PUBLICIDADE

Topo

Edmo Atique Gabriel

Será que consumir bebida alcoólica pode fazer bem ao coração?

LauriPatterson/Getty Images
Imagem: LauriPatterson/Getty Images
Edmo Atique Gabriel

Professor livre-docente na Unilago (União das Faculdades dos Grandes Lagos), palestrante, especialista em cirurgia cardiovascular com aprimoramento em centros como Harvard Medical School e Cleveland Clinic e pós-graduado em nutrologia médica pela Abran (Associação Brasileira de Nutrologia).

Colunista do UOL

03/10/2020 04h00

Existe espaço para uma boa convivência entre o consumo de álcool e uma função cardiovascular saudável? A resposta será negativa para aquelas pessoas que utilizam as bebidas alcoólicas sem critérios e sem moderação. A resposta será afirmativa para aquelas pessoas que procuram compreender os benefícios de algumas bebidas alcoólicas e também qual quantidade consumir semanalmente.

O bom senso deve prevalecer em relação ao simples e muitas vezes exagerado prazer de beber por beber, buscando embriagar-se e posteriormente tendo de vivenciar consequências maléficas para a saúde.

Antes de comentar sobre os aspectos positivos relativos ao consumo moderado de algumas bebidas alcoólicas, vou ponderar sobre os efeitos indesejados do álcool para o coração e nossa saúde em geral.

As bebidas alcoólicas, principalmente as destiladas como o uísque, são extremamente calóricas, favorecendo o ganho expressivo de peso e aumentando o risco de desenvolver diabetes. As bebidas alcoólicas, em geral, causam processo inflamatório em alguns órgãos como o coração, fígado, pâncreas e cérebro.

O consumo exagerado de bebidas alcoólicas por um período prolongado (meses e anos) pode causar insuficiência cardíaca, ou seja, a falência estrutural e funcional do coração, como também cirrose hepática, uma doença extremamente grave caracterizada pela destruição do tecido hepático.

Por outro lado, o consumo exagerado de bebidas alcoólicas sob a forma de uma bebedeira ou "porre" pode ocasionar pancreatite aguda, grave estado inflamatório do pâncreas, que pode matar por hemorragia, além de alterações neurológicas diversas como confusão mental e alucinações.

O consumo de álcool deveria ser sempre planejado, não simplesmente começar a beber loucamente, sem horário para terminar, sem preocupação com a quantidade e, principalmente, sem considerar que muitas vezes os efeitos da embriaguez podem culminar com a perda de oportunidades, com o prejuízo nas relações humanas e com o impacto irreversível no ambiente familiar.

Benjamim Franklin, uma das figuras historicamente mais representativas da diplomacia norte-americana, profetizava que devemos "tomar conselhos com o vinho e tomar decisões com a água."

Apreciar de maneira correta

Vinho tinto no verão? Pode sim! - Unsplash - Unsplash
Imagem: Unsplash

Mas é claro que existem alguns aspectos positivos e muito interessantes acerca das bebidas alcoólicas e, desta forma, sabendo apreciar e consumir com a devida moderação, podemos ganhar um grande aliado na luta contra algumas doenças e contra o estresse do mundo moderno.

Como dito anteriormente, o consumo de álcool pode ser benéfico à saúde cardiovascular, contanto que as pessoas conheçam algumas informações, saibam escolher e reconhecer as propriedades da bebida alcoólica e também tenham moderação no consumo diário ou semanal.

Sendo muito direto e objetivo, não há dúvidas de que a melhor bebida alcoólica para o coração, do ponto de vista de proteção, é o vinho tinto. A concentração de substâncias conhecidas como polifenois determina os reais benefícios de uma bebida alcoólica para a saúde cardiovascular.

E neste quesito, o vinho tinto se sobressai em relação aos outros tipos de bebidas alcoólicas, incluindo o vinho branco. Lembrando que o vinho tinto, por ser uma bebida fermentada sem remover as cascas e sementes das uvas, conserva boa parte dos polifenois na sua composição. As propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes do vinho tinto derivam exatamente da alta concentração dos polifenois.

Existe aquele conceito que se popularizou de "tomar uma taça de vinho por dia faz bem ao coração". Devemos interpretar este conceito como sendo válido para pessoas que querem verdadeiramente utilizar o vinho como um aliado na prevenção da aterosclerose e do diabetes.

Muitos estudos já demonstraram que este consumo diário do vinho tinto favorece a redução dos níveis de colesterol e combate a resistência à insulina, um importante mecanismo presente na gênese do diabetes. No entanto, cabe destacar que não há fundamento em se combinar uma taça de vinho diária com alimentos gordurosos e processados. Isto aumentaria o poder do malefício em detrimento do benefício.

Abaixo do vinho, numa escala hierárquica de benefícios para a saúde cardiovascular, estaria a cerveja. Embora a cerveja seja a bebida alcoólica mais presente nas bebedeiras e "porres", ela pode ser útil para agregar efeitos anti-infamatórios ao nosso coração e nosso organismo, quando consumida criteriosamente.

Na composição da cerveja, encontramos alguns polifenois e também vitaminas do complexo B, sendo que estas últimas auxiliam no metabolismo cardíaco. Uma dica interessante para se aproveitar os benefícios da cerveja, principalmente em meses muito quentes, seria escolher 3 a 4 dias da semana e consumir uma lata por dia.

Consumir mais do que isso, dependendo dos alimentos que irão completar a refeição, pode resultar em distensão abdominal e sensação de empachamento.

Destilados? Vá com calma...

uísque - Gestty Images/iStockphoto - Gestty Images/iStockphoto
Imagem: Gestty Images/iStockphoto

As bebidas alcoólicas destiladas, como o uísque, vodca, licor e cachaça, apresentam teor alcoólico geralmente mais elevado, são significativamente mais calóricas e seus benefícios cardiovasculares não são valoráveis.

Estas bebidas deveriam ser consumidas muito ocasionalmente, sempre em pequena quantidade, visto que seu consumo exagerado pode propiciar efeitos inflamatórios no músculo cardíaco, causando dilatação progressiva e redução da capacidade ejetiva do mesmo.

Nas últimas décadas têm crescido, principalmente entre os jovens, o hábito de consumir conjuntamente as bebidas destiladas e os energéticos, ricos em cafeína e taurina. Este hábito promove elevação da temperatura corpórea, elevação da pressão arterial, arritmias e consequente maior risco de morte súbita.

As bebidas destiladas, devido ao maior teor alcoólico, podem promover mais alterações neurológicas e risco aumentado para o AVC (acidente vascular cerebral).

A vida humana fundamenta-se no livre arbítrio. Nós somos plenos intelectualmente para buscar o conhecimento e, partir dele, definir nossas escolhas e hábitos.

No tocante ao consumo de bebidas alcoólicas, está em jogo o prazer de beber sem critério ou beber de forma seletiva e criteriosa. O prazer de beber pode ser convertido em importante aliado da saúde cardiovascular, mas isto somente acontecerá se estivermos atentos a quantidade e qualidade da bebida.

O vinho tinto em primeiro lugar, a cerveja em segundo lugar, ambas com absoluta moderação para que a vida siga em frente sem grandes percalços.

Caso queira ler mais sobre saúde do coração, acesse meu site: https://coracaomoderno.com.br/.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.