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Thiago Gonçalves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ciência é criação, e pandemia dificulta avanço com cientistas distantes

Dylan Ferreira/ Unsplash
Imagem: Dylan Ferreira/ Unsplash
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Thiago Signorini Gonçalves

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia, professor do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público como divulgador científico.

16/09/2021 04h00

Quando pensamos no trabalho de cientistas, muitas vezes a imagem que vem à mente é uma pessoa de jaleco em um laboratório, usando equipamentos de alta tecnologia. Mas será que isso é tudo?

É verdade, em muitos casos isso faz parte do dia a dia de pesquisadores —embora não seja exatamente o meu caso, como astrônomo que passa a maior parte do dia em frente ao computador. Ainda assim, uma etapa importante do trabalho de qualquer cientista é o que vem depois do resultado: a divulgação de seu trabalho.

Parte disso é escrever artigos científicos, que serão publicados em revistas especializadas e lidos por colegas ao redor do planeta, mas outra parte é a participação em conferências. E isso simplesmente não é o mesmo em tempo de pandemia.

Pensei nisso porque, nesta semana, estou participando da Reunião Anual da Sociedade Astronômica Brasileira. É um encontro tradicional, que infelizmente foi cancelado no ano passado devido à pandemia, mas que em 2021 foi realizado virtualmente.

É incrível pensar que a tecnologia de comunicação nos permite participar de conferências à distância. Ao mesmo tempo, é importante ter consciência de que a experiência não é a mesma.

Conferências científicas, para mim, são muito mais que assistir a palestras ou apresentar meu trabalho. Não, talvez o mais importante seja o momento do café, do almoço, o tempo livre ao redor das palestras.

Não porque as palestras não sejam importantes, mas porque servem de gatilho para a conversa que vem depois.

Ciência é criação de conhecimento, e a discussão mais produtiva vem depois das apresentações. Com a mente fervilhando, é a oportunidade de encontrar colegas com interesses semelhantes, e de colocar o cérebro para funcionar e pensar nos próximos projetos, nas próximas pesquisas, nas próximas perguntas a serem feitas.

Infelizmente, na atual reunião anual isso não pode ser feito. Tivemos seminários excelentes, incluindo a Dra. Andrea Ghez, que recebeu o prêmio Nobel em 2020 por seus estudos do buraco negro supermassivo no centro da Via Láctea. Mas não havia oportunidade de falar com ela a seguir; acabou a palestra, ela desligou seu computador na Califórnia, e eu já não podia mais seguir a conversa.

Para os alunos, eu diria que é uma faca de dois gumes: por um lado, ficou muito mais fácil para eles participar de conferências, já que os custos associados são muito menores —afinal, não há viagens, apenas a conexão de internet.

Por outro lado, eles agora têm menos oportunidades de interagir com futuros orientadores e buscar novas oportunidades de bolsas ou grupos de pesquisa para sua carreira no futuro próximo.

As conferências eram para mim uma oportunidade de interagir com meus pares, de trocar ideias e pensar no futuro. Agora, são apresentações virtuais que não nos permitem interagir além de uma breve troca de textos.

Lembrem-se: o mais difícil da ciência não é encontrar respostas, mas pensar em perguntas que nunca foram feitas. Essas conferências eram o ambiente ideal para fomentar essas reflexões, e espero poder voltar logo ao formato presencial para podermos estimular a mente como fazíamos antes.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL