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Tales Torraga

Maradona x Branco: qual foi o esquema para dar a água batizada em 1990

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Tales Torraga

Jornalista e escritor, Tales Torraga nasceu em Mogi das Cruzes (SP), mas é, segundo os colegas, "mais argentino que os próprios argentinos". Morou em Buenos Aires e Montevidéu, girou pela imprensa brasileira e portenha e escreveu 15 livros ? o último deles, Copa Loca, é sobre a...Argentina nos Mundiais.

Colunista do UOL

26/11/2020 04h04

A face visível do Brasil x Argentina de 1990 é a genialidade de Maradona enfileirando marcadores de amarelo para deixar Caniggia na cara do gol de Taffarel, levando a torcida azul e branca às nuvens com aquele gol tão inesperado e improvável. Mas aquela vitória teve também um lado obscuro - e bem mais nefasto.

Branco - Reprodução - Reprodução
Branco bebeu água batizada durante o confronto Brasil e Argentina na Copa de 1990
Imagem: Reprodução

Branco era o encarregado de cobrar as faltas para o Brasil, e fazia calor em Turim. "Estava uns 40 graus", relembrou Maradona em entrevista ao programa Mar Del Fondo, do canal TyC Sports, em 2004. Aos 39 minutos da etapa inicial, uma falta de Ricardo Rocha sobre Troglio deixou o argentino no piso.

Entraram então os auxiliares com várias garrafas de águas em recipientes de cores diferentes. E Branco, rodeado de argentinos, bebeu um pouco de uma garrafa verde, com o logotipo da marca de isotônicos Gatorade. Todos os argentinos tomaram água de garrafas transparentes.

"Vascooo, desse não, desse não, do outro!", gritou Maradona a Olarticoechea. Foi esse chamado que alertou o grupo: nem todos sabiam o que estava acontecendo. O próprio Diego detalhou tudo na entrevista de 2004: "Eu dizia, beba, beba, Valdito... E depois veio Branco, que tomou toda a água. Justamente o Branco, que batia as faltas e caía", contou, gargalhando. "Depois do jogo, estavam os dois ônibus juntos, e Branco me olhava pela janela e me apontava o dedo, me culpando, e respondia com gestos de que não tinha nada a ver com aquilo. Branco jogava na Itália e tínhamos boa relação. Depois disso não conversamos mais."

Maradona revelou inclusive qual foi a substância usada para drogar o brasileiro. "Alguém picou Rohypnol na água e complicou tudo", ria, citando o tranquilizante de uso psiquiátrico. De acordo com o jornal Clarín, esse "alguém" foi o massagista Miguel de Lorenzo, mais conhecido como Galíndez, sob ordens de Carlos Bilardo - que, afinal, também era médico e sabia dos meandros necessários para tirar os adversários de combate.

Depois da confissão de Maradona, ocorrida catorze anos depois da partida, a imprensa argentina voltou a ouvir vários outros personagens presentes ao Delle Alpi. A revista Ventitrés publicou a seguinte entrevista com Bilardo:

- Maradona contou sobre o caso da garrafa com tranquilizante que deram a Branco. Ele revelou uma trapaça que envolve você.

- Mas ele não disse quem foi.

- E quem foi, Bilardo?

- Não sei, não sei... Não digo que não tenha acontecido, hein?

- Você não nega, e era o responsável pelo grupo...

- Sim, mas te digo que não sei.

Celso de Campos Júnior, Giancarlo Lepiani e eu publicamos em 2018 o livro "Copa Loca - As inacreditáveis histórias da Argentina nos Mundiais", cujo trecho reproduzimos acima. A obra de 216 páginas segue à venda no site da editora, a Garoa Livros.