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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

China Iron e as formas de sobreviver ao horror

Pintura de Cándido López - Reprodução
Pintura de Cándido López Imagem: Reprodução
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

20/10/2021 04h00

Luiz Antonio Simas, historiador e voz a ser escutada, costuma dizer: diferente do que muitos pensam, o Brasil deu certo. É mesmo um país projetado para deixar quem já é rico cada vez mais endinheirado enquanto boa parte do seu povo é massacrada. "O único país que existiria era aquele que estavam construindo para os coronéis e fazendeiros", leio em "As Aventuras da China Iron". O país, nesse caso, é a Argentina, mas lembrei do modo como Simas encara a nossa construção.

Se a história está feita, pode a literatura pensar em caminhos diferentes daqueles traçados. Romance de Gabriela Cabezón Cámara, "As Aventuras da China Iron" acaba de sair aqui no Brasil pela Moinhos, com tradução de Silvia Massimini Felix. Nele o leitor acompanha China, mulher mestiça que foge do marido com quem se casara após ser apostada num jogo de truco. Junto com Estreya, seu cachorro, China encontra a inglesa Liz. Esta lhe apresentará elementos de um mundo bem diferente do que conhece naquele pampa que precisam cruzar para chegar ao rio Paraná.

Não demora para que o gaúcho Rosário, que vive pelas pradarias a "galopar à procura de vacas, degolando inimigos ou fugindo de levas e batalhas", apareça e se agrupe. Juntos, seguem numa relação de troca e confiança. Travam "uma guerra de cotidianos, não de eternidades". Movem-se por um terreno em disputa entre os povos originários e os fazendeiros que procuram ampliar suas estâncias, levar o "progresso" adiante com a ponta da lança.

As Aventuras da China Iron - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

A viagem por territórios ainda misteriosos, de natureza tão deslumbrante quanto eventualmente ameaçadora, e os cenários pouco destroçados pelo tal progresso aproximam o romance de Cámara de "O País da Canela", do colombiano William Ospina (Mundaréu). Neste, ambientado séculos antes de "As Aventuras da China Iron", um grupo de navegadores em busca de riquezas precisa sobreviver a uma expedição épica pelo rio Amazonas.

Referência mais óbvia para o trabalho de Cámara é "Martín Fierro", de José Hernández, publicada em 1872 e tida como obra fundadora da literatura argentina. A China que protagoniza o romance é uma personagem secundária nos versos de Hernández. É de Fierro, aliás, que a jovem foge para viver com Liz não só aventuras entre fazendeiros megalomaníacos e índios bravios, mas também na intimidade:

"Entrei na carroça. Tirei o vestidinho e a anágua, vesti as bombachas e a camisa do inglês, amarrei seu lenço no pescoço, pedi a Liz que pegasse a tesoura e cortasse rente meu cabelo, a trança caiu no chão e me tornei um moço jovem, good boy ela me disse, com as mãos aproximou meu rosto do seu e me beijou na boca. Fiquei surpresa, não entendi, não sabia que aquilo era possível e tinha sido revelado a mim de modo tão natural, por que não seria possível?"

O romance entre Liz e China, com direito a cenas de grande erotismo, está no centro do trabalho de Cámara. Se oferecer elementos para discutir a sexualidade naquele espaço histórico inóspito, bélico e machista já causa boa surpresa, a escritora acerta ainda mais ao acrescentar a transexualidade como uma das camadas de sua obra. Não bastasse, a surpresa se dá numa aula de como virar os clássicos de cabeça para baixo e bem utilizá-los para fazer a própria literatura.

Gabriela Cabezón Cámara - Alejándra López - Alejándra López
Imagem: Alejándra López

Num passado recente, dois romances latino-americanos fizeram muito barulho entre a crítica e os leitores de fora do Brasil. Um é "Temporada de Furacões", da mexicana Fernanda Melchor, que saiu por aqui no começo do ano pela Mundareú. O outro é este "As Aventuras da China Iron". Coincidentemente, ambos foram finalistas do International Booker Prize no mesmo ano, em 2020. Algo raro de acontecer: todo o barulho a respeito de "Temporada de Furacões" e de "As Aventuras da China Iron" é justo. São livros que superam as expectativas.

"Acreditávamos que o avanço argentino seria a ferro e fogo: os charcos se inundariam de sangue", lemos em certo momento de "As Aventuras da China Iron". E assim foi. Mas poderia não ter sido. Ou poderia não ter sido para alguns, pelo menos - e não penso nos colonizadores que levaram o horror a praticamente todos os cantos do continente.

Há uma tendência na literatura contemporânea de se olhar com mais atenção, interesse e respeito para os conhecimentos e tradições de povos indígenas. No Brasil, livros recentes como o romance "Suíte Tóquio", de Giovana Madalosso (Todavia), e o ensaio "O Mundo Desdobrável", de Carola Saavedra (Relicário), são exemplos disso. Os hábitos culturais que China, Liz e outros personagens encontram entre aqueles que já habitavam estas terras é um elemento decisivo no livro de Cámara, publicado originalmente em 2017.

Em seu desfecho, "As Aventuras da China Iron" se revela um romance sobre encontros: encontros consigo, encontros com o outro, encontros com a beleza, com o seu lugar no mundo. E encontros com formas para eventualmente sobreviver à carnificina que banhou e banha o continente. É uma história sobre o que fomos - sim, chuto pra longe as fronteiras -, mas também sobre o que poderíamos ter sido. Ou ainda podemos ser, quem sabe.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL