Edmo Atique Gabriel

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Opinião

Como lidar com as ondas de calor e a prática de atividade física?

Graças ao aquecimento global, inúmeras catástrofes naturais, como enchentes, tempestades e incêndios, têm aumentado, e a infraestrutura dos países tem se mostrado cada vez mais frágil. Em 2050, teremos áreas das cidades de Santos e Rio de Janeiro totalmente submersas.

Mas há também consequências dessas mudanças climáticas para a saúde. Existe um importante impacto das altas temperaturas no bom funcionamento de órgãos, como coração, cérebro, rins e fígado. As altas temperaturas do planeta, especialmente nos meses de verão em países tropicais como o Brasil, acarretam elevação da temperatura central do corpo, podendo atingir níveis próximos de 40°C.

Nosso sistema nervoso tem a capacidade sensorial de perceber as variações de temperatura do corpo, particularmente em situações mais extremas, como tem sido nos meses de verão. A temperatura central de nosso corpo representa exatamente essa percepção de nosso sistema nervoso, como se fosse um termômetro interno.

A questão crucial é que as elevadas temperaturas do planeta ocasionam estímulos constantes nesse termômetro interno do corpo, gerando muitas complicações no funcionamento dos órgãos.

Para ser ter uma ideia mais precisa, muitos estudos já demonstraram que, considerando uma temperatura central do corpo em torno de 33°C:

cerca de 508 milhões de pessoas terão de enfrentar um acréscimo de 1,5°C;

789 milhões de pessoas enfrentarão acréscimo de 2°C;

1,22 bilhão de pessoas terão de vivenciar um acréscimo de 3°C à sua temperatura central, nos próximos anos.

Em termos práticos, essa hipertermia corporal gera um processo inflamatório sistêmico, tendo como principal complicação a rabdomiólise e como principal falência orgânica a insuficiência renal, seguida da disfunção neurológica, respiratória, metabólica, hematológica, circulatória e hepática.

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A rabdomiólise consiste na lesão muscular provocada pelo calor excessivo, causando liberação de enorme quantidade de mioglobina na circulação sanguínea. A mioglobina é uma proteína que prejudica a filtração do sangue pelos rins, levando à insuficiência renal.

Outra importante repercussão da hipertermia corporal é o distúrbio de coagulação sanguínea, podendo ocorrer em quase 50% dos casos.

As elevadas temperaturas podem causar repercussões clínicas durante a prática de atividade física, mas também ao repouso. A sobrecarga de calor durante uma atividade física favorece a contração muscular intensa associada ao estresse físico prolongado, e tudo isso, conjuntamente, induz uma resposta inflamatória sistêmica.

Um aspecto interessante é que cada vez mais os casos de hipertermia corporal têm sido diagnosticados em grupos de pessoas que executam poucas atividades físicas, como as crianças e idosos. Nestes grupos de pessoas, a hipertermia pode aumentar as taxas de hospitalização, em decorrência de desidratação, insuficiência renal e infecções. Os distúrbios de coagulação podem ser potencializados por essas infecções, incluindo a covid-19.

Os grandes desafios para a ciência têm sido diagnosticar diferentes níveis de sobrecarga térmica e identificar possíveis biomarcadores capazes de demonstrar se as elevações térmicas estão causando disfunções orgânicas. Esses biomarcadores seriam proteínas quantificadas na corrente sanguínea, as quais poderiam determinar a existência de disfunção orgânica, permitindo que medidas de contenção sejam prontamente implementadas.

Isso tornaria a prática de atividade física muito mais segura diante do risco que o calor excessivo poderia acarretar à vitalidade dos nossos órgãos. Como exemplo de biomarcador que ainda está sendo investigado, temos o D-dímero, uma proteína relacionada a distúrbios da coagulação sanguínea.

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As medidas terapêuticas mais utilizadas para a hipertermia corporal incluem:

hidratação rigorosa;

esfriamento do corpo;

uso de anti-inflamatórios;

uso de anticoagulantes;

em alguns casos, uso de antibióticos.

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Quanto à hidratação, os objetivos principais seriam a reposição das perdas excessivas e também a diluição da quantidade expressiva de toxinas circulantes.

No início de 2022, um estudo coordenado por Jerrold Levy, da Duke University, nos Estados Unidos, propôs algumas questões acerca do impacto da hipertermia na saúde global das pessoas. Seriam pontos fundamentais, ainda sem total esclarecimento, que poderiam auxiliar na prevenção e controle da hipertermia corporal.

O primeiro ponto diz respeito a quais seriam os principais fatores facilitadores da progressão da disfunção orgânica; o segundo ponto seria aprofundar as investigações sobre como intervir nessa forte conexão entre inflamação e distúrbios da coagulação; por fim, a última análise seria identificar biomarcadores que caracterizassem a severidade da sobrecarga térmica.

Os efeitos deletérios do aquecimento global certamente irão comprometer a qualidade de vida das futuras gerações. As pessoas certamente terão medo de conciliar atividade física rotineira com os riscos da hipertermia corporal.

As medidas terapêuticas deveriam ser implementadas precocemente, a partir dos primeiros sintomas, impedindo a rápida progressão para disfunção de órgãos como coração e rins. Seria interessante também que todo tipo de atividade física fosse orientada em relação às possíveis complicações da hipertermia, especialmente naquelas pessoas com algum histórico de doença prévia, cirurgia prévia ou em condição clínica mais frágil.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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