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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Da tristeza suicida à confiança serena: as histórias completas de Horácio

Horácio - Reprodução
Horácio Imagem: Reprodução
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

03/11/2021 04h00

Simpático, terno e algo melancólico. As lembranças que tinha de Horácio se confirmaram ao ler as histórias mais antigas do personagem abraçado por Mauricio de Sousa como xodó, espécie de alter ego, aquele que mais reflete aspectos de sua própria personalidade. Criado para ser um coadjuvante em quadrinhos de Piteco, em 1963 Horácio ganhou protagonismo numa série feita para a "Folhinha", o então recém-lançado suplemento infantojuvenil do jornal "Folha de S. Paulo".

E é uma série que começa pesada, com cenas que raramente vemos em obras infantis mais recentes. "Se eu tivesse coragem, me suicidaria! Como é triste viver sozinho", queixa-se o pequeno dinossauro em um dos seus primeiros quadrinhos. O muxoxo vem pelo sofrimento de ser ignorado pelos seus "irmãos da selva".

A solidão de Horácio comove em HQs como a publicada no final de 1968, quando se desilude ao tentar conversar com algo que considerava ser um possível amigo dentro de uma caverna. Em outra o tom é mais otimista: depois de lamuriar pela suposta falta de atrativos ("não tenho nada que preste! Sou feiozinho, cabeçudo... cor de alface!"), nota como seu aspecto ajuda na camuflagem.

Horácio Completo - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Esses quadrinhos estão no livro inaugural de "Horácio Completo", série dividida em quatro volumes que começou a ser publicada pela Pipoca & Nanquim em parceria com a Mauricio de Sousa Editora. A tetralogia reunirá todos os tabloides protagonizados pelo dinossauro e publicados na "Folhinha" e no "Estadinho", do jornal "O Estado de S. Paulo", entre 1963 e 1992 - no livro de estreia, as HQs vão até 1969.

Horácio é um personagem de complexidade admirável. Na introdução do volume, Mauricio, criador, lembra da evolução de outras características de sua criatura. "Quando vi, Horácio passou a transmitir muitas coisas em que eu acreditava. Ele demonstrava uma visão otimista, de que o amanhã seria melhor que hoje. Além disso, gostava de ajudar os amigos e, às vezes, até os inimigos. Sempre com uma postura calma e confiante".

Nas histórias há desde a aparição de grandes estrelas da "Turma da Mônica" em suas versões mais antigas, incluindo a clássica Mônica carrancuda, até personagens que não costumam habitar o imaginário do público, como Tecodonte, um dos melhores amigos de Horácio, inspirado num dinossauro que existiu no território que hoje pertence ao Brasil. Dentre as referências, alusões a narrativas fundamentais da humanidade, com direito a Horácio dando uma de Xerazade da Pré-História num diálogo com a famosa passagem de "As Mil e Uma Noites".

Trecho de Horácio Completo - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Encarar seis anos de quadrinhos de Horácio numa só sentada também permite que o leitor observe alterações no estilo de Mauricio, bem como erros ou desatenções nas sequências dos quadrinhos - trabalho facilitado pelas notas de rodapé do volume. Num anúncio colocado no final de uma HQ de dezembro de 1967, por exemplo, temos um inusitado Cebolinha articulando perfeitamente o "R" em todas as palavras.

Desses detalhes curiosos, um merece atenção. Em 1968, há a primeira inserção de um selo criado por Mauricio. Nele, Maria Cebolinha ilustra uma mensagem para incentivar os pais a vacinarem seus filhos aos 2 meses de idade. Faz tempo que não leio quadrinhos recentes da "Turma da Mônica", mas, se ainda não rolou, poderia ser uma boa criarem alguma campanha semelhante, desta vez pensada para os pré-históricos que descobrirmos existir aos montes por aí.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL