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Tales Torraga

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Volta olímpica no Brasil põe Messi ao lado de Maradona no coração argentino

Messi e Maradona abraçados no Olimpo argentino - Reprodução web
Messi e Maradona abraçados no Olimpo argentino Imagem: Reprodução web
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Tales Torraga

Jornalista e escritor, Tales Torraga nasceu em Mogi das Cruzes (SP), mas é, segundo os colegas, "mais argentino que os próprios argentinos". Morou em Buenos Aires e Montevidéu, girou pela imprensa brasileira e portenha e escreveu 15 livros ? o último deles, Copa Loca, é sobre a...Argentina nos Mundiais.

Colunista do UOL

11/07/2021 12h00

"Messiento campeón!"

A exclamação dispensa traduções, e o inteligente trocadilho que invadiu a madrugada em Buenos Aires reativou a velha comparação entre os argentinos. Agora campeão, Lionel Messi está à altura de Diego Armando Maradona no exigente e loucamente sofrido coração azul e branco, reconhecido com razão como um dos mais apaixonados, impulsivos e impacientes do mundo?

"Lado a lado"

O primeiro a colocar Messi e Maradona rigorosamente abraçados no Olimpo do esporte argentino é o apresentador de TV e narrador Sebastián "Pollo" Vignolo, talvez a principal voz do esporte no país neste 2021.

Vignolo e Messi são amigos, e o narrador não esconde que o atual capitão argentino lhe desperta "admiração, devoção, fanatismo e apreço". "Meu filho o ama, é o seu ídolo, um super-herói. Também lhe ensinei a gostar de Maradona, repito que os dois são iguais. Digo: Messi é seu Maradona", revelou o "Pollo" sobre suas conversas com o filho Benjamín, de oito anos.

Quem tem olhar semelhante para a simetria entre Messi e Maradona é o jornalista Daniel Arcucci, biógrafo oficial de Diego: "Messi se mete agora agora em um lugar que muitos não achavam que estaria. Ele não fez o gol do século nos ingleses, certo? Tudo bem. Mas deu a volta olímpica na casa do Brasil".

Dos comunicadores mais inteligentes da Argentina, Arcucci segue: "Há situações épicas que ficam na história. Todo o fenômeno Maradona, se quiser, você pode explicar com o jogo contra a Inglaterra. Gol com a mão, gol driblando todo mundo...São coisas que ficam para sempre".

Oscar Ruggeri, ex-zagueiro e hoje comentarista dos canais ESPN, diz que esta versão 2021 de Messi surpreende por sua liderança: "Ele foi o líder de todos os meninos. Vocês viram como Messi foi consolar De Paul quando errou o pênalti contra a Colômbia?", perguntou.

Segue Ruggeri: "E isso porque bateram nele de verdade. Disso eu conheço. O tornozelo com sangue, outro dia, que pensa que foi? Você vai travar a bola e deixa a perna".

Ganhar do Brasil vale mais

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Lionel Messi, capitão da Argentina, levanta a taça da Copa América no Maracanã
Imagem: Carl de Souza/AFP

É claro que a façanha esportiva de um e outro não encontram muitas semelhanças. Maradona conduziu a Argentina ao topo do futebol mundial derrotando em Copas todas as potências da época. Inglaterra, Uruguai, Brasil, Itália e Alemanha foram enfileiradas aos pés de um Diego iluminado em um ciclo (1986 e 1990) que incluiu um título na primeira tentativa e um vice na segunda.

Mas a Messi é atribuída uma perseverança que Maradona sequer precisou. Lionel estreou na seleção argentina há 16 anos (em um amistoso em 2005 contra a Hungria) para só agora conquistar seu primeiro título, depois de perder quatro finais (três edições da Copa América e uma da Copa do Mundo).

Embora a Copa América seja inegavelmente menos importante que o Mundial, a conquista levantada ontem é vista de maneira unânime no país como o terceiro título mais importante da história do país, atrás apenas dos Mundiais.

As razões são fáceis de entender. O Brasil não perdia uma final em casa desde a Copa do Mundo de 1950, e tal façanha ressoa fundo no coração argentino que olha para o futebol verde-amarelo com total respeito e admiração. Ganhar do Brasil é ganhar do que o continente e o mundo podem oferecer de melhor para se comparar.

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Maradona na conquista da Copa do Mundo FIFA de 1986, após o episodio da "la mano de Dios"
Imagem: Alessandro Sabattini/Getty Images

Patrimônio argentino

Quem viu de perto como a Argentina amou Maradona loucamente em seu auge custa a acreditar que alguém esteja hoje ocupando o lugar de um Diego que foi endeusado como nenhum outro esportista em nenhum outro país do mundo.

O que também contribui para a paridade atual entre Diego e Lionel foi a maneira como cada um atingiu o ápice com a camisa argentina. Enquanto Maradona agiu de maneira antidesportiva fazendo um gol com a mão e arquitetando a trapaça da "água batizada" dada a Branco na Copa de 1990, Messi não tem nenhuma mancha no currículo que o coloque em tais situações.

A carreira de Maradona e Messi na Europa também podem perfeitamente ser lidas de maneira horizontal - embora quem encontre superioridade de Messi pela coleção de títulos pelo Barcelona também tenha sua razão para enxergar sua obra mais completa que a de Maradona colocando o pequeno Napoli em condição de igualdade (e às vezes superioridade) diante de Milan e Juventus no auge do futebol italiano (e talvez no ápice da pesada rixa entre o sul e o norte do país).

Veneração

Quando Maradona completou 60 anos, exatos 25 dias antes de morrer, escrevemos aqui no UOL que sua decrepitude física já era sentida na veneração popular. Os portenhos viram de perto e vibraram como loucos com seu auge, mas se esgotaram com os inúmeros e cada vez mais tristes escândalos.

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Messi e Maradona trabalharam juntos na seleção argentina durante a Copa-2010
Imagem: Getty Images

As novas gerações ganharam ídolos esportivos mais comportados, como a Argentina campeã da Copa Davis de 2016 e a seleção olímpica de basquete de 2004. Veio também Messi e vieram os auges de Boca e River, cujos títulos máximos são recentes. A mitologia maradoniana juntou pó e perdeu espaço para outras épicas dos gramados, virou assunto para a Igreja Maradoniana e para um punhado de fanáticos, não para o calor das massas, como cantava o roqueiro Gustavo Cerati.

A contratação de Diego como técnico do Gimnasia y Esgrima de La Plata foi um bom exemplo. O fervor portenho durou dias ou horas, jamais semanas ou meses. O "Pelé ou Maradona?" só existe para quem tem mais de 40 anos. A Argentina hoje soma 45 milhões de habitantes, 10 milhões a mais do que em 1994, quando "El Diez" deixou a seleção.

O interior da Argentina gira em ritmo diferente. Especialmente no norte, de vida mais pausada e campestre. Em certas províncias, onde o rádio que se ouve e o mate que se toma em nada se diferem do inigualável 1986, as "raízes são as raízes", como prega um dos famosos ditados do país. Lá, Maradona segue venerado de maneira intacta, com imagens quase religiosas adornando as casas e as peles de quem tatua este ídolo hoje tão transgressor.

Diego, de fato, simbolizava um mundo que não existe mais. Sua imagem começou a tombar exatamente na escalada da TV por assinatura, e seria impossível transportar sua vida louca para a atualidade célere das redes sociais, trend topics, privacidade zero e futebol com VAR.

Nada nem ninguém é eterno, nem quem era tido como um Deus.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL