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REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Por que conhecer a história de Carlos Marighella? Papo com Mário Magalhães

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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

29/10/2021 04h00

Na 101ª edição do podcast da Página Cinco:

- Papo com Mário Magalhães, autor de "Marighella - O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo" (Companhia das Letras) - aqui a resenha do livro escrita em 2019.

Alguns destaques do papo:

História do Brasil

Sem conhecer a história do Carlos Marighella, no fundo não se conhece a história do Brasil. Não estou nem falando só do Brasil República.

Homem múltiplo

O Marighella tem a grande vantagem para um biógrafo, e para quem quer conhecer a história dele: ele foi sim um militante político, um revolucionário, um militante comunista, mas ele foi muito mais do que isso. Ele foi um artista. Foi um poeta. O Marighella foi um homem que viveu o seu tempo das mais diversas formas.

Impossível indiferença

Ninguém é obrigado a amar. É legítimo odiar o Marighella. Mas é impossível ficar indiferente à trajetória dele.

Muito mais do que guerrilha

O Marighella ganha fama como um cara que responde prova em versos. Quando ele vai em cana pela primeira vez, na cadeia ele puxa cânticos em versos e faz poesia contra o interventor da época, que era o governador nomeado. Marighella vai ser um organizador estudantil. Marighella vai ser organizador do PCB (Partido Comunista Brasileiro). Marighella preso, em Fernando de Noronha, vai organizar uma universidade popular, como eles chamaram. Marighella sai da cadeia e, na reorganização do PCB, ele se elege deputado constituinte. Marighella assume o mandato como deputado federal e é cassado por motivos políticos com todos os parlamentes do PCB no país...

Lado do torturado

Como biógrafo, não sou juiz de personagem. Não concordo ou discordo dele, embora não seja filho de chocadeira. Numa cena de tortura, eu a descrevo com o máximo de objetividade possível, mas com a compaixão de quem está do lado do torturado. Não existe esse papo de "eu sou isentão", "o torturador isso, mas o torturado também...". Não. Quem fica em cima do muro no massacre de torturador contra torturado, tem lado sim: é o lado do torturador.

Civilização x Barbárie

Não tem em cima do muro entre olhar para o torturador e para o torturado. Entre a civilização e a barbárie não existe em cima do muro. Ou você está com a civilização ou está com a barbárie, mesmo que diga que não está.

Moro à direita de Bolsonaro

Quem aceita ser ministro da Justiça do Bolsonaro, bolsonarista é. Tenho uma tese de que Sérgio Moro está à direita de Bolsonaro. Porque Bolsonaro é aquilo. Sérgio Moro, que tem um pouquinho de sofisticação a mais, esconde o que é.

Marighella hoje

Nunca é tarde para conhecer a história do Marighella. Hoje, ele provoca mais amor e ódio do que em qualquer época da nossa história. Isso tem a ver com as ações que ele empreendeu, com as ideias que ele cultivou, mas tem a ver, sobretudo, com o Brasil de hoje. Os valores do Marighella estão em conflito profundo com as ações e as ideias do governo de plantão. O Marighella, hoje, mexe muito mais com as pessoas porque é, ao mesmo tempo, inspiração para algumas e, para outras, é temor, é medo.

Maldito

Marighella continua a ser um maldito. Basta ver toda a dificuldade para que o filme do Wagner chegasse aos cinemas.

Biografia X filme

Há duas diferenças marcantes entre a biografia e o filme. O meu trabalho é literário e de não ficção. O trabalho do Wagner é a arte do cinema e é um filme de ficção. Baseado nos fatos reais, mas ficcional.

2022

2022 vai ter muito de 2018 e vai ter muito da história do Brasil, que é a história que o Marighella viveu. De uns poucos querendo cada vez mais e de muita gente entregue à própria sorte, com uma das elites mais egoístas do planeta.

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