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10 Perguntas

Marcela Mc Gowan: "Experiências não-monogâmicas me ensinaram muito"

Marcela está lançando o livro "Senta Que Nem Moça" - Reprodução / Instagram
Marcela está lançando o livro "Senta Que Nem Moça" Imagem: Reprodução / Instagram

Ana Bardella

De Universa

31/07/2021 04h00

Diferentemente de muitos participantes do BBB, Marcela Mc Gowan, que fez parte da 20ª edição do reality, não deixou a profissão de lado. Ginecologista especialista em sexualidade humana e terapia sexual, ela aproveitou a visibilidade que ganhou com o programa para continuar produzindo conteúdo voltado para as mulheres, a fim de que elas saibam mais sobre seus corpos e lidem de forma mais saudável com o prazer.

A junção destes conhecimentos resultou no lançamento do livro "Senta Que Nem Moça", da Editora Nacional, que será lançado no dia 25 de agosto. Universa teve acesso exclusivo a obra, que aborda temas como anatomia feminina, virgindade, pornografia e orgasmo — além de um guia ilustrado com sugestões de tipos de masturbação.

No bate papo a seguir, Marcela comenta sobre os principais assuntos tratados no livro e como eles transpassam sua vida pessoal:

UNIVERSA Por que a escolha do título "Senta Que Nem Moça"?

O livro está em pré-venda e o lançamento será no dia 25 de agosto - Reprodução / Instagram - Reprodução / Instagram
O livro está em pré-venda e o lançamento será no dia 25 de agosto
Imagem: Reprodução / Instagram

MARCELA MC GOWAN Essa é uma frase que a gente escuta desde sempre, na infância e na adolescência. Ela diz muito sobre a mulher não poder ocupar os espaços que tem direito. A ideia é subverter isso, brincando também com o verbo sentar, que a gente costuma usar no vocabulário sexual. O livro tem como objetivo desconstruir a ideia de sexualidade tão negativa a qual estamos acostumados e reconstruí-la de forma positiva.

No texto, você fala sobre "body neutrality" e como esse conceito te ajudou nas fases em que teve dificuldade de aceitar seu corpo. O BBB foi um desses momentos?

Na verdade, eu me aproximei mais desse conceito depois do BBB. Assim que eu coloquei os pés fora da casa, pensei "cara, todo mundo já me viu". Se eu fosse, fora do confinamento, algo diferente do que fui lá, além de estar sendo desonesta com as pessoas que me seguem, iria sofrer muito.

Não quero viver pensando o que vai acontecer se um dia eu for na praia, alguém me fotografar e perceberem que eu não sou o que veem na internet. Foi quase uma terapia para mim não entrar nesse looping de padrão estético, conseguir me manter firme. Por que, quando você sai da casa, aparecem oportunidades para fazer todas as intervenções estéticas possíveis. Além disso, vem uma cobrança do público em relação à imagem.

Por isso, quando descobri que o corpo pode ser neutro, foi muito legal. Até então, eu conhecia o termo "body positive", mas entendo que possa gerar uma frustração, porque não é sempre que conseguimos gostar de nós mesmas, dizer que somos maravilhosas, principalmente porque estamos inseridas em uma sociedade que nos diz o contrário o tempo todo. Entender a neutralidade corporal é o mesmo que não fazer disso uma grande questão, nem amar loucamente, nem odiar. Saber que é uma parte de você, da sua existência. É muito acolhedor.

Logo no início, você diz que "a monogamia não deve ser uma regra". Já vivenciou um relacionamento aberto?

Marcela e a cantora Luiza estão juntas desde janeiro - Reprodução / Instagram - Reprodução / Instagram
Marcela e a cantora Luiza estão juntas desde janeiro
Imagem: Reprodução / Instagram

Já vivi dois relacionamentos não-monogâmicos e foram experiências muito interessantes. Costumo dizer que foram as que mais me ensinaram sobre os limites do outro, algo importante para que eu me desenvolvesse como ser humano. Diferente do que as pessoas pensam, como não existe uma obrigação, tudo deve ficar muito claro, conversado. Aprendi muito sobre diálogo e responsabilidade afetiva, porque não é só pensar que, se a outra pessoa está sabendo, está tudo bem. O outro também tem questões emocionais, que precisam ser levadas em consideração. Não é fácil, mas rende grandes aprendizados.

Quanto à monogamia, não acho um problema, só penso que deve ser uma algo consciente. Hoje, com a Luiza [namorada de Marcela e cantora sertaneja, da dupla com Maurílio] o relacionamento é fechado, mas sabemos que não foi algo imposto, foi uma escolha. Temos os nossos acordos e respeitamos eles.

No livro, você critica o amor romântico. Essa idealização do amor já atrapalhou seu relacionamento?
Quando falamos de amor romântico, não estamos falando sobre romantismo, mas sobre como fomos criados para olhar para a pessoa com a qual estamos nos envolvendo como algo mágico, que veio para suprir as nossas necessidades. É preciso entender que ninguém é perfeito, nem vai suprir tudo o que você precisa.

Eu e a Luiza temos muitas conversas sobre expectativas, por exemplo. Não é aquela coisa do tipo: "Eu te amo e nem sei por quê". Pelo contrário, o amor é uma construção e eu sei exatamente porque estamos juntas.

Temos respeito, sonhos em comum. É claro que vamos usar nossas redes para fazer declarações e não DRs [risos]. Mas, o importante é que está claro os motivos pelos quais decidimos embarcar na relação.

Em um determinado trecho do livro, você cita que se sentiu culpada ao ter a primeira relação sexual, mesmo estando apaixonada. O que te levou a isso?
Isso é algo que todas nós temos, a culpa de sentir prazer. Naquela época, fazia parte da minha vida toda uma moral de que, a partir dali, eu não era mais valiosa. É algo que se guarda para dar a alguém -- e você perde o valor quando passa isso para frente. Isso é ensinado pela família, pela religião e pela sociedade. Existe a ideia inconsciente de que é errado. Então, mesmo sendo uma coisa que eu queria e estando apaixonada, terminei e me senti vazia. Pareceu que algo foi tomado de mim, mas era puro inconsciente. Mais para frente refleti sobre isso, sobre como guardamos esses sentimentos e não desfrutamos da forma como poderíamos, pelo sentimento de ser menos valiosa, de ser uma pecadora.

O Brasil é um país recordista em cirurgias íntimas. Qual a sua opinião sobre esse assunto?
É um reflexo bem forte do quanto a nossa sociedade ainda é machista. A pressão estética aqui é muito forte, a ponto de atingir até a nossa região íntima, com uma velocidade que me chocou. Cirurgias na vulva, a princípio, foram desenvolvidas para casos de necessidade, em que existe uma má-formação ou em que a diferença do tamanho dos lábios atrapalha a vida sexual, por exemplo. Mas aqui, vemos como um super movimento de mais um padrão a ser seguido.

De quantas cirurgias estéticas de pênis já ouvimos falar na vida? Quase nenhuma. É de se pensar o quanto estamos oprimindo mulheres a ponto de falarmos até da sua aparência genital. Isso, inclusive, é bem pautado na pornografia. Acaba que o padrão se tornou, assustadoramente, o de uma vulva infantilizada.

Existem muitas questões por trás disso. Mas, de forma geral, sinto que compramos essa ideia principalmente por sermos um país tropical, em que a cultura do corpo é muito forte.

Se pudesse elencar três das principais dúvidas femininas com relação ao corpo, quais seriam elas?
Todos os dias eu recebo, via inbox do Instagram, perguntas sobre como realizar a higiene íntima. As pessoas têm muita dúvida sobre como lavar, o que pode e o que não pode ser feito. Outro assunto recorrente é o orgasmo na penetração, que as mulheres querem entender como alcançar. E a terceira é a questão do desejo dentro dos relacionamentos longos: muitas referem uma queda da libido e fazem desabafos sobre isso.

Um dos capítulos é dedicado só às infecções sexualmente transmissíveis. Mas, na prática, sabemos que pouquíssimas pessoas usam preservativo no sexo oral, por exemplo. Você acha que existe uma forma de mudar isso?
Só conseguiríamos mudar esse cenário se pesássemos na educação sexual dos jovens, desde muito cedo. A cultura do preservativo tem diminuído cada vez mais, em todas as práticas, o que é algo bem assustador, porque resulta no aumento das ISTs. A sífilis quadruplicou nos últimos anos, assim como o HIV aumentou muito. Precisamos ficar atentos.

Mas tudo é uma questão de educação sexual. As pessoas fazem as escolhas às cegas, pelo impulso do desejo e da vivência, mas sem a informação. Precisamos entender que o sexo é maravilhoso, mas que existe um contexto por trás. Com informação, as pessoas se tornam capazes de fazer escolhas mais conscientes.

Por exemplo, dificilmente um casal em uma relação fixa vai usar preservativo durante o sexo oral. O que eles precisam é saber dos riscos implicados e das opções. Podem trocar exames com frequência, observar com mais atenção se estão com alguma ferida, se apresentam algum sinal de alerta.

Na sua opinião, é possível a existência de um "pornô feminista"?

Marcela acredita que a educação sexual desde cedo poderia melhorar a nossa relação com o corpo - Reprodução / Instagram - Reprodução / Instagram
Marcela acredita que a educação sexual poderia melhorar a nossa relação com o corpo
Imagem: Reprodução / Instagram

Procurei não ser taxativa sobre esse assunto no livro, porque não existe uma resposta. Para entendermos se um pornô feminista funcionaria ou não, precisaríamos de uma mudança estrutural. Poderia até dar certo se tivéssemos uma base melhor de estrutura de educação sexual. Com uma sexualidade construída positivamente para todos, o pornô não seria um grande problema, seria só um reflexo das vivências que as pessoas almejam ter, uma representação da fantasia. Até porque, é óbvio que as pessoas se estimulam através das imagens e que isso vai continuar existindo.

Mas só a estética dita feminista não é suficiente, porque continuamos objetificando mulheres, somos uma sociedade misógina. De qualquer forma, tento trazer o máximo possível de informações para que as pessoas tirem suas próprias conclusões sobre o assunto.

É comprovado que o abuso sexual impacta na sexualidade, mas não existe um capítulo no seu livro sobre isso. Foi uma escolha consciente?
Citamos a questão do abuso sexual em alguns momentos, principalmente quando falamos sobre consentimento. Na verdade, cheguei a cogitar dedicar algumas páginas aos traumas e como eles interferem na nossa vida sexual, mas é um assunto denso e que poderia acabar sendo abordado de forma rasa. Preferi deixar para discutir isso em outro momento. Até porque, o tema é delicado, mexe com as nossas estruturas e merece ser tratado com muita profundidade.

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