticoncepcionais: pílula, DIU hormonal ou de cobre, injeção, implante, anel, camisinha, adesivo... Exclusivos para o homem, apenas camisinha e vasectomia. Por quê?

Não seria por falta de tentativa, já que, desde os anos 1960, existem pesquisas para o desenvolvimento do que seria o equivalente para homens da pílula anticoncepcional feminina. Mas os rumores frequentes de que um produto nessa linha estaria, enfim, chegando em breve ao mercado acabam por nunca se concretizar.

As razões apontadas para esse vácuo no planejamento familiar são várias: de obstáculos científicos, como os efeitos colaterais, à alta taxa de eficácia dos métodos disponíveis atualmente, que desestimularia o investimento em pesquisas para a criação de novas alternativas. Mas uma corrente também argumenta que, por trás desse atraso, há uma forte questão de gênero que joga sobre as mulheres o peso da preocupação (e dos efeitos colaterais) com a contracepção, quando esta responsabilidade deveria ser compartilhada.


O que tem pra hoje

Entre as duas opções de métodos contraceptivos disponíveis atualmente para os homens, a mais popular é a camisinha, um método reversível, não hormonal e de barreira. Segundo a médica ginecologista da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) Rita Géssia Rodrigues, a camisinha praticamente não produz efeito colateral, podendo apenas causar alergia em algumas pessoas.

A outra opção para os homens é a vasectomia, uma cirurgia que interrompe a circulação dos espermatozoides, impedindo a gravidez. É considerado um método definitivo, indicado a quem tem certeza que não quer ter (mais) filhos, apesar de existir a possibilidade de reversão. A vasectomia produz efeitos colaterais menores do que a laqueadura, procedimento equivalente realizado na mulher. "Mas, ainda assim, registros históricos revelam que são realizadas mais laqueaduras do que vasectomias", diz a cientista social e mestre em saúde coletiva pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Georgia Pereira, coautora de um estudo sobre a contracepção masculina.

Segundo o estudo, a produção de alternativas para a contracepção masculina esbarra em fatores econômicos, sociais, de gênero e até geopolíticos. "Isso mostra como as mulheres sempre foram mais responsabilizadas pela contracepção", diz Georgia.


Testando

Atualmente, as pesquisas para a produção de anticoncepcionais masculinos têm dois focos principais: os hormonais (como a pílula anticoncepcional DMAU) e os não hormonais (como o gel injetável de longa duração Risug).

Segundo Georgia, o DMAU seria um forte candidato a se tornar o primeiro contraceptivo hormonal disponível para homens. "Muitas outras tecnologias hormonais chegaram à fase de estudos em que o DMAU se encontra, mas as pesquisas acabaram canceladas por questões de segurança, principalmente por efeitos na sexualidade e no humor dos homens", diz.

A ginecologista Karen Rocha De Pauw explica que essa pílula diminuiria a produção de testosterona, hormônio ligado à libido masculina, podendo causar baixa libido, falta de ereção e desânimo. Para compensar a baixa no hormônio, coloca-se mais testosterona (sintética), o que acarreta outros efeitos colaterais, como infarto, acne e queda de cabelo.

O Risug teria menos efeitos colaterais em comparação com o DMAU. "É um método de longa duração, pode ser revertido a qualquer momento, é injetável e não tem efeito hormonal", explica Karen. "Mas ainda não se sabe muito sobre seu comportamento a longo prazo."


A importância da camisinha

Para alguns especialistas, a falta de investimentos numa nova alternativa masculina para a contracepção vem do fato de outros anticoncepcionais, como a camisinha, já se apresentarem como uma alternativa segura e eficaz.

"A camisinha, além de prevenir doenças, evita gravidez. Então, isso também precisa ser considerado na hora de se ter interesse no contraceptivo masculino", diz Rodrigo Andrade, médico urologista do Hospital Albert Sabin, em São Paulo. Para ele, se já existe uma opção barata, segura e simples, é essa que deveria usada como escolha ideal.

Outro ponto importante é que todo contraceptivo oral exige disciplina (o usuário deve se lembrar de tomá-lo todos os dias ou em períodos determinados). A camisinha não. O risco estaria apenas em não colocar o preservativo direito ou em ter alergia (casos mais raros). "E ela ainda continua sendo o único método que protege também contra as ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis). Então, deve continuar sendo utilizada, mesmo existindo outras opções de contracepção", diz Malu Frade, médica ginecologista e obstetra da Clínica Frade Said.

Efeitos colaterais ou questão de gênero?

Os defensores da criação de métodos contraceptivos não hormonais para homens, como a ONG americana Male Contraceptive Initiative, alegam que a dificuldade de uma opção eficaz se daria pela quantidade de espermatozoides produzida pelos homens, que é muito mais alta do que a produção de óvulos das mulheres (cerca de 1.500 espermatozoides por segundo contra um óvulo por mês). Isso provocaria a necessidade de altas doses hormonais para o anticoncepcional masculino, gerando mais efeitos colaterais.

No entanto, afirma a ginecologista Karen Rocha De Pauw, muitos desses efeitos colaterais são semelhantes aos dos contraceptivos femininos que já vêm sendo usados há décadas. Ou seja, os homens não tolerariam os efeitos colaterais que as mulheres já aguentam há muito tempo. Pesaria aí também o fato de ainda existir preconceito com relação aos homens tomarem anticoncepcional. "Qualquer procedimento que envolva os órgãos sexuais masculinos tem grande efeito na manutenção da masculinidade", ela diz.

Segundo a ginecologista Malu Frade, é preciso mudar o foco da contracepção para que ela não se torne só uma obrigação da mulher, mas uma experiência compartilhada. "Não se faz um filho sozinho. É responsabilidade dos dois, do homem e da mulher. Então, o certo é ambos se prevenirem [se não quiserem ter filhos]. Lembrando que o intuito da criação do método contraceptivo masculino é aumentar a eficácia da contracepção e dividir a responsabilidade da prevenção para o casal", diz a médica.

Já Georgia Pereira, argumenta que a criação de novos métodos contraceptivos masculinos é um passo no movimento para tirar a carga de responsabilidade das costas da mulher. "Um novo contraceptivo masculino reversível com uma eficácia equivalente à da pílula poderia desfazer a associação entre mulheres e contracepção e a noção de que a contracepção é uma responsabilidade e uma tarefa que deve ocorrer apenas no corpo das mulheres."

Fontes: Georgia Pereira, cientista social e mestre em saúde coletiva pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro); Karen Rocha De Pauw, médica ginecologista e obstetra, especialista da Associação Médica Brasileira (AMB) e da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia); Malu Frade, médica ginecologista e obstetra da Clínica Frade Said; Rita Géssia Patriani Rodrigues, médica ginecologista da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo); Rodrigo Andrade, médico urologista do Hospital Albert Sabin, em São Paulo.

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