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Tales Torraga

REPORTAGEM

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Maradona ensaiava gol de mão nos treinos para Copa de 1986, revela Valdano

"Foi com a cabeça de Maradona, mas com a mão de Deus", declarou o jogador após polêmica partida - Getty Images
"Foi com a cabeça de Maradona, mas com a mão de Deus", declarou o jogador após polêmica partida Imagem: Getty Images
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Tales Torraga

Jornalista e escritor, Tales Torraga nasceu em Mogi das Cruzes (SP), mas é, segundo os colegas, "mais argentino que os próprios argentinos". Morou em Buenos Aires e Montevidéu, girou pela imprensa brasileira e portenha e escreveu 15 livros ? o último deles, Copa Loca, é sobre a...Argentina nos Mundiais.

Colunista do UOL

27/03/2021 12h00

Nada de improviso. O histórico gol de mão contra a Inglaterra foi ensaiado e repetido por Diego Armando Maradona nos treinos para a Copa de 1986. A revelação partiu de Jorge Valdano, companheiro do astro naquele time.

Chamado de "Filósofo" pela inteligência, Valdano, de 65 anos, lançou nesta quarta na Alemanha o livro D10s, narrando suas vivências com Maradona. Em um trecho da obra, ele detalha os treinos da Argentina no Mundial e como Diego ensaiou o recurso. Ninguém até hoje havia contado como Maradona aprimorava o gol de mão como "arma secreta" para enganar árbitros e rivais.

"Ele trabalhou nisso nos treinos, não foi a primeira vez [no jogo contra a Inglaterra]", relatou Valdano na obra. "Nos escanteios, ele acertava a bola e fazia o gol. Alguns davam risada e perguntavam: 'O que aconteceu?', e outros respondiam: 'Não viu? Foi com a mão'."

Saber que Maradona afiava o punho nos treinos permitiu encurtar a comemoração e pressionar o recomeço de jogo. "Não me surpreendeu quando ele marcou deste jeito. Diego nos disse: 'para o pontapé inicial, rápido'. Eu não sabia se o gol seria validado, então corremos muito para recomeçar logo."

O que sim se sabia era que Maradona fazia gols de mão desde as categorias de base - seus colegas no Cebollitas diziam que ele mal passava de 1,50 metro e socava a bola para as redes. É muito lembrada na Argentina sua tentativa de se fazer um gol com a mão no River Plate na célebre "tarde do barro e ouro". Maradona destruiu o fortíssimo rival debaixo de chuva com um "futebol dos deuses no campo dos infernos" nos 3 a 0 de 1981 na Bombonera. Diego levou o cartão amarelo, mas as imagens comprovam sua mescla de decisão e sutileza ao golpear a bola e deixá-la fora do alcance do goleiro Fillol.

"Viveza criolla", o "jeitinho brasileiro" deles

O Argentina x Inglaterra das quartas de final da Copa do Mundo de 1986, no México, é visto até hoje como um dos maiores, senão o maior jogo da história das Copas. Dois países loucamente apaixonados por futebol se enfrentaram quatro anos depois da Guerra das Malvinas, conflito armado entre as duas nações pela soberania no arquipélago. E o papel de Maradona nesta partida é visto como a mais emblemática atuação de um jogador argentino em todos os tempos. A começar pelo gol que inaugurou o marcador, logo aos 5 minutos da etapa final, com Diego saltando na dividida com o goleiro Peter Shilton e escorando com a mão esquerda. "Foi com a minha cabeça e com a mão de Deus", afirmou Diego, segundo relatos da época.

O gol de punho, sem dúvida um dos lances mais famosos da história do futebol, segue sendo tão discutido quanto o segundo tento de Maradona na partida, marcado apenas quatro minutos depois. Foram 55 metros percorridos com a bola grudada ao pé esquerdo, enfileirando ingleses como soldados caídos das Malvinas. Para os argentinos, não há o que discutir: é mesmo o "gol do século", aquele que "valeu por dois" - e compensou, portanto, o tento marcado com a mão, garantem eles. ("Acho que gostei mais do primeiro gol. Foi como roubar a carteira dos ingleses", provoca Maradona.)

O lance antológico do 2 a 0 deixou perplexos tanto os ingleses como os próprios argentinos. "Sempre dizem que o gol de Maradona só sairia contra a Inglaterra, que seria impossível ele fazer um gol assim contra uruguaios ou brasileiros, que o partiriam no meio. A verdade é que os ingleses fizeram de tudo para pará-lo com falta, mas não conseguiram", relembra Valdano.

Seu livro recém-lançado sobre Maradona não prevê versão em português.