PUBLICIDADE

Topo

Autoestima

Médicos injetam ácido hialurônico para criar 'ponto H' da vagina. É seguro?

A alteração do formato da vagina não é novidade no mercado da estética íntima feminina; desta vez, médicos oferecem criar o "ponto H" - PeopleImages/IStock
A alteração do formato da vagina não é novidade no mercado da estética íntima feminina; desta vez, médicos oferecem criar o "ponto H" Imagem: PeopleImages/IStock

Nathália Geraldo

De Universa

06/10/2021 11h28Atualizada em 13/10/2021 11h15

Nas redes sociais, pipocam dermatologistas e ginecologistas oferecendo aplicação de ácido hialurônico para procedimentos estéticos de estreitamento do canal vaginal. Muita conhecida por quem se preocupa com o preenchimento de determinadas áreas do rosto, a substância serviria para "criar um ponto H" dentro da vagina — o que, segundo esses médicos no Instagram, traria mais satisfação sexual aos homens durante a penetração, por deixar a região mais apertada.

A alteração do formato da vagina não é novidade no mercado da estética íntima feminina. Há pelo menos uma década, a área da cosmetoginecologia, ou "ginecologia estética", realiza procedimentos como o "G-shot", injeção de colágeno na região da vagina para, supostamente, aumentar a zona erógena feminina do "ponto G" e gerar mais prazer às mulheres. Desta vez, no entanto, os profissionais de saúde explicam que o "ponto H" seria um "algo a mais" para o parceiro durante a transa.

Para a presidente da Comissão Nacional Especializada em Sexologia da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, a Febrasgo, Lúcia Lara, o procedimento é antiético. "Não tem comprovação anatômica e nem funcional da existência deste ponto". Já a psicóloga e sexóloga Enylda Motta aponta que a mudança no corpo feminino para corresponder à potencial satisfação do parceiro tem viés machista.

"Ponto H"? Procedimento estético íntimo repercute nas redes

Na divulgação do procedimento, profissionais de saúde explicam que ele tem a "finalidade aumentar o local de contato do frênulo do pênis" durante o sexo. Há também a promessa de que a alteração trará "algo a mais" e um "belo presente" para o parceiro na penetração.

A ginecologista Lúcia Lara pondera que a injeção de ácido hialurônico na parede vaginal é "antiética porque não tem comprovação científica, e imprudente porque não tem dados de segurança, não sendo possível prever os efeitos a longo prazo e suas consequências".

Ainda de acordo com a médica, considerar que a aplicação no "ponto H" tenha efeitos positivos na vida sexual — priorizando, inclusive, o prazer masculino — é uma ideia enganosa.

Promove expectativas com base em resultados falsos derivados do achismo de quem se arrisca a mutilar a parede vaginal das mulheres para criar esses pontos anedóticos.

A ginecologista justifica que há apenas um estudo médico sobre o tema, em que um pesquisador fez um estímulo com o dedo na parede vaginal de 200 mulheres e concluiu que existe uma área erótica na parede vaginal anterior justaposta a uretra, que ele chamou de "área H".

A Federação também não recomenda a introdução do ácido hialurônico na região vaginal, ou na vulva, porque, segundo o órgão, não há dados na literatura médica que comprovem ou justifiquem a existência de tais pontos (G, H).

Alteração tem viés machista

A sexóloga Enylda Motta entende que o preenchimento vaginal também revela o quanto limitamos a relação sexual a posições e movimentos em que o pênis seja o elemento principal da transa.

"Muitos homens acreditam que sem a penetração o sexo não é completo. Um engano. Existem muitas formas de sexo. Mas, a falta de conhecimento corporal também influencia bastante na busca pelo prazer do outro".

Dá para desfazer esse paradigma e descobrir variações que não estejam ligadas à penetração? Para a especialista, sim. "Primeira coisa é falar sobre sexo. A partir do momento que esse diálogo existe, as possibilidades aparecem. Um dos efeitos da pornografia, por exemplo, é 'genitalizar' o sexo. Quando se percebe que o sexo não é somente a genitália e, sim, o corpo como um todo, a mudança acontece".

Outro aspecto por trás de intervenções na região íntima feminina como essas, explica a sexóloga, é o fato de que ele afeta diretamente a autoestima sexual das mulheres, que podem permanecer na busca pela "vagina perfeita", sendo vítimas da pressão estética inclusive neste aspecto. "As mulheres também podem supor que os procedimentos 'resolvem tudo'", avalia. "Existem casos em que eles são necessários, em casos de atrofia vaginal, perda da lubrificação e disfunções sexuais, mas a maior parte tem impactos psicológicos, por vezes causados pela falta de permissão para explorar o corpo, por exemplo".

Ácido hialurônico é proibido?

De fato, a colocação de ácido hialurônico não é proibida. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, diz que a substância deve estar registrada no órgão, seguindo Resolução de Diretoria Colegiada nº 185/2001 e a Lei nº 6.360/1976. Segundo a Agência, o ácido está tanto na categoria de medicamento como de produtos para saúde.

Universa também pediu posicionamento da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), já que a aplicação do ácido hialurônico também é oferecida por profissionais da área. A entidade afirmou na sexta-feira (8) que um grupo de especialistas foi designado para buscar subsídios na literatura científica para fazer análise do tema e que publicará os resultados da análise. Procurada, a Associação Brasileira de Cosmetoginecologia não retornou o contato da Reportagem sobre se há cursos para médicos que garantem a segurança na aplicação, entre outras questões.

Autoestima