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Sintomas e tratamentos das principais DSTs


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Campanhas contra HIV ainda não atingem idosos e jovens gays, dizem médicos

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Imagem: iStock

Janaina Garcia

Colaboração para VivaBem

24/09/2020 04h00

"Ouço muito pouco falar sobre Aids ou HIV; a sociedade sabe que isso existe, mas tudo isso fica muito velado: eu, mesmo, só conheci duas pessoas que têm o HIV na minha vida inteira. E só contei a outras duas que eu também tenho o vírus", afirma o economista Pedro*, 24, a VivaBem. Ele se corrige à repórter, na sequência: "Na verdade, você é a terceira pessoa para quem eu conto isso."

Pedro descobriu que estava com o HIV em 2016, depois de duas relações sexuais em que não usou camisinha. Ele não sabe, até hoje, qual dos dois parceiros estava contaminado. Desde março de 2017, no entanto, Pedro está indetectável, ou seja, com uma carga viral que permite a ele não transmitir o vírus sexualmente.

O economista faz parte de um grupo em que, a despeito de um alto número de casos registrados no Brasil nos últimos anos, não tem havido campanhas de prevenção com foco mais específico, afirmam especialistas que lidam no combate ao HIV/aids no país.

"Sou um gay branco, classe média, e ninguém fala sobre isso na minha roda de amigos, que tem pessoas muito bem informadas ou com possibilidade de acesso à informação", afirma o jovem. "Acredito que há ainda um estigma muito grande de que essa é uma doença que necessariamente leva à morte; penso que deveria haver campanhas para criar e ampliar esse debate porque, sendo muito honesto, não consigo me lembrar de ter visto uma campanha do governo, seja em 1º de dezembro [Dia Internacional de Luta contra a Aids] ou no Carnaval, voltada a tantos outros como eu", define.

Crescimento de casos de Aids atinge jovens e idosos

De acordo com o boletim epidemiológico de dezembro de 2019 elaborado pelo Ministério da Saúde, o Brasil registrou 966.058 casos de Aids detectados no país entre 2007 e junho de 2019. A maior concentração dos casos da doença foi observada em indivíduos com idade entre 25 e 39 anos, majoritariamente (52,4%) no sexo masculino. Os dados, registrados no Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação), também foram notificados entre 2007 e junho de 2019.

Embora relacionados, HIV e Aids não são sinônimos: não há cura para o vírus, mas o tratamento pode evitar que o paciente chegue ao estágio mais avançado de presença do vírus no organismo e desenvolva, com isso, a síndrome da imunodeficiência adquirida —ou Aids.

Entre os homens, no entanto, a pasta observou nos últimos 10 anos um incremento na taxa de detecção nas faixas de 15 a 19 anos, 20 a 24, 25 a 29 e 60 anos ou mais. Só as faixas de 15 a 19 e de 20 a 24, por exemplo, tiveram aumento de, respectivamente, 62,2% e 94,6% entre 2008 e 2018.

Campanhas não focam jovens homossexuais e bissexuais

Outra constatação do boletim foi que, novamente entre os homens, no mesmo período, verificou-se que 51,3% dos casos em indivíduos maiores de 13 anos de idade foram decorrentes de exposição homossexual ou bissexual, e 31,4%, heterossexual. Entre as mulheres, na mesma faixa etária, 86,5% dos casos dizem respeito à exposição heterossexual ao vírus.

Para Rico Vasconcelos, pesquisador, infectologista e colunista de VivaBem, nem a população heterossexual mais velha, nem a de jovens gays e bissexuais, faixas em que o número de detecções aumenta, tem sido contempladas nas campanhas mais recentes de prevenção do governo federal.

"Existe um aumento de casos entre a população masculina heterossexual mais velha, com mais de 55 anos, mas em uma velocidade pequena. Onde a epidemia de HIV mais acelera, entre jovens gays e bissexuais, é que se vê ainda um completo vácuo das campanhas de prevenção: não há uma campanha direcionada a essas pessoas, mas, sim, para jovens héteros", apontou.

Em 2018, no final do governo de Michel Temer (MDB), Vasconcelos participou de um grupo de trabalho no Ministério da Saúde no qual jovens gays criticaram campanhas de prevenção à Aids e ao HIV que não dialogavam com eles.

"Uma das campanhas de prevenção do atual governo, no período de Carnaval, foi uma coisa assustadora, desonesta, porque vendeu a ideia de que, se o sujeito usar camisinha na penetração, pode esquecer das ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis), um grande equívoco. Esse discurso de simplificação sobre o uso da camisinha, aliado a um discurso de medo na cabeça do jovem e, no caso, do jovem hétero, é uma catástrofe", criticou.

Campanha de prevenção de HIV do governo - Divulgação - Divulgação
Campanha de prevenção de HIV do governo federal
Imagem: Divulgação

Peças publicitárias deveriam dialogar também com idosos infectados

Embora grande parte das campanhas de conscientização sobre HIV esteja focada nos jovens, mesmo que nem sempre de acordo com a orientação sexual dos mais abrangidos pelo vírus, o crescimento também entre soropositivos com mais de 60 anos no país preocupa os especialistas.

No boletim de 2018, por exemplo, o Ministério da Saúde divulgou que o número de pacientes diagnosticados com HIV com mais de 60 anos havia avançado de 168 casos em 2007 para 627 em 2018.

"O que se observa é um aumento da atividade sexual, à medida que algumas coisas vêm mudando, como a percepção sobre o próprio idoso: ter 60 anos hoje é dotado de uma perspectiva muito diferente da de duas ou três décadas atrás, seja em termos de atividade profissional ou sexual. E com o aumento da atividade sexual, há também um risco maior, mas muitas vezes esse público não teve a cultura de uso do preservativo como o jovem de 25 anos teve", define a médica Miralba Freire, há mais de cinco anos diretora do Centro de Referência para Tratamento de HIV/Aids de Salvador.

Para a infectologista, "diante da magnitude da doença no jovem", os casos relacionados aos idosos acabam chamando menos atenção, inclusive das campanhas governamentais.

"Seriam necessárias campanhas específicas que visassem hábitos de cada idade, cada grupo, porque tem que se encontrar linguagens mais adequadas. A juventude já foi educada a iniciar atividade sexual com preservativo, é diferente do idoso", diz.

Em meio à incerteza sobre a realização do Carnaval, período mais intenso de contágio para o HIV —a festa foi adiada em diversas capitais brasileiras, como São Paulo e Salvador—, a infectologista se disse preocupada sobre como isso afetará a prevenção. "O Carnaval é a época de exposição maior, daí a importância de termos várias campanhas. Agora estamos em uma fase de plena incerteza."

Em São Paulo, onde atua, o infectologista Rico Vasconcelos reforça o temor da colega e complementa: "Meu receio é que, pelo fato de estarmos nisso de pandemia, quarentena e isolamento, haja, por parte do governo, a descontinuidade dos serviços de prevenção, coisa que já verificamos com os testes rápidos de HIV que pararam nesse período. Ou seja: mesmo sem o 1º de Dezembro ou o Carnaval, essa descontinuidade já está acontecendo. Estou esperando para ver como será a campanha de prevenção de 1º de dezembro", concluiu.

"Tenho esperança de um dia falar mais abertamente sobre isso"

O economista Pedro toma o coquetel antirretroviral desde que foi diagnosticado com o HIV. A descoberta ocorreu em 1º de dezembro de 2016 "coincidentemente", ele salienta, já que não foi motivado por nenhuma campanha institucional de combate ao HIV/Aids.

"Eu tive uma gripe muito, muito forte, e, isolando as possibilidades, pensei nas relações que eu havia tido e aquilo foi me dando um pânico imenso, eu estava muito, muito apreensivo. Cheguei a ser diagnosticado no hospital com dengue, embora não tivesse feito nenhum teste para detectar dengue", recorda-se.

O jovem considera que foi muito difícil lidar com o diagnóstico especialmente por não conhecer ninguém em situação semelhante à dele.

"Para mim, e no meio onde eu vivo, esse ainda é um assunto muito tabu, tanto que eu não contei nem para a minha mãe. Tenho esperança de que um dia eu possa falar mais abertamente sobre isso, mas só consigo associar essa possibilidade a uma eventual cura. Ter podido contar ao meu namorado que eu tenho HIV, mesmo sendo indetectável, foi um alívio, um peso que eu tirei dos ombros —porque cansa a gente ver as pessoas repetindo 'verdades' que já não são mais 'verdades' há mais de 15, 20 anos. O trabalho de desconstrução a ser feito ainda é muito grande", pontuou.

Ele descobriu o HIV no isolamento da quarentena

Quem também vê o assunto ainda ser tratado como um tabu é o engenheiro Carlos*, 52, de São Paulo. Ele conta que descobriu em março deste ano, no começo da pandemia de covid-19 no Brasil e durante um exame de rotina, estar infectado pelo HIV, mesmo que, desde então em tratamento, permaneça com carga viral indetectável. Heterossexual e casado, ele passava a quarentena longe da esposa e dos filhos adolescentes, temporariamente, em cidades diferentes.

"Eu estava sozinho, isolado, foi um impacto muito grande quando descobri. Especialmente porque sempre escutei tanto sobre Aids em uma perspectiva de ser a mesma coisa que o HIV", diz.

O primeiro a saber foi o geriatra do engenheiro, que o tranquilizou sobre as diferenças entre o vírus e a síndrome. Três meses depois, em junho, criou coragem para contar à mulher e tirou "um caminhão de terra das costas", tamanho o alívio.

"Sempre fui um cara bastante cuidadoso; quando eu soube que estava infectado, pensei que tinha que começar a programar meu tempo de vida, já que associava HIV e Aids à mesma coisa: uma sentença de morte. Contei à minha mulher, ela me acolheu muito, em um primeiro momento, e depois, super ansiosa, fez o exame dela também. Meu maior medo era que ela também testasse positivo, mas foi um grande alívio ver que não", diz. E ressalva: "Mas isso deixou uma marca no nosso casamento, sem dúvida. Não foi mais a mesma coisa."

Carlos admitiu ter feito exames para detecção de HIV anos atrás, quando teve um relacionamento extraconjugal. Desta vez, prefere dizer que não sabe como se infectou, mesmo que reconheça: "Nunca fui exatamente um santinho, mas sempre busquei usar preservativo, mesmo após o casamento, pela preservação da minha esposa", afirma.

Indagado se as campanhas de combate ao HIV/Aids no Brasil dialogam com públicos como ele, o engenheiro é taxativo: "Não. Precisa haver uma conscientização diferente que explique que Aids só acontece se o infectado com o HIV deixar. Entrar em desespero não adianta", observa.

Ele narra que decidiu fazer o teste de detecção depois de assistir a um comercial na TV: na peça, os cuidados contra o HIV eram associados à cena de uma pessoa andando sobre um slackline de olhos vendados. "Aquilo me deu um frio na barriga e, agora, consigo ver o quanto ainda é tabu falar sobre isso em diferentes faixas etárias", acredita.

Só a mulher e dois médicos que atendem o engenheiro sabem que ele é HIV positivo. Os dois filhos não sabem. E, se depender só dele, nunca saberão. "Converso com eles sobre o assunto, mas sem me colocar como paciente, porque sei que há muito preconceito ainda contra o soropositivo e não quero que meus filhos passem por isso. Por hoje, conseguir fazer um tratamento de graça pelo sistema público de saúde e levar uma vida normal já me bastam."

*Os nomes foram trocados a pedido dos entrevistados.

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