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Abrigos de Salvador batem recorde de crianças assistidas no Carnaval

Cuidadora atente criança em abrigo da escola municipal Hildete Lomanto, no Garcia, em Salvador - Soraia Carvalho/UOL
Cuidadora atente criança em abrigo da escola municipal Hildete Lomanto, no Garcia, em Salvador Imagem: Soraia Carvalho/UOL

Aurelio Nunes

Colaboração para o UOL, de Salvador

25/02/2020 13h50

Com 464 crianças abrigadas no domingo nos três Centro de Acolhimento, Aprendizagem e Convivência (CAAC), a Secretaria Municipal de Políticas para Mulheres, Infância e Juventude (SPMJ) da prefeitura de Salvador registrou um recorde de atendimentos neste Carnaval. O serviço foi criado em 2012 para combater os casos de exploração do trabalho infantil e outras situações de risco envolvendo menores de 18 anos nos circuitos da folia soteropolitana.

Até então, o maior número de abrigados num único dia tinha sido registrado no ano passado: 429 crianças. "Eu vejo que há uma consciência maior entre as pessoas que trabalham no Carnaval de que o circuito não é o melhor lugar para deixar seus filhos", explicou a secretária da SPMJ, Rogéria Santos, que destacou ainda o trabalho de sensibilização das equipes de abordagem social realizados nas ruas pelos agentes da Secretaria de Promoção Social e Combate à Pobreza e do Conselho Tutelar. Ela disse que o aumento da procura não surpreendeu: "Estávamos preparados para receber 480 crianças".

O serviço atende filhos de ambulantes, catadores de material reciclável e de cordeiros durante os seis dias do Carnaval. Este ano, abriu dois dias mais cedo em uma das unidades, a Casa da Amizade, que fica na Barra. As outras ficam nas escolas municipais Oswaldo Cruz, no Rio Vermelho, e Hildete Lomanto, no Garcia.

Na manhã de segunda-feira, a reportagem do UOL visitou o abrigo do Garcia, onde atuam 42 profissionais, entre educadores sociais, auxiliares de serviços gerais, motorista, psicólogo, pedagoga, assistente social e segurança, em regime de plantão de 12 horas, além de um médico volante. O espaço previsto para receber até 240 crianças atendia 234, 118 na ala 2, para crianças de até 6 anos, e 116 na ala 1, para os que têm de 7 a 17 anos.

Apesar de beirar o limite da lotação, o cenário era o de crianças brincando nos corredores e no ginásio, fazendo fila para brincar no pula-pula ou para fazer tranças nos cabelos com algumas das educadoras sociais. Banho de mangueira, sessões de pintura e desenho, aulas de boxe, balé, futebol e basquete estão entre as outras atividades desenvolvidas no espaço.

Durante a visita apenas uma chorava, pedindo pela mãe, enquanto os colegas assistiam à exibição de um desenho animado na TV. Segundo Jéssica Conceição dos Santos, coordenadora da ala dois, as reações dos pequenos à ausência dos pais vão do choro ao desenvolvimento de sintomas psicossomáticos. "Uma menina de 5 anos reclamou com a médica de uma dor de barriga que não passava. A médica perguntou quando começou a dor, e ela disse que foi no dia em que a mãe dela prometeu, mas não apareceu, para visitá-la", relatou.

Segundo a coordenadora geral do abrigo do Garcia, Arilma Bacelar, menos da metade dos pais visita os filhos no período em que ficam abrigados. Em contrapartida, nunca foi registrado nenhum caso de abandono. "O máximo que acontece é alguém passar um pouco do prazo máximo para vir buscar as crianças", atestou.

Fernanda Santos Lima, 37, que juntamente com o marido Iuri aproveita o Carnaval para ganhar um dinheiro extra vendendo cerveja na praça Castro Alves, deixou os filhos Talison (14 anos), Josué (11) e Danilo (1) no CAAS do Garcia no domingo, e no dia seguinte passou para ver como eles estavam.

"Nos primeiros três dias de carnaval eles ficaram com uma vizinha, mas o movimento na rua está fraco e eu não poderia pagar os 300 reais que combinei pra ela cuidar deles. Por isso tirei eles de lá e não me arrependi. Aqui eles estão se alimentando melhor", justificou. Fernanda estima que ao final do Carnaval vai lucrar em torno de mil reais, contra R$ 2,5 mil que ganhou no ano passado.

Já Vitor Hugo Chinelis não teve a mesma sorte. Para ele e para a sua mulher, Débora, o Carnaval acabou mais cedo. Eles tiveram que deixar pra trás o ponto de venda de cerveja, refrigerante e água que mantinham na Barra depois que descobriram que as brotoejas nas pernas da filha Pérola Vitória, de um ano e três meses, não eram resultado do calor, mas de uma doença contagiosa, a escabiose. A descoberta foi feita durante a entrevista de ingresso da menina no CAAS do Rio Vermelho. Pérola Vitória não foi aceita para não infectar outras crianças.

No CAAS do Garcia, impressiona a quantidade e a idade das crianças do berçário, algumas muito pequenas, de apenas três meses de vida. No espaço onde os pequenos vestidos apenas de fraldas disputam o amor das cuidadoras, a educadora social Elaine Cristina diz que cada uma de suas colegas já "adotou" um bebê. Ela mesma passa a maior parte do tempo dando colo a Lucas*, um menino de oito meses de idade que tem mais 10 irmãos, todos deixados no abrigo por seus pais, que são catadores de material reciclável.

Secretária de um órgão da administração municipal, Elaine completou 42 anos na última quinta-feira, e classifica como "o maior presente" o plantão de 12 horas diárias que cumpre no abrigo do Garcia. Triste mesmo, ela prevê, vai ser quando chegar às 12h da Quarta-feira de Cinzas, prazo-limite para os pais irem buscar seus filhos: "Esse é um trabalho de amor e todas nós aqui estamos nos preparando para o dia da despedida. Vai ser uma choradeira só".

*Nome fictício

Salvador