PUBLICIDADE

Topo

Rico Vasconcelos

PrEP injetável de longa duração também é eficaz entre mulheres cisgênero

iStock
Imagem: iStock
Rico Vasconcelos

Médico infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É coordenador do SEAP HIV, ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Colunista do UOL

13/11/2020 04h00

Se 2020 para alguns será lembrado pelo caos na saúde mundial, no campo da pesquisa científica sobre HIV/Aids ele está sendo um ano cheio de boas novidades. Tivemos uma série de trabalhos bem-sucedidos divulgando seus resultados, trazendo para todos esperança no controle dessa epidemia.

Agora no início de novembro, foi a vez do estudo HPTN 084. Seus resultados mostraram que a PrEP Injetável de Longa Duração, quando utilizada por mulheres cisgênero heterossexuais, também é eficaz e segura na prevenção contra a infecção por HIV.

Em maio de 2020, o estudo HPTN 083 já havia comprovado que, entre homens gays e mulheres transexuais, essa forma de PrEP, feita com a injeção intramuscular de um antirretroviral chamado Cabotegravir aplicada a cada 2 meses, não só protegia contra o HIV, mas era ainda mais eficaz do que a PrEP na forma de comprimidos tomados diariamente.

Os dois estudos tiveram seu desenho semelhante, mudando apenas a população estudada. Recrutaram pessoas sob risco de infecção por HIV para receberem injeções bimensalmente e para tomarem comprimidos todos os dias. Metade deles receberam injeções verdadeiras de PrEP e comprimidos de placebo, enquanto os demais receberam injeções de placebo e comprimidos de PrEP. Ninguém sabia o que estava recebendo, nem os pesquisadores e nem os participantes. E ninguém recebeu injeções e comprimidos de placebo ao mesmo tempo.

Os participantes foram então acompanhados periodicamente para acompanhar os possíveis eventos adversos e para receberem testagem para HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), preservativos e lubrificante.

A partir de novembro de 2017, o HPTN 084 começou a recrutar suas participantes em Botsuana, Suazilândia, Quênia, Maláui, Uganda, Zimbábue e África do Sul, países da África Subsaariana em que as mulheres cis, jovens e heterossexuais são uma das principais populações-chave vulneráveis ao HIV. Para o estudo, foram incluídas 3.223 mulheres com média de idade de 26 anos.

Durante o seguimento das participantes foram identificados 38 casos incidentes de infecção por HIV. Quatro deles no grupo que recebeu as injeções verdadeiras de Cabotegravir e 34 entre as pessoas que tomaram comprimidos verdadeiros de PrEP.

É importante que fique claro que, considerando a vulnerabilidade do grupo em questão e o tempo de acompanhamento, era esperado um número muito maior que 38 infecções. Assim, podemos concluir que as duas formas de PrEP se mostraram bastante eficazes na prevenção do HIV. No entanto, da mesma forma que no HPTN 083, a PrEP Injetável foi superior à PrEP com comprimidos diários.

Os achados são um marco na história do enfrentamento do HIV, sobretudo na prevenção de mulheres cisgênero. Nos estudos anteriores, a PrEP em comprimidos diários teve um desempenho de prevenção pior nesse grupo. Por questões fisiológicas de absorção e distribuição corpórea do medicamento usado nos comprimidos, as mulheres cis em PrEP precisam ter uma adesão próxima de 100% das doses para alcançarem a proteção máxima contra o HIV. Além disso, após o início da PrEP, levam mais tempo para estarem de fato protegidas.

A existência de uma forma de prevenção que não dependa desse comprometimento diário de adesão abre inúmeras possibilidades para as mulheres que por algum motivo não podem ou conseguem usar a camisinha ou os comprimidos de forma adequada.

Com esse avanço, vemos que cada vez mais a ciência da prevenção do HIV segue os passos da anticoncepção, área da medicina que já percebeu há bastante tempo que a melhor alternativa para um indivíduo é aquela que ele consegue usar de forma correta e constante.

Parabéns a todas as mulheres cis do mundo pela conquista.