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Rico Vasconcelos

Como anda a epidemia de sífilis no Brasil?

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Imagem: Getty Images
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Rico Vasconcelos

Médico clínico geral e infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, trabalha desde 2007 atendendo pessoas que vivem com HIV e com pesquisas clínicas no campo da prevenção do HIV e outras ISTs. Participou como pesquisador de importantes estudos de PrEP, como o iPrEX e do Projeto PrEP Brasil, e na implementação da PrEP no SUS (Sistema Único da Saúde). É coordenador clínico de estudos de PrEP de longa duração e de vacina preventiva contra o HIV no Centro de Pesquisas Clínicas do HC-FMUSP. Concluiu seu doutorado sobre PrEP e ISTs na FMUSP e atua difundindo e democratizando o conhecimento científico atualizado sobre a temática da prevenção e tratamento do HIV e outras ISTs. Desenvolve atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável. CRM/SP 116.119, RQE Clínica Médica 88317 e RQE Infectologia 88318

Colunista do UOL

11/12/2020 04h00

No meu trabalho como médico infectologista, passo boa parte do tempo respondendo a perguntas. As que aparecem são em geral coerentes, feitas por pessoas que estão de fato preocupadas com o controle das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Mas dentre os vários questionamentos, o que recebo com a maior frequência é indiscutivelmente "Você sabia que não existe apenas o HIV no mundo? E as outras ISTs?".

Sabendo que a origem das dúvidas costuma ser a falta de informação, resolvi escrever um pouco sobre como estamos no Brasil em relação às "outras ISTs".

Antes de mais nada, vamos delimitar quem são elas. As ISTs mais frequentes na população mundial causadas por bactérias são a clamídia, a gonorreia e a sífilis. Mas, no Brasil, a única IST de notificação obrigatória ao Ministério da Saúde, além do HIV/Aids, é a sífilis.

Foi só a partir de 2010 que os casos de sífilis transmitidos por via sexual entre adultos entraram na Lista de Notificação Compulsória. Antes disso, apenas os casos de sífilis em gestantes e os de sífilis congênita (transmissão da gestante para o seu bebê), eram contabilizados.

O motivo disso é que a sífilis congênita é a situação com os maiores prejuízos ao indivíduo infectado, podendo deixar sequelas na criança e até mesmo provocar o aborto. Uma vez que a sífilis congênita pode ser evitada com diagnóstico e tratamento das gestantes, seu controle é uma das maiores prioridades na saúde pública.

Por outro lado, na enorme maioria das vezes em que um adulto saudável se infecta com a sífilis, basta que seja feito o diagnóstico e tratamento adequados para se chegar à cura, sem qualquer problema maior de saúde.

No Brasil, portanto, só passamos a acompanhar e compreender a dinâmica da sífilis de forma mais detalhada nos últimos 10 anos. E o que vimos acontecer nesse período foi impressionante.

Segundo o último Boletim Epidemiológico de Sífilis do Ministério da Saúde, somente entre 2010 e 2018 houve no Brasil um aumento de mais de 36 vezes no número de novos casos da doença registrados anualmente. Da mesma forma que com o HIV, o aumento nos casos de sífilis ocorreu de forma mais intensa entre os jovens de 20 a 29 anos, no início da vida sexual.

O boletim também mostra que, entre 2018 e 2019, houve uma mudança no padrão de crescimento dos casos de sífilis no país, com inversão da curva de incidência e uma surpreendente redução de 4,5% no número registrado de novos casos da doença.

Antes que alguém se anime para dizer que enfim estamos vencendo a epidemia de sífilis, o próprio ministério informa no boletim que a redução pode estar relacionada a problemas na transferência dos dados de notificação das esferas municipais para a federal, causados, entre outras coisas, pela pandemia de covid-19.

De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), a situação epidemiológica da sífilis no Brasil é semelhante a de outros países. Entre aqueles que já registravam os casos da doença desde antes de 2010, vemos que depois de um longo período de queda progressiva da incidência da sífilis, a partir do final da década de 1990 os casos voltaram a aumentar.

Diferente do que muitos acreditam, o uso da PrEP não é a causa desse fenômeno. Especialistas apontam como uma das possíveis origens o desenvolvimento do tratamento do HIV, com a redução tanto das mortes em decorrência da Aids como do medo da infecção existente nas práticas sexuais.

Da mesma forma, os dados sobre gonorreia e clamídia dos outros países mostram crescimento semelhante dos casos a partir do início desse século, muito antes da chegada da PrEP. Não é preciso ser um especialista em epidemiologia para concluir que as estratégias utilizadas nas últimas décadas para controle das ISTs bacterianas tiveram um impacto limitado. Parte desse fracasso ocorreu por ter sido empregada de forma isolada a recomendação do uso da camisinha, o que não foi nem nunca será adotada por toda a população.

A prevenção do HIV nos ensinou que só conseguimos virar o jogo e reduzir os novos casos da infecção quando diversificamos as estratégias de prevenção, usando o aconselhamento sexual sem julgamento, ampliação da testagem e tratamento dos casos, e uma prevenção medicamentosa associada à recomendação do uso do preservativo.

Sempre que me perguntam então "Você sabia que não existe apenas o HIV no mundo? E as outras ISTs?", a melhor resposta que posso dar, embasada no conhecimento científico atual, é "Contra elas, estamos com um discurso obsoleto. Precisaremos pegar uma carona com o HIV e modernizar essa prevenção se quisermos ter algum sucesso".