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Tales Torraga

Aos 60 anos, Maradona ainda é venerado pelos argentinos?

Tales Torraga

Jornalista e escritor, Tales Torraga nasceu em Mogi das Cruzes (SP), mas é, segundo os colegas, "mais argentino que os próprios argentinos". Morou em Buenos Aires e Montevidéu, girou pela imprensa brasileira e portenha e escreveu 15 livros – o último deles, Copa Loca, é sobre a...Argentina nos Mundiais.

Colunista do UOL

30/10/2020 12h00

Era 1991. Expulso da Itália por doping, Diego Maradona voltou a Buenos Aires para se recuperar, mas acabou piorando, preso com cocaína. Seu declínio virou assunto cotidiano na capital argentina, uma novela de capítulos infinitos que se arrasta até este 2020.

Diego Maradona em 2020 - Marcos Brindicci/Getty Images - Marcos Brindicci/Getty Images
Diego Maradona em 2020
Imagem: Marcos Brindicci/Getty Images

Maradona completa hoje 60 anos, e o antes e depois de 1991 é muito claro na sua veneração cada vez mais dissipada na capital. Os portenhos viram de perto e vibraram como loucos com seu auge, mas se esgotaram com os inúmeros e cada vez mais tristes escândalos.

As novas gerações ganharam ídolos esportivos mais comportados, como a Argentina campeã da Copa Davis de 2016 e a seleção olímpica de basquete de 2004. Veio também Messi e vieram os auges de Boca e River, cujos títulos máximos são recentes. A mitologia maradoniana juntou pó e perdeu espaço para outras épicas dos gramados, virou assunto para a Igreja Maradoniana e para um punhado de fanáticos, não para o calor das massas, como cantava o roqueiro Gustavo Cerati.

A contratação de Diego como técnico do Gimnasia y Esgrima de La Plata é um bom exemplo. O fervor portenho durou dias ou horas, jamais semanas ou meses. O "Pelé ou Maradona?" só existe para quem tem mais de 40 anos. A Argentina hoje soma 45 milhões de habitantes, 10 milhões a mais do que em 1994, quando El Diez deixou a seleção.

O interior da Argentina gira em ritmo diferente. Especialmente no norte, de vida mais pausada e campestre. Em certas províncias, onde o rádio que se ouve e o mate que se toma em nada se diferem do inigualável 1986, as "raízes são as raízes", como prega um dos famosos ditados do país. Lá, Maradona segue venerado de maneira intacta, com imagens quase religiosas adornando as casas e as peles de quem tatua este ídolo hoje tão transgressor.

Diego, de fato, simboliza um mundo que não existe mais. Sua imagem começou a tombar exatamente na escalada da TV por assinatura, e é impossível transportar sua vida louca para a atualidade célere das redes sociais, trend topics, privacidade zero e futebol com VAR. Nada nem ninguém é eterno, nem quem era tido como um Deus.

1: Convém não comentar isso com um argentino, ele pode falar o que quiser de Maradona, um estrangeiro jamais, me entendés?

2: Exemplo de como a locura maradoniana hoje é sectária em Buenos Aires? O jornal esportivo "Olé" deu sua capa a Maradona nesta sexta, perfeito, mas o "La Nación" e o "Clarín", muito maiores e de interesses bem mais amplos, só registraram chamadas discretas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.