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Em apps de paquera, não monogâmicos sofrem estigmas: "Acham que é bagunça"

Arte UOL
Imagem: Arte UOL

Nathália Geraldo

De Universa

27/08/2020 04h00

Desliza a tela para a esquerda, desliza a tela para a direita. Aparece um novo pretendente, sem nenhuma informação no perfil do app de paquera sobre a forma de relacionamento que ele prefere viver (ou vive). O match acontece. Uma stalkeada nas redes sociais revela fotos dele com uma namorada. Aparentemente, ele tem uma relação não monogâmica. E agora?

Antes que a história ganhe mais contornos hipotéticos, confesso: ela aconteceu comigo há alguns anos. E a reação que tive foi exatamente uma das relatadas pelos três entrevistados não monogâmicos nesta matéria: por ser uma pessoa monogâmica, optei por responder que "ser a terceira pessoa não era interessante para mim" e que "que não conseguiria ter esse tipo de relação".

A não monogamia que, entre outras modalidades, é vivida por um relacionamento aberto, é quase sempre um assunto tabu entre quem considera imprescindível se relacionar apenas com uma pessoa por vez. "Ih, se é não monogâmico, não quero". De onde vem esse pensamento? Abaixo, pessoas não monogâmicas questionam esse e outros estigmas.

Não monogamia em aplicativos e reações de monogâmicos

Pode ser no Tinder, happn ou no Grindr. A tendência é que, depois do match, "a maioria das pessoas dizer que não conseguem se relacionar assim, que a não monogamia não é para elas", explica a produtora de conteúdo lésbica Luciene Santos, que mantém o perfil @sapavegana nas redes sociais. "E esse discurso dá a impressão de que eu vou interferir nas relações que elas vivem. Mas isso não é sobre elas, é uma coisa maior, uma questão política. É como quando eu falo de veganismo e a pessoa acha que eu vou tirar o bacon do prato dela, sabe?".

Flertando nos aplicativos com pessoas não mono e monogâmicas, e com a descrição sobre sua visão de mundo no perfil, a produtora de conteúdo revela as caixinhas de preconceito em que é colocada. "A pessoa fala que não gosta de bagunça, que é muito ciumenta e que não gosta de dividir as coisas; argumentos dito como se pessoas fossem propriedades".

No dicionário, monogamia é sinônimo de um "sistema social em que não é permitido ao homem ou à mulher ter mais de um cônjuge ao mesmo tempo". É esse sistema que a publicitária Simone Bispo se questiona quando o tema é relações entre não monogâmicos e monogâmicos.

É difícil processar que a monogamia não é natural e, sim, estrutural.

Simone Bispo - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Vivendo uma relação livre, sem hierarquias, há um ano, Simone contextualiza a monogamia como um sistema
Imagem: Arquivo pessoal

"É algo que foi imposto para nós. Então, estudar ou vivenciar a não monogamia é sair da zona de conforto em que fomos colocados desde que o Brasil foi colonizado. Foi o colonizador que trouxe para cá uma ideia de necessidade de família nuclear, com um relacionamento apenas", explica Bispo, que faz parte do projeto "Não mono em foco" que leva, nas redes sociais, análises deste tipo de relacionamento por uma perspectiva política e interseccional.

A publicitária, que é bissexual e vive uma relação livre com um parceiro há um ano, "sem acordos limitantes", também relata ter sido vítima da falta de entendimento e do afastamento de pessoas monogâmicas em conversas de aplicativo. "Já aconteceu de eu falar do meu relacionamento não monogâmico, perguntar se era ok e a pessoa dizer que estava de boa, mas sumir depois de três dias de conversa."

A resistência dos monogâmicos, vale dizer, pode partir de experiência de vida. Sentimentos como receio e dificuldade de não saber lidar com a relação se unem a o desconhecimento sobre o tema. O que soluciona, dizem os entrevistados, é estabelecer diálogo para que ninguém saia magoado (ou fique no vácuo se a conversa não for para frente).

"Eu converso com qualquer pessoa aberta a entender. Aí, mando link de reportagens, podcasts que falem sobre o tema", diz Luciene, que tem compartilhado suas vivências no campo amoroso nas redes sociais durante a quarentena.

Na opinião da psicóloga e psicoterapeuta Triana Portal, que atende casais e famílias em São Paulo (SP), a resistência ao envolvimento pode ter a ver com o "objetivo final" das pessoas quando estão em busca de um relacionamento. Para os homens, a questão pode estar ainda ligada ao machismo. "De ver a mulher como sendo só dele".

O medo de se machucar no campo afetivo, por outro lado, faz sentido. "Se a pessoa deseja uma relação monogâmica e abre a guarda para conhecer alguém que não esteja nesse caminho, não se envolver é uma forma de se proteger afetivamente. Porque, lá na frente, ela pode se apaixonar e querer que o outro se adapte à forma que deseja do relacionamento, ou vice-versa".

Para não monogâmicos, entrar em contato apenas com quem vê as relações da mesma forma se torna "uma forma mais objetiva de se relacionar, evitando contratempos e se ligar a uma pessoa que depois queria a monogamia", afirma a psicóloga.

Por que não?

Seja qual for o jeito de relacionamento, a psicóloga Triana Portal considera que vale a pena manter a cabeça aberta e entender os formatos de envolvimento sem ultrapassar os próprios limites. " atendi a casais em que um apresentou novas ideias de relacionamento para o outro, que era monogâmico, e a pessoa aceitou experimentar".

Na lógica dos aplicativos, se houver interesse no pretendente, vale se perguntar se a não monogamia é para você. "Se é alguém que desperta o desejo, é agradável...Por que não? Só é preciso lidar com as próprias crenças e juízos de valor arraigados. Só não pode se forçar, com o risco de virar um relacionamento tóxico e de dependência".

Promiscuidade e estereótipos errados

Se por um lado a não monogamia é uma questão que repele novos pretendentes, por outro, há quem dê o like por curiosidade, entender a forma de relação de exótica ou mesmo apenas para criticar a forma de vida da pessoa não monogâmica. Entram aí rótulos como o de que não monogâmicos são promíscuos, pegam todo mundo e que não têm afeto nas relações - o que não corresponde à realidade.

Newton Jr - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Newton Jr é não monogâmico e fala da experiência em aplicativos
Imagem: Arquivo pessoal

"As pessoas se incomodam e têm a necessidade de fazer críticas com base em um imaginário que se reproduz na mídia e no boca a boca sobre o que é ser não mono", explica o músico Newton Jr., homem negro e gay que também produz conteúdo para o projeto "Não mono em foco".

O músico destaca ainda que qualquer pessoa que esteja disposta a ver relacionamentos amorosos/afetivos/sexuais por outra perspectiva deve partir do ponto de que a não monogamia não é um termo elitista. "Não é só coisa para gente branca, rica, hétero. Pode-se pesquisar e entender que as relações não se dão no vácuo, elas se dão estruturadas em sistemas como o racismo, o patriarcado e que existem saídas ao modelo hegemônico".

"Eu acho que é possível um não mono se relacionar com um mono, porque eu não acredito que existam pessoas monogâmicas. Acredito, sim, que há uma estrutura coercitiva para isso. Agora, é preciso saber se as pessoas estão dispostas a apresentar esse tipo de relacionamento, se o outro quer entender isso. E quando a não monogamia é algo político, não há um modelo de relação, mas norteadores".

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