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A angústia do colapso ambiental

Imagens mostram fogo na região do Pantanal, devastada pelas queimadas que ocorreram em setembro de 2020 - Mauro Pimentel/AFP
Imagens mostram fogo na região do Pantanal, devastada pelas queimadas que ocorreram em setembro de 2020 Imagem: Mauro Pimentel/AFP
Emersom Karma Konchog

Emersom Karma Konchog

http://emersom.substack.com

Monge budista brasileiro e ex-jornalista. Estudou filosofia budista e língua tibetana na Índia e Nepal entre 2013 e 2015, completando depois o tradicional retiro de três anos para lamas na linhagem tibetana do budismo vajrayana nos EUA. É voluntário na causa ambiental e na propagação de valores humanos sem crenças (ou ética secular), além do budismo. Escreve também a newsletter Circular

17/10/2020 04h00

As emoções mais comuns diante do atual colapso climático e ambiental variam desde um angustiante desespero crônico, passando por depressão, ansiedade, paralisia, até um dar de ombros aparentemente inconsequente. Esse tipo de desequilíbrio se tornou tão comum que deu origem a novos ramos da psicoterapia, autoajuda e até a novas palavras.

Um relatório da Associação Americana de Psicologia, ainda em 2017, sobre efeitos das mudanças climáticas na saúde mental, apontou que "mudanças graduais e de longo prazo no clima podem dar origem a diversas emoções, incluindo medo, raiva, sentimentos de impotência ou exaustão".

Já uma pesquisa da Universidade de Yale, também nos EUA, em 2019, sobre como as pessoas se sentem em relação às mudanças climáticas, mostrou que 46% se sentem indignadas, 45% têm medo e 66% estão preocupadas. Mais da metade também se sente impotente.

Ainda neste ano, uma pesquisa nos EUA mostrou que 71% dos entrevistados na faixa etária entre 24 e 39 anos sentem que a mudança climática afetou negativamente sua saúde mental. Já 78% dos jovens entre 18 e 23 anos decidiram não ter filhos por causa dessa ameaça.

Além de distúrbios já conhecidos como a ansiedade, o atual colapso do ambiente também está criando uma nova terminologia. Por exemplo, já ouviu falar de "solastalgia"?

Apesar do nome estranho, a sensação é bem comum: ansiar ou sentir saudade de uma natureza que já não existe, pois foi contaminada ou destruída.

Outros exemplos de novos termos:

  • Ecoparalisia: sentimento debilitante de impotência diante da crise ambiental planetária.
  • Desordem de déficit de natureza: pessoas que tiveram pouco ou nenhum contato com ambientes naturais podem desenvolver uma série de distúrbios comportamentais.
  • Pavor global: sentir-se constantemente amedrontado pelo colapso ecológico no planeta.

O especialista em estudos ambientais australiano Glenn A. Albrecht aborda esses e outros distúrbios no livro "Earth Emotions". A obra é referência em movimentos ambientais mais holísticos como Rebelião ou Extinção (Extinction Rebellion), que procuram lidar também com os aspectos internos e sociais do ativismo ecológico.

Algo morrendo dentro de nós

Esse tipo de emoção pode ser algo devastador. Para mim pessoalmente, constatar a perda irreversível de uma espécie particularmente bela, por exemplo, é algo que perfura o coração de modo ímpar.

Não é pelo fato de perder algo bonito de olhar. Mas por que isso é bonito em primeiro lugar? Essa beleza evoca o senso de algo maior, perfeito, algo que num nível instintivo também está dentro de nós. A morte desse símbolo, então, é sentida como um tipo de amputação.

É como testemunhar o assassinato brutal daquilo que nos dá esperança, que nos faz sentir contentes por compartilhar a vida, que nos deixa humildes diante do esplendor, que gera um impulso de agradecer e servir.

Não necessariamente essa experiência traumática vem assim explicada verbalmente. Mas o impacto é o mesmo, afetando profundamente nossa relação com a própria vida.

A angústia piora quando compreendemos que nós humanos estamos causando isso, e que não se trata de mero engano, mas de que essa destruição é parte inerente do sistema cancerígeno em que nossa civilização se baseia.

Ecoparalisia

Nas pesquisas da psicóloga norte-americana Renée Lertzman com pessoas que compartilham esses sentimentos (referências no final do texto), constatou-se que esse tipo de desespero pode sim levar à ecoparalisia, em que não reagimos à ameaça, por depressão ou por pensar que pequenas ações não afetam o todo, por exemplo.

Um outro efeito relacionado é evitar encarar o problema, por ser algo tão traumático. E o extremo disso é um tipo de negacionismo climático e ambiental, em que se nega a existência do problema, porque no fundo, se for verdade, será insuportável demais.

Então, tais desequilíbrios acabam contribuindo para a continuidade do desastre, caso não sejam abordados apropriadamente.

Silêncio & alienação

Esse mecanismo psicológico de negação como proteção costuma também se juntar ao silêncio na mídia sobre as causas mais estruturais da crise, como o aspecto econômico e político da exploração da natureza, resultando em um silêncio e negação que se retroalimentam.

Não vemos ninguém falar sobre isso, expressando claramente a angústia e dor da perda do mundo natural. Então, silenciamos também. "Será que estou com algum problema?"

Absolutamente não. É o contrário: sentir-se assim é perfeitamente normal, não devemos reprimir. O desequilíbrio na verdade está na sociedade que não reage diante da ameaça de sua própria morte.

Encontrar outras pessoas e grupos que compartilham isso costuma ser fundamental.

Olhar de frente

Não sou profissional da área, mas posso compartilhar aqui dicas que foram úteis para mim como, primeiro, alguém que sofre também com tudo isso e, segundo, como uma pessoa envolvida na causa ambiental e na divulgação de práticas compassivas e regenerativas.

Um primeiro passo é olhar esse monstro de frente, sem negação, reconhecer e acolher a dor da "Terra chorando dentro de nós", como diz o monge vietnamita Thich Nhat Hanh.

Essa dor não é exclusivamente nossa. É a angústia da própria biosfera do planeta sendo dilacerada, na qual — assim como todos os outros seres vivos — nos entrelaçamos em uma teia interdependente.

Quando esse reconhecimento se integra em nossa vida, agir se torna um reflexo natural. É como se deixássemos a força da vida cuidar dela mesma. Mudanças de hábitos, no nível individual, e ativismo, no nível coletivo, também fluem com menos esforço.

Algo maior

A prática do cultivo de valores como compaixão ou altruísmo, de modo universal e desinteressado também pode ajudar muito. Escrevi sobre isso em um artigo anterior.

Obviamente, para quem tiver algum caminho espiritual, isso costuma auxiliar bastante. Muitos dos maiores ativistas da história eram — ou são — figuras espirituais. Por exemplo Gandhi, Martin Luther King Jr., Dalai Lama e — levando em consideração seu engajamento ambiental e social — até o Papa Francisco.

Mas o próprio ativismo ambiental não deixa de ser um tipo de caminho espiritual, já que aquilo que chamamos de natureza/vida tem muitos aspectos de beleza, vastidão, mistério e poder, por vezes insondáveis, mas que podem ser vivenciados em comunhão direta com o mundo natural.

Ativismo

Depois de olhar de frente esse abismo para onde caminhamos, o ativismo não só pode se desdobrar espontaneamente, mas o engajamento em si costuma ter um efeito regenerativo em nossa mente e corpo.

Mesmo com pouca chance de vitória — ao considerar a inação dos governos e da sociedade — estamos tentando. Isso em si pode neutralizar os sentimentos mais angustiantes ligados ao colapso ambiental.

Sobre como se envolver no ativismo climático, o climatologista da NASA Peter Kalmus escreveu um texto bem útil.

No final, nossa atual alienação em relação à natureza, vendo-nos como separados e de certa forma superiores — já que nos damos o direito de consumir e explorar tudo — é também o que nos deixa doentes. Mas reconhecer e viver essa interdependência também pode nos curar individual e coletivamente.

Mais referências

Palestras do TED, com opção de legendas em português:

Movimentos ecológicos holísticos:

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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