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Fora de Tóquio, medalhista na Rio-2016 quer contestar convocação na Justiça

Maicon Andrade comemora conquista da medalha de bronze no taekwondo das Olimpíadas do Rio - AP Photo/Marcio Jose Sanchez
Maicon Andrade comemora conquista da medalha de bronze no taekwondo das Olimpíadas do Rio Imagem: AP Photo/Marcio Jose Sanchez
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

15/01/2020 11h37

Maior surpresa do Brasil entre os medalhistas dos Jogos Olímpicos do Rio, Maicon Andrade não foi convocado para brigar por uma vaga no Pré-Olímpico continental de taekwondo e, com isso, não terá a chance de tentar voltar ao pódio olímpico. O atleta mineiro, porém, promete não desistir do sonho. Ele já contratou um dos principais advogados especializados em direito esportivo no país, Marcelo Jucá, que estuda uma contestação judicial da convocação anunciada na última segunda-feira (13).

"Fui contratado na qualidade de especialista e abracei a causa pois acredito que sendo os critérios objetivos cumpridos, não poderia o atleta não deixar de ser convocado. É necessário que a confederação esclareça os critérios subjetivos que porventura existam, pois se eles não forem justos e razoáveis, caberá uma medida no STJD para garantir a participação do atleta nas Olimpíadas", disse Jucá ao Olhar Olímpico.

Procurado pela reportagem, Maicon Andrade vem adiando desde segunda-feira fazer qualquer comentário sobre sua ausência na lista de convocados, enquanto Jucá estuda as possibilidades para que a decisão seja revista. O lutador fechou o ranking olímpico, em dezembro, na nona colocação da categoria +80kg, mesma posição de Ícaro Miguel na até 80kg e de Edival Marques (o Netinho) na até 68kg. Os dois últimos, porém, foram os convocados.

O taekwondo tem quatro categorias olímpicas masculinas e quatro femininas, mas o número de vagas é restrito. São apenas 16 atletas por categoria, contra uma média de 24 no judô, por exemplo. A única forma de um país classificar mais de dois atletas do mesmo gênero é se eles ficassem entre os seis primeiros do ranking olímpico de suas respectivas categorias. O Brasil, que ganhou cinco medalhas no Mundial do ano passado, não conseguiu classificar ninguém assim.

A única alternativa agora é tentar vagas pelo Pré-Olímpico das Américas, que vai acontecer em março, na Costa Rica. Mas, neste torneio, cada país pode inscrever atletas para conseguir no máximo duas vagas masculinas e duas femininas - o Canadá que já tem uma vaga feminina, só pode inscrever mais uma mulher, por exemplo.

Assim, coube à comissão técnica da Confederação Brasileira de Taekwondo (CBTkd) escolher os convocados, a partir de critérios publicados previamente. Entre os fatores considerados estão tanto critérios objetivos, como um índice a partir de resultados internacionais, quanto subjetivos, como "aspectos relacionados ao treinamento".

Um dos critérios diz que é avaliado o comportamento do atleta em combate nos quesitos: "obediência tática, round situacional e controle emocional do combate". As notas dadas aos atletas e o peso delas na decisão final não foram divulgados pela confederação. Também foram considerados aspectos disciplinares, como "comportamento dentro e fora de quadra, respeito e tratamento a atletas, comissão técnica e demais pessoas, alimentação desregrada e falta de controle de peso e não se preocupar em tratar possível lesão".

Maicon, que era o melhor brasileiro no ranking mundial até o último evento válido para a lista, tem uma relação tortuosa com a CBTkd. Na Rio-2016, ele não pôde contar com o acompanhamento dos seus técnicos pessoais, Clayton e Reginaldo dos Santos, que o instruíam por Whatsapp. Neste ciclo olímpico, com a mudança no comando da CBTkd, os irmãos de São Caetano do Sul (SP) assumiram o comando da seleção, mas Maicon deixou de treinar na equipe deles, passando a ser orientado por Rafael Valério.

Novamente, de acordo com seus próprios relatos, voltou a ser orientado por Whatsapp. No Mundial de Manchester no ano passado, quando foi medalhista de bronze, ligava para o treinador entre uma luta e outra. Maicon chegou inclusive a tentar uma vaquinha virtual para arrecadar fundos para bancar a ida de seu técnico para competições internacionais.

Em busca da vaga olímpica, o mineiro recusou a convocação para defender o Brasil nos Jogos Mundiais Militares e, com isso, abriu mão de se manter no programa de alto rendimento do Exército. No mesmo período, ganhou a medalha de ouro em um evento importante do Circuito Mundial, o que acabou não sendo suficiente para conseguir a vaga direta.

No feminino a comissão técnica optou por convocar Talisca Reis (até 49kg), prata no Pan de Lima, e Milena Titonelli, ouro no Pan e bronze no Mundial do ano passado na categoria até 67kg. Caroline Gomes, prata no Mundial na categoria até 62 kg, que não é olímpica, foi preterida por Milena, melhor posicionada no ranking.

No masculino foram escolhidos Edival Pontes, o Netinho, campeão do Pan, na categoria até 68kg, e Ícaro Miguel, da até 80kg, que foi prata tanto no Pan quanto no Mundial. Também foi deixado de fora, entre outros, Paulo Ricardo Melo, o Paulinho, que foi bronze no Mundial.

"Foi um processo árduo, com informações e resultados apurados, em virtude da qualidade que o taekwondo brasileiro se encontra. A comissão técnica, formada pelos treinadores e consultor internacional, seguiu os critérios divulgados anteriormente, analisando as performances, possibilidades e cenário internacional de todos os atletas", comentou Natália Falavigna, medalhista olímpica, que agora é coordenadora da seleção.