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Como lidar com o estresse nas relações interpessoais com mindfulness

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Marcelo Dermazo

Marcelo Demarzo é médico especialista em mindfulness (atenção plena), professor e pesquisador na área de medicina, saúde e bem-estar. Ministra cursos e palestras sobre estilo de vida mindful, bem-estar e saúde --expertise desenvolvida em 15 anos como professor e pesquisador em vários hospitais e universidades brasileiras (UNIFESP, USP, Hospital Israelita Albert Einstein) e internacionais (Universidade de Oxford, Universidade de Zaragoza, Harvard University). É autor de livros e estudos científicos relacionados ao tema de mindfulness e qualidade de vida e realiza dezenas de atendimentos individuais e em grupo para disseminar o conceito de mindful living (viver pleno e consciente). É coordenador da Especialização em Mindfulness da UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo).

Colunista do UOL

03/07/2020 04h00

Uma fonte bastante comum de estresse e preocupação no dia a dia são as relações interpessoais, tanto familiares quanto de trabalho. Aumentar nossa capacidade de lidar conscientemente com essas situações pode aumentar nossas opções de resposta, reduzindo a intensidade dos conflitos.

A eficácia nas relações interpessoais é um dos benefícios da prática regular da atenção plena (mindfulness), gerando uma maior tolerância aos sentimentos desconfortáveis e um melhor controle das emoções, em especial as negativas como a raiva.

Uma melhor capacidade de atenção e consciência nessas situações de conflito é a base para uma melhor eficácia interpessoal. Ela nos permite fazer pequenas "pausas" internas (por exemplo, alguns segundos notando a respiração), que nos dão a possibilidade de não nos contaminarmos com o conteúdo emocionalmente carregado da experiência, prevenindo comportamentos impulsivos ou agressivos que apenas pioram a situação.

Essas pausas de atenção plena nos colocam em contato com nossos pensamentos e emoções de forma mais consciente e construtiva, abrindo mais opções de negociação frente ao conflito, que pode ser simplesmente não continuar com a discussão, até que os ânimos se amenizem.

Por outro lado, se não nos comunicarmos de maneira adequada nessas situações, com frequência não expressamos o que realmente somos e queremos, e consequentemente os sentimentos de arrependimento são comuns.

Poder aplicar mindfulness nessas conversas difíceis é chave, possibilitando checar o que realmente compreendemos das palavras e das expressões faciais e gestos (comunicação não-verbal); e também perceber o que falamos enquanto falamos, o tom, o conteúdo, e a assertividade de nossas próprias palavras e gestos.

Algumas dicas mindful para melhorar a eficácia nas relações

  • Ouvir com os "ouvidos" (e não com a "boca"), ou seja, sem interromper a outra pessoa; e, se possível, com "gestos" e "expressões corporais" que expressem a presença naquele momento.

Isso envolve deixar de lado o impulso de reagir ou pensar em maneiras de responder enquanto o outro fala, ou seja, envolve também a atitude "mindful" da curiosidade, paciência e "olhar" do principiante.

  • Após ouvir, checar o que você "escutou", ou seja, dê um feedback à pessoa sobre o que compreendeu do que ela falou, e verifique se o que você compreendeu corresponde à mensagem que a pessoa queria transmitir.

Tome um tempinho nesse passo, pois ele é fundamental. Além de demonstrar que você estava atento à conversa, checar o que realmente entendeu permite prevenir "mal-entendidos", que são a base de uma comunicação ruim.

  • Sempre que possível, faça uma breve pausa antes de falar, respirando duas vezes com mais atenção, por exemplo.

Essa pausa permite perceber como estamos naquele momento, ou seja, se há alguma emoção ou sentimento presente que possa atrapalhar aquela comunicação.

Raiva, euforia, ou tristeza são alguns exemplos de estados mentais que podem levar a uma comunicação enviesada e mais conflito, podendo gerar palavras ou gestos pouco efetivos e desnecessários, às vezes agressivos, piorando situações já complicadas.

Em especial, se sabemos que vamos ter uma conversa que classificamos como "difícil", uma prática de 3 passos de mindfulness pode ajudar, antes e depois da conversa.

O tom de voz e a natureza das palavras também podem nos dar dicas sobre as nossas emoções naquele momento, e prevenir tons e palavras agressivas, que podem causar dano ao outro, dificultando ou bloqueando a conversa.

Se for possível e houver tempo, é interessante escrevermos antes o que queremos comunicar, e antes de efetivamente falarmos, podemos reler o conteúdo, o que nos dá uma visão em perspectiva do que vamos dizer e se condiz com o que queremos transmitir.

É importante que possamos reler o que vamos falar em especial quando estamos sob estados emocionais muito intensos, com raiva, por exemplo. Dar um tempo, e voltar ao conteúdo após o estado emocional negativo ou muito positivo passar é sensato. Podemos fazer isso com os e-mails ou mensagens de celular, por exemplo.

Vamos praticar? Nesse link você encontrará uma playlist completa, na forma de curso introdutório de mindfulness, com outras práticas simples e acessíveis a qualquer pessoa que queira dar os primeiros passos em mindfulness.

Mande sua pergunta: Se você tem alguma dúvida ou curiosidade sobre mindfulness, atenção plena, ou neurociência do comportamento, por favor me escreva que terei prazer em abordar seu tema em textos futuros: demarzo@unifesp.br

Referência: Demarzo & Garcia-Campayo. Manual Prático de Mindfulness: curiosidade e aceitação. Editora Palas Athena, 2015.

Para Saber Mais:

  • www.mindfulnessbrasil.com (Mente Aberta - Centro Brasileiro de Mindfulness e Promoção da Saúde - UNIFESP)
  • www.webmindfulness.com (WebMindfulness - Grupo de Pesquisa Coordenado pelo Prof. Javier García-Campayo - Universidad de Zaragoza, informações em espanhol)
  • www.umassmed.edu/cfm (Centro de Meditação "Mindfulness" na Medicina, Universidade de Massachusetts, Estados Unidos, informações em inglês)