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Conheça mitos e preconceitos que dificultam a prática de atenção plena

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Marcelo Dermazo

Marcelo Demarzo é médico especialista em mindfulness (atenção plena), professor e pesquisador na área de medicina, saúde e bem-estar. Ministra cursos e palestras sobre estilo de vida mindful, bem-estar e saúde --expertise desenvolvida em 15 anos como professor e pesquisador em vários hospitais e universidades brasileiras (UNIFESP, USP, Hospital Israelita Albert Einstein) e internacionais (Universidade de Oxford, Universidade de Zaragoza, Harvard University). É autor de livros e estudos científicos relacionados ao tema de mindfulness e qualidade de vida e realiza dezenas de atendimentos individuais e em grupo para disseminar o conceito de mindful living (viver pleno e consciente). É coordenador da Especialização em Mindfulness da UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo).

Colunista do UOL

26/06/2020 04h00

Como muitas vezes associamos a prática da atenção plena (mindfulness) com "meditação" ou tradições contemplativas orientais (como o Budismo), é comum que surjam uma série de mitos e preconceitos (ideias pré-concebidas) sobre o tema, os quais podem se tornar barreiras para quem quer começar a dar os primeiros passos em mindfulness.

Podemos classificar essas ideias pré-concebidas como "mitos negativos" (que desqualificam), e "mitos positivos" (ideias e expectativas irrealistas). Vamos conhecer os principais:

Mitos negativos

Mindfulness é apenas para budistas ou hinduístas
As pesquisas nos mostram que a atenção plena é uma qualidade inata da mente humana (infelizmente pouco treinada e cultivada). Ou seja, é acessível a qualquer um, independente de etnia, religião ou cultura. Qualquer pessoa pode praticar mindfulness e obter os benefícios associados à técnica, desde que pratique com regularidade.

Mindfulness exige uma postura especial
Mindfulness não requer qualquer tipo de postura especial, "oriental", "tradicional", ou de difícil execução (por exemplo, não é necessário nada parecido com a "postura de lótus").

Embora essas posturas clássicas de meditação possam ser utilizadas, podemos perfeitamente praticar mindfulness sentados em uma cadeira, ou mesmo deitados ou em pé.

De fato, mindfulness pode ser praticado mesmo por pessoas com algum tipo de incapacidade, com restrição de mobilidade, deitadas no chão ou sobre um colchonete. A imobilidade absoluta, fortemente recomendada em algumas tradições meditativas, não se aplica à prática de mindfulness.

Mindfulness é difícil de aprender e não é uma técnica científica
Estudos demonstram que um programa de treinamento padrão de apenas 8 sessões de mindfulness (uma vez por semana, num total de aproximadamente dois meses de duração) permite uma sólida base de aprendizagem, facilitando a continuidade da prática por toda a vida.
Aliado a uma prática pessoal diária média de 15-20 minutos, esses programas produzem mudanças importantes e significativas na saúde e no bem-estar das pessoas.

Os benefícios não ocorrem apenas em nível psicológico e clínico; a partir de evidências neurocientíficas (exames de neuroimagem, por exemplo), sabemos que há adaptações cerebrais positivas associadas à prática regular de mindfulness, como o fato do cérebro melhorar sua estrutura e funcionamento, mesmo em idades mais avançadas.

Mindfulness é uma prática egoísta e nos afasta da vida
Sentar-se para praticar a atenção plena pode parecer uma prática egoísta aos olhos externos. Entretanto, sabemos que praticar mindfulness nos ajuda a entender em profundidade nossos padrões mentais e emocionais, incluindo como eles interferem em nossas relações.

Assim, os estudos mostram que a prática regular de mindfulness aumenta nossa capacidade de ter empatia com outros seres humanos. Assim, de um modo natural, as pessoas que praticam mindfulness desenvolvem um compromisso social progressivo e natural, lidando melhor com as relações interpessoais no dia-a-dia.

Mitos positivos

Mindfulness é a "cura de todos os males" (panaceia)
Uma ideia comum, porem errônea, entre as pessoas que buscam mindfulness é pensar que essas práticas são eficazes "para tudo e qualquer coisa", por exemplo, para "todas as doenças". Ou, ainda no campo da saúde, que podem "substituir todos os outros tratamentos" (tanto psicológicos como farmacológicos).

Como sabemos, mindfulness não se aplica a tudo, já que suas indicações são precisas e baseadas em evidência científica, em especial para aspectos relacionados à saúde mental. E que também idealmente o treinamento deve ser conduzido profissionais certificados e qualificados para que seja efetivo e seguro.

Mindfulness é "relaxar"' ou deixar a "mente em branco" ou "suprimir as emoções"
Como também já conhecemos, a mente sempre produzirá pensamentos e emoções. Assim, o principal objetivo de mindfulness na verdade é nos fazer mais conscientes do processo de produção de pensamento e emoções, o que nos permite lidar melhor com eles de maneira mais efetiva, porém sem deixar de pensar ou de sentir.

Esses são os principais mitos relacionados a mindfulness que temos hoje em dia, e é importante tê-los em mente para que não caiamos nessas falsas expectativas ou armadilhas que dificultem a introdução de mindfulness em nosso dia a dia.

Vamos praticar? Nesse link você encontrará uma playlist completa, na forma de curso introdutório de mindfulness, com outras práticas simples e acessíveis a qualquer pessoa que queira dar os primeiros passos em mindfulness.

Mande sua pergunta: Se você tem alguma dúvida ou curiosidade sobre mindfulness, atenção plena, ou neurociência do comportamento, por favor me escreva que terei prazer em abordar seu tema em textos futuros: demarzo@unifesp.br

Referência: Demarzo & Garcia-Campayo. Manual Prático de Mindfulness: curiosidade e aceitação. Editora Palas Athena, 2015.

Para Saber Mais:

  • www.mindfulnessbrasil.com (Mente Aberta - Centro Brasileiro de Mindfulness e Promoção da Saúde - UNIFESP)
  • www.webmindfulness.com (WebMindfulness - Grupo de Pesquisa Coordenado pelo Prof. Javier García-Campayo - Universidad de Zaragoza, informações em espanhol)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL