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Medvedev chega ao topo com liderança mais herdada do que arrancada do Big 4

Daniil Medvedev nas semifinais do ATP 500 de Acapulco em 2022 - Reuters
Daniil Medvedev nas semifinais do ATP 500 de Acapulco em 2022 Imagem: Reuters

Colunista do UOL

28/02/2022 04h00

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Daniil Medvedev assume oficialmente, nesta segunda-feira, o posto de número 1 do mundo do tênis masculino. A ascensão do russo ao topo tira do trono Novak Djokovic, o homem que passou mais tempo na posição, mas torna-se muito mais relevante quando observamos que ela interrompe uma série de 921 semanas com tenistas do finado Big Four se alternando na liderança. Desde 2 de fevereiro de 2004, mais de 18 anos atrás, apenas Roger Federer, Rafael Nadal, Novak Djokovic e Andy Murray ocuparam o lugar mais alto do ranking.

É um feito e tanto para Medvedev, que tem, obviamente, seus méritos. Foi campeão do US Open, onde bateu Djokovic na final, venceu um Masters 1000 e conquistou também o ATP Finals. Com o vice no Australian Open deste ano, garantiu pontos suficientes para ultrapassar o sérvio.

Medvedev é, certamente, um número 1 diferente dos últimos quatro. Não tem grandes resultados nos quatro pisos. Não tem uma grande base de fãs (e, sejamos justos, ninguém terá enquanto Rafa, Roger e Novak seguirem jogando). Envolve-se em discussões com árbitros com muito mais frequência do que seus antecessores no posto.

Mais do que isso: enquanto Federer, Nadal, Djokovic e Murray - nesta ordem - precisaram de sequências espetaculares para chegarem ao topo nos últimos anos, Medvedev alcança o cume sem fazer tanto. Roger tem uma lesão no joelho e disputou apenas quatro torneios nas últimas 52 semanas. Rafa ficou fora de dois slams e do ATP Finals no mesmo período. Novak não competiu na Austrália.

O instante tão esperado na última década - quando alguém da chamada #NextGen finalmente faria o bastante para tomar o trono na marra - nunca aconteceu. Sim, é bem verdade que Medvedev derrubou Djokovic na final do US Open do ano passado, mas o início de 2022 foi cruel para o russo. Tombou diante de um veteraníssimo Rafael Nadal em uma final de mais de 5h em Melbourne e foi superado novamente pelo espanhol na semana passada, na semifinal do ATP 500 de Acapulco. Dois revezes em quadra dura. Seu piso favorito. Onde Daniil deveria, em tese, ter coroado sua chegada ao topo.

Em vez disso, o momento passa a impressão de que o russo é apenas o herdeiro de um monarca que abdicou do trono - em vez de um guerreiro que invadiu o palácio e tirou o governante anterior à força. Não, isso não tira Medvedev do topo, mas é o tipo de questionamento que o russo vai ter de encarar por ser o primeiro número 1 do pós-Big Four. Haverá comparações e haverá, pelo menos por enquanto, a lembrança de que seu histórico contra o quarteto é de seis vitórias e 14 derrotas (Nadal tem 5 a 1, e Federer, 3 a 0).

Medvedev, claro, não tem culpa de nada disso. Antes, excelentes tenistas como Wawrinka, Del Potro e Nalbandian, foram vítimas do Big Four dentro de quadra e nunca alcançaram o topo do tênis masculino. Agora os quatro grandes fazem outro tipo de vítima com seu declínio (que acontece mais em quantidade do que em qualidade). O que Roger, Rafa, Novak e Andy fizeram já deixou marcas nos livros de recordes. Aos poucos, entretanto, seguiremos constatando mais e mais consequências de suas décadas de domínio. Daniil é só o primeiro "herdeiro".

Coisas que eu acho que acho:

- Por tudo que Medvedev, o atual "Mini Three" (Zverev, Tsitsipas e Rublev) e outros vêm mostrando, tudo aponta para um futuro próximo com menos domínio e mais mudanças no topo do ranking masculino. Não é necessariamente melhor nem pior. Será, contudo, bem diferente.

- O começo de temporada de Rafael Nadal é espetacular para alguém de 35 anos e que nem sabia até dois meses atrás se continuaria no circuito. Três títulos em três torneios, incluindo duas vitórias sobre Medvedev. Inevitavelmente, tem sua influência sobre a percepção do público em relação ao número 1 do russo.

- Som de hoje no meu Kuba Disco: People Don't Change People, Time Does (The Wombats)

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL