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Carne de laboratório é o futuro da alimentação? Entenda prós e contras

Pesquisador Mark Post exibe hambúrguer de laboratório resultante de sua pesquisa em um evento em 2013, em Londres - David Parry/Reuters
Pesquisador Mark Post exibe hambúrguer de laboratório resultante de sua pesquisa em um evento em 2013, em Londres Imagem: David Parry/Reuters

Juliana Domingos de Lima

De Ecoa, de São Paulo

09/02/2021 04h00

A notícia de que uma agência reguladora estatal aprovou pela primeira vez a comercialização de carne cultivada, produzida sem a morte de um animal, pode significar o início de uma nova era para a indústria da carne e para a alimentação dos seres humanos.

Em dezembro, a Agência Alimentar de Singapura deu sinal verde para a comercialização dos nuggets de frango "in vitro" produzidos pela empresa americana Eat Just. A autorização sinaliza a possibilidade de que, no futuro, o consumo de proteína animal esteja desvinculado do abate e de uma indústria que é alvo de denúncias de crueldade contra animais e debitária de um enorme impacto ambiental.

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Primeira carne cultivada que pode chegar ao mercado deve ter a forma de nuggets. Carne moída é mais simples de se cultivar
Imagem: Hanxiao/Unsplash

Em uma espécie de "corrida espacial" pelo futuro da alimentação, dezenas de empresas ao redor do mundo vêm trabalhando no desenvolvimento de carne de laboratório (também chamada de in vitro, cultivada, limpa ou sintética) nos últimos anos, mas ainda enfrentam dificuldades consideráveis para tornar o produto viável, atraente e verdadeiramente sustentável.

Abaixo, Ecoa esclarece as principais dúvidas em torno desse novo produto — que ainda deve levar algum tempo para chegar às prateleiras dos supermercados, mas pode ser uma alternativa aos problemas gerados pela produção convencional de carne no planeta.

Por que consumir?

Em 2050, a população global deve chegar à marca de 10 bilhões de pessoas e com isso a demanda por alimentos de origem animal pode aumentar em até 70% (em relação a 2010), de acordo com projeções de um relatório divulgado em 2018 pelo World Resources Institute. Reduzir o consumo de carne é uma das ações apontadas pelo instituto como necessárias para garantir a segurança alimentar, a redução de emissões de GEE (gases de efeito estufa) e o controle da expansão da agropecuária sobre áreas de preservação.

Atualmente, a pecuária é responsável pela emissão de 7,1 gigatoneladas de CO2 equivalente (medida que inclui, além do carbono, a concentração de outros gases de efeito estufa) por ano, o que corresponde a 14,5% de todas as emissões antropogênicas de GEE, segundo a agência da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura.

A criação de gado bovino responde por cerca de 65% das emissões do setor, acima de outras espécies, como porco e frango. Em tese, a carne de laboratório tem potencial para ser uma alternativa mais sustentável.

As razões para repensar a forma como a produção de carne se dá hoje, porém, vão além da questão ambiental. Há o argumento ético, defendido por vegetarianos e veganos, de que animais são sencientes (capazes de sentir dor, sofrimento e prazer) e não devem ser explorados, confinados e abatidos para consumo humano.

A indústria da carne também é responsável por abusos que aprofundam esse impasse ético, sendo frequentemente denunciada ao redor do mundo por crueldade animal e por abusos cometidos contra seus trabalhadores. No Brasil, um relatório divulgado em janeiro pela ONG Repórter Brasil mostrou a conexão entre fazendas de pecuária flagradas utilizando trabalho escravo e os maiores frigoríficos do país.

Como é feita?

O processo de produção da carne artificial ainda está sendo aprimorado pelas startups envolvidas no desenvolvimento do produto. Em linhas gerais, se baseia na multiplicação em laboratório de células retiradas de animais.

A primeira etapa é a extração de células animais através de uma biópsia. São coletadas células-tronco musculares — aquelas que fazem crescer tecido novo quando um músculo é lesionado. Em seguida, as células são colocadas em um meio de cultura com fatores de crescimento e nutrientes e começam a se multiplicar. O crescimento é então acelerado em reatores biológicos, até que as células se aglutinam para dar origem a pequenos filamentos que se juntam para formar o tecido muscular.

Há uma série de desafios enfrentados pelos cientistas na sintetização da carne cultivada, segundo explicou a Ecoa Marco Antonio Trindade, professor da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da USP, no campus de Pirassununga.

Um exemplo das dificuldades que se apresentam no laboratório é a necessidade de se criar um meio de cultura para alimentar as células que se multiplicam sem se utilizar do soro fetal bovino, insumo geralmente empregado na proliferação de células animais em outras indústrias e que iria contra o propósito da empreitada nesse caso. Também é preciso um ambiente totalmente estéril para prescindir do uso de antibióticos, outra condição bastante difícil de se conseguir.

"É um processo muito caro, que demanda muita estrutura física de laboratório e muitos insumos", afirma Trindade.

Existe algum entrave ético?

Objeções de setores da sociedade ao uso de células-tronco em pesquisas normalmente se referem à utilização de células-tronco embrionárias, obtidas de embriões humanos produzidos por fertilização in vitro. Até o momento, a retirada de células-tronco animais adultas, desde que sem prejuízo de saúde para os espécimes participantes, não têm levantado questões relevantes no campo da bioética.

Ainda assim, a realização da biópsia em animais como ponto de partida da produção pode ser um ponto sensível. A questão é alvo de debate na comunidade vegana, na qual muitos argumentam que o produto segue sendo baseado na exploração animal. Algumas empresas do ramo já investem em um processo que deve poder prescindir da biópsia para coletar células-tronco animais, cultivando carne de frango a partir de células presentes nas penas dos animais.

É realmente uma alternativa sustentável?

Ainda não há análises que atestem de maneira categórica o impacto ambiental desses produtos. Se por um lado a produção da carne cultivada pode vir a ser mais ecológica no que diz respeito às emissões, outros impactos precisam ser levados em conta, como o consumo de energia e recursos e a possibilidade de que o processo crie subprodutos químicos prejudiciais ao meio ambiente.

No caso concreto dos nuggets de frango produzidos pela Eat Just, o professor Marco Antonio Trindade afirma que o produto com certeza não pode ser considerado uma alternativa sustentável em relação à produção comum, uma vez que a produção de frango já tem um impacto ambiental menor em comparação com a carne vermelha.

É economicamente viável?

No caso dos nuggets da Eat Just, a empresa anunciou inicialmente um custo de US$ 50 por unidade. Desde então, os produtores vêm buscando torná-lo mais barato, tendo declarado recentemente que o preço de seus nuggets será comparável ao de um "frango premium" quando chegarem ao mercado em Singapura.

Considerando o alto custo de produção e o preço muito superior, ainda não é possível considerar a carne de laboratório economicamente viável. Conforme as pesquisas avancem e a produção ganhe escala, a tendência é que o custo diminua.

Ainda assim, o professor da USP Marco Antonio Trindade aposta que o produto seguirá sendo caro e de nicho por um longo período.

Para ele, o produto não deve substituir a carne comum no curto e médio prazo e provavelmente não atingirá um público tão grande quanto o que já consome carnes à base de plantas — só terá um impacto sobre a indústria tradicional quando o preço se aproximar ao da carne comum.

Mas há previsões que indicam que isso não deve demorar tanto a acontecer. Um relatório divulgado pela consultoria americana AT Kearney em 2019 estimou que apenas 40% da carne consumida em 2040 será do tipo convencional, sendo o restante composto por carne cultivada (35%) e por substitutos veganos à base de vegetais (25%).

Pode trazer efeitos adversos para a saúde?

Caso os produtores de fato consigam fazer proliferar as células sem a utilização de antibióticos (usados para combater micro-organismos que podem contaminar o meio de cultura), a carne cultivada pode ser tão ou mais saudável do que um produto de origem animal normal.

Para que o produto seja comercializado, porém, os fabricantes precisarão discriminar as substâncias que foram utilizadas no processo, comprovando a segurança e a qualidade nutricional do produto. Alguns pesquisadores veem com desconfiança a afirmação das empresas de que a produção da carne de laboratório não requer o uso de antibióticos.

É igual à carne "normal"?

Emular o sabor e principalmente a textura real da carne é um dos grandes desafios a serem resolvidos na produção de carne cultivada.

Em 2013, especialistas que participaram de um teste do primeiro hambúrguer de laboratório — produzido a partir das pesquisas do holandês Mark Post na Universidade de Maastricht — o definiram como seco e um tanto sem sabor.

Para ter sucesso na empreitada, é necessário multiplicar não só células musculares do animal — o que já não é simples — mas também outras estruturas, como gordura e colágeno, a fim de recriar a complexidade de sabor e textura da carne. Para obter uma cópia totalmente fiel de um bife, por exemplo, seria preciso ainda que as células proliferassem em três dimensões, algo muito difícil de se fazer: em geral, multiplicam-se as células em camadas, misturando-as depois.

"Por isso, fazer a carne cultivada moída, em nugget ou hambúrguer, é um primeiro passo mais viável do que tentar fazer um corte de carne. É muito mais difícil produzir cortes específicos", diz o professor da USP Marco Antonio Trindade. "Por enquanto, não acredito que vai ser possível fazer uma picanha cultivada."

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