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Prática de mindfulness reduz dor muscular crônica em profissionais de saúde

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Marcelo Dermazo

Marcelo Demarzo é médico especialista em mindfulness (atenção plena), professor e pesquisador na área de medicina, saúde e bem-estar. Ministra cursos e palestras sobre estilo de vida mindful, bem-estar e saúde --expertise desenvolvida em 15 anos como professor e pesquisador em vários hospitais e universidades brasileiras (UNIFESP, USP, Hospital Israelita Albert Einstein) e internacionais (Universidade de Oxford, Universidade de Zaragoza, Harvard University). É autor de livros e estudos científicos relacionados ao tema de mindfulness e qualidade de vida e realiza dezenas de atendimentos individuais e em grupo para disseminar o conceito de mindful living (viver pleno e consciente). É coordenador da Especialização em Mindfulness da UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo).

Colunista do UOL

19/06/2020 04h00

Essenciais para o enfrentamento da pandemia do novo coronavírus, muitos profissionais da saúde se queixam frequentemente de dor muscular crônica causada pelo excesso de trabalho, tensão e repetição de movimentos.

Uma pesquisa realizada em parceria da USP (Universidade de São Paulo) com o Centro Mente Aberta da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) mostrou que esse problema pode ser amenizado com intervenções baseadas em mindfulness, usando técnicas simples e científicas de meditação e estratégias de melhora da autopercepção corporal.

O estudo foi realizado com 64 profissionais de saúde (técnicas de enfermagem) do Hospital das Clínicas da USP que apresentavam sintomas de dor crônica de origem osteomuscular, e foram convidadas para um programa de atenção plena conduzido pelos pesquisadores durante três meses, participando de uma sessão de 60 minutos a cada semana.

Ao fim da intervenção, foi possível comprovar a redução da intensidade dos sintomas de dor osteomuscular, dos níveis de ansiedade, depressão, e do que se costuma chamar de "catastrofização" frente à dor.

Observou-se também um aumento significativo nos escores de autocompaixão (menos culpa e autocrítica em relação à dor) e na percepção da qualidade de vida, em especial nas dimensões físicas e psicológicas.

O interessante é que esses efeitos positivos foram registrados no decorrer de oito semanas e se mantiveram iguais até o fim do estudo, ou seja, a melhoria pode ser mantida por pelo menos três meses (tempo que durou o estudo).

O que é a dor crônica?

A dor crônica é aquela que persiste por mais de três meses, em média, ocorrendo mesmo após a lesão inicial ser curada, e tem uma influência grande de fatores psicológicos.

Isso não quer dizer que a dor seja psicológica, mas que pode ser agravada pela maneira como a enfrentamos do ponto de vista subjetivo e psicológico. É nesse aspecto que mindfulness pode ajudar a melhorar a qualidade de vida de pessoas com dor crônica como o estudo mostrou.

Como mindfulness atua na dor crônica

Para entendermos como mindfulness pode ajudar pessoas com dor crônica é fundamental compreendermos os conceitos de "sofrimento primário" e "sofrimento secundário", que são ideias adaptadas da filosofia budista.

O "sofrimento primário" é o "mal-estar original e inicial". No caso da dor crônica, seriam as sensações corporais desagradáveis. O "sofrimento secundário" seria aquele que criamos a partir de pensamentos e ideias disfuncionais sobre o "sofrimento primário", produzidas por nossa mente sem que tomemos muita consciência desse fato (no "piloto automático"). No caso da dor crônica, chamamos esse "sofrimento secundário" de "catastrofização".

Exemplos de "catastrofização" ocorrem quando enfrentamos a dor criando ideias e pensamentos do tipo "O que eu fiz de errado para merecer isso?", "Por que comigo?", "Nunca mais terei uma vida normal". Ou quando negamos a existência da dor (chamamos de "evitação"), e continuamos fazendo coisas em nosso dia a dia que pioram o quadro, como tomar excesso de medicamentos, ou exagerar nos esforços físicos.

A prática regular de mindfulness nos permite uma aproximação mais consciente com os dois tipos de sofrimento (primário e secundário) gerados pela dor crônica, diluindo aos poucos a "evitação", e prevenindo o "sofrimento secundário" e a "catastrofização", melhorando assim a qualidade de vida. Podemos conviver com a dor sem que ela interfira tanto no nosso dia a dia.

Vamos praticar? Nesse link você encontrará uma playlist completa, na forma de curso introdutório de mindfulness, com outras práticas simples e acessíveis a qualquer pessoa que queira dar os primeiros passos em mindfulness.

Mande sua pergunta: Se você tem alguma dúvida ou curiosidade sobre mindfulness, atenção plena, ou neurociência do comportamento, por favor me escreva que terei prazer em abordar seu tema em textos futuros: demarzo@unifesp.br

Referência: Demarzo & Garcia-Campayo. Manual Prático de Mindfulness: curiosidade e aceitação. Editora Palas Athena, 2015.

Para Saber Mais:

  • www.mindfulnessbrasil.com (Mente Aberta - Centro Brasileiro de Mindfulness e Promoção da Saúde - UNIFESP)
  • www.webmindfulness.com (WebMindfulness - Grupo de Pesquisa Coordenado pelo Prof. Javier García-Campayo - Universidad de Zaragoza, informações em espanhol)
  • www.umassmed.edu/cfm (Centro de Meditação "Mindfulness" na Medicina, Universidade de Massachusetts, Estados Unidos, informações em inglês)