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Nossa compaixão natural pode nos salvar

Estátua de 108 metros de altura traz a figura de Guan Yin, deusa da compaixão do budismo chinês, na ilha de Hainan, no sudeste da China - Creative Commons/llee_wu
Estátua de 108 metros de altura traz a figura de Guan Yin, deusa da compaixão do budismo chinês, na ilha de Hainan, no sudeste da China Imagem: Creative Commons/llee_wu
Emersom Karma Konchog

Emersom Karma Konchog

Monge budista brasileiro e ex-jornalista. Estudou filosofia budista e língua tibetana na Índia e Nepal entre 2013 e 2015, completando depois o tradicional retiro de três anos para lamas na linhagem tibetana do budismo vajrayana nos EUA. É voluntário na causa ambiental e na propagação de valores humanos sem crenças (ou ética secular), além do budismo.

08/08/2020 04h00

Você já se sentiu impotente, deprimido, frustrado e até com raiva diante de problemas coletivos graves, como negligência com a pandemia, racismo, violência, desigualdade ou colapso ambiental?

Como é algo bastante desconfortável, é possível não apenas afundarmos nesses sentimentos negativos, mas, em o outro extremo, negar, evitar ou fingir que esses problemas não existem. E isso acontece de forma inconsciente até, como um tipo de mecanismo de defesa.

Em estudos científicos sobre empatia ficou determinado como é possível vencer essa barreira de sentimentos desconfortáveis sem precisar negar a realidade, em um envolvimento positivo com o mundo, com efeito transformador até.

A chave é o cultivo da compaixão.

Compaixão é o mesmo que piedade?

Em geral, a palavra "compaixão" é usada como um sinônimo para "piedade". No contexto dessas pesquisas, compaixão não é sentir pena. Trata-se de uma atitude em que vemos a pessoa sofrendo como um semelhante, ao contrário da piedade, em que vemos as coisas de cima. Devido a essa identificação comum, nos comprometemos a fazer o que for possível para aliviar esse sofrimento.

É isso que faz a diferença entre apenas vivenciar a dor do outro, sem efeitos positivos associados, e a compaixão ativa, em que expandimos nossa humanidade para acolher e cuidar.

Empatia ou compaixão?

Nas pesquisas realizadas pelos neurocientistas Jean Decety e Tania Singer (publicadas em 2011 e mencionadas por Matthieu Ricard no livro "A revolução do altruísmo"), os seguintes critérios foram usados para distinguir mera empatia de compaixão:

Sentir ou imaginar o que outras pessoas estão sentindo é chamado de "empatia" (quando há uma barreira clara entre os meus sentimentos e os da outra pessoa) ou "contágio emocional" (quando essa fronteira não é clara).

No caso de sofrimento e dor, essa ressonância emocional pode levar ao desconforto e uma consequente alienação em relação a outras pessoas, ou então a uma atitude altruísta, que busca aliviar os problemas dos outros.

É esse altruísmo, ou compaixão, que faz a diferença, não só evitando que afundemos junto, mas também trazendo consequências positivas, incluindo para nós mesmos. E isso não tem nada a ver com talento ou predisposição, todos podemos treinar a habilidade de cultivar e manter essa motivação.

Esgotamento e fadiga

Quando uma situação negativa de empatia (ou contágio emocional) é recorrente, pode acontecer um esgotamento mental, ou "burnout": uma condição debilitante que envolve depressão e sentimento de impotência, a pessoa não tem mais motivação para continuar, podendo envolver sintomas físicos como sistema imunológico deficiente (estar sempre doente) e distúrbios alimentares.

Isso é particularmente comum entre profissionais de saúde, assistentes sociais, ativistas ou outras ocupações que lidam diretamente com o sofrimento.

Uma das descobertas da neurociência e psicologia nos estudos dessa área foi que apenas a empatia se cansa, levando à fadiga ou esgotamento. Já com a compaixão, isso não acontece.

Um dos motivos é que, com o cultivo da compaixão, cada experiência do sofrimento alheio se torna objeto de uma preocupação e cuidado amorosos. E esse amor não apenas parece ser ilimitado, jamais se cansando, mas também é uma fonte de energia.

Outro motivo é que não necessariamente precisamos entrar em ressonância emocional (sentir o sofrimento do outro) para gerarmos compaixão. Por exemplo, para confortar e acalmar alguém com fobia de aviões durante um voo, não precisamos entrar também em pânico.

Reação compassiva

Nessas pesquisas, foi observado que para pessoas treinadas no cultivo da compaixão que se deparam com o sofrimento, sentimentos positivos surgem rapidamente — por exemplo, cuidado amoroso, preocupação altruísta, reflexão sobre o que poderia ser feito e disposição instantânea para ajudar.

Já para os não-treinados, predomina a sensação de desconforto ao vivenciar a dor do outro sem uma abordagem construtiva. Para alguns, a exposição prolongada ao sofrimento causou até uma amplificação dessa angústia, fazendo a pessoa perceber "sofrimento por toda parte".

Por outro lado, há um relato individual bem ilustrativo sobre a eficácia da compaixão: uma enfermeira, de temperamento caloroso e compassivo, contou que sempre recusou o distanciamento emocional, que trata pacientes como clientes, recomendado pela administração do hospital para evitar o esgotamento.

Ela disse se sentir envergonhada ao admitir que "ganha algo valioso" por estar em contato com pacientes sofrendo. Mas não se trata de gostar de ver os outros em agonia. Isso está ligado ao cuidado amoroso, à compaixão ativa que vai sendo cultivada no processo, e que é uma fonte vital constante para um engajamento positivo com o mundo, ou em outras palavras, para podermos viver bem.

Desânimo atual

Atualmente, diante das crises da pandemia, da política e da emergência climática, ocorre algo semelhante. De um lado, há profissionais da linha de frente e ativistas desanimados, frustrados e deprimidos. De outro, há as pessoas que podem estar preferindo não olhar a gravidade do colapso que se anuncia, escudando-se na indiferença ou no cinismo.

Em ambos os casos, o cultivo da compaixão é algo que pode fazer toda a diferença.

Para quem encara constantemente situações de sofrimento, cultivar uma firme motivação altruísta, ou seja agir motivado por um desejo amoroso de ajudar e beneficiar, garante um engajamento positivo confiável. Ganha-se não apenas contentamento, o trabalho fica mais eficiente e consequentemente podemos espalhar mais benefício.

Por exemplo, para ambientalistas, em vez de sucumbirmos à raiva, desespero e depressão, ao mantermos sempre em mente o amor por todas as expressões de vida como sendo a motivação central de toda ação, isso nos imuniza contra o esgotamento e a frustração, garantindo ações mais eficazes.

Já uma motivação do tipo "derrotar o inimigo", que acaba se tornando indistinguível da raiva, é mais complicada de se sustentar por muito tempo e traz consequências negativas.

Armadilha

Um ponto crucial é não se agarrar demais ao que esperamos como resultado — mais importante é a atitude em si. Podemos conseguir ou não os objetivos, mas com compaixão e amor sempre presentes, ao falharmos não há desânimo, pelo contrário: continuamos com a mesma motivação.

Outra coisa que pode não funcionar muito bem é cultivarmos compaixão motivados pelos benefícios que isso nos trará pessoalmente. A chave também é a ação desinteressada: a motivação e atitude são um fim em si mesmas, porque o altruísmo na verdade faz parte de nossa natureza. Ao agirmos dessa maneira, entramos em harmonia com nosso modo mais natural de ser.

Essa afirmação não apenas é uma posição filosófica defendida por humanistas há séculos, mas sua veracidade já foi indicada por diversas pesquisas científicas sobre comportamentos altruístas inatos em humanos (e até animais), realizadas pelo psicólogo norte-americano Daniel Batson, entre outros, e também mencionados no livro "A revolução do altruísmo".

Efeito regenerativo

Em grande parte, a falência atual de nossa civilização se deve também a uma mentalidade negativa dominante, caracterizada pelo desamor, pela indiferença, por um egoísmo que escaneia o mundo visando apenas lucro pessoal — e isso é exatamente o oposto da compaixão.

É por isso que o cultivo do altruísmo também tem um papel-chave para mudarmos o atual curso autodestrutivo de nossa civilização.

Todos podem se beneficiar do cultivo da compaixão, não apenas ativistas e profissionais que lidam com sofrimento. Diante das emergências atuais, mais compaixão e menos indiferença criam um suporte para mudanças efetivas — por exemplo, apoio ativo por medidas sociais e ambientais regenerativas.

A compaixão é uma força ativa. Não é apenas um sentimento. Então, quando somos motivados por compaixão genuína, não há como não agir.

O momento atual é uma reunião de diversas crises: Covid-19, convulsão política, econômica e social; e diante da emergência climática e ecológica, a própria civilização humana está ameaçada.

Como o tempo para agir é curto, mais engajamento social é vital. Se cada um de nós não agir, quem fará isso? Como diz um slogan no movimento ecológico "Rebelião ou Extinção":

"Você é quem você estava esperando."

Assim, a compaixão também acaba sendo uma força motriz para as mudanças urgentes que precisamos, ao mesmo tempo que garante um ativismo imune ao esgotamento e desespero.

Dicas de leitura

Como esse é um assunto vasto, deixo aqui algumas sugestões de livros sobre o cultivo da compaixão de forma secular (que não envolve crenças ou práticas espirituais):

  • "Um coração sem medo" - Thubten Jinpa
  • "A revolução do altruísmo" - Matthieu Ricard
  • "Façam a revolução!" - Dalai Lama

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