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"Insinuaram que eu estava na CPI como prostituta", diz médica Luana Araújo

A infectologista mineira Luana Araújo foi convocada a depor na CPI da Covid após ter sido desligada de função no Ministério da Saúde - Reprodução
A infectologista mineira Luana Araújo foi convocada a depor na CPI da Covid após ter sido desligada de função no Ministério da Saúde Imagem: Reprodução

Camila Brandalise

De Universa

16/06/2021 04h00

A proporção que o nome de Luana Araújo tomou pode ser medida, em parte, pela quantidade de seguidores que sua conta no Instagram ganhou após a infectologista participar da CPI da Covid, no dia 2 de junho: de 9 mil seguidores ela passou a ter 280 mil. Também surgiram propostas de trabalho que incluem um convite do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), para integrar o Centro de Contingência da covid-19 no estado. Convite esse já recusado, como relata Luana a Universa. "Não é meu interesse nesse momento assumir papel em uma administração pública."

Os senadores convocaram a médica, que mora em Belo Horizonte, para que falasse sobre ter tido sua nomeação revogada para o cargo de secretária extraordinária de enfrentamento à covid-19 do Ministério da Saúde, o que ocorreu dez dias após ter sido convidada. As declarações de Luana, defendendo a ciência e criticando o chamado tratamento precoce contra a doença, viralizaram.

"Essa é uma discussão [tratamento precoce] delirante, esdrúxula, anacrônica e contraproducente. Quando eu disse que há um ano estávamos na vanguarda da estupidez mundial, infelizmente ainda mantenho isso em vários aspectos", disse ela no Senado. Luana é mestre em saúde pública pela prestigiada universidade americana Jonhs Hopkins e consultora mundial na área, já tendo trabalho em parceria com países como Cabo Verde e Guiné-Bissau.

Após a participação na CPI, a médica foi atacada pela direita bolsonarista, que inventou que ela não teria o diploma de mestrado, e virou alvo, também, da esquerda, que desenterrou comentários de redes sociais — um deles, de 2018, quando defendeu a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, após um jornal americano dizer que ela havia feito um gesto de arma na posse do marido.

"Era um gesto da linguagem de libras. Respondi a postagem dizendo que era uma notícia falsa. Isso foi distorcido como apoio político", afirma.

luana araújo CPI covid - Leopoldo Silva/Agência Senado - Leopoldo Silva/Agência Senado
A médica em depoimento na CPI da Covid
Imagem: Leopoldo Silva/Agência Senado

"As pessoas têm todo direito de contrapor ou não concordar, mas quando querem fazer isso e não conseguem, expõem o que há de mais sub-humano: em vez de raciocínios claros, querem atacar o mensageiro. E isso veio como misoginia explícita, com insinuações de que eu estava na CPI como prostituta. Infelizmente, ser mulher no Brasil implica isso. Mas se acham que vou me sentir enfraquecida ou humilhada, se enganam."

Na entrevista a Universa feita por telefone, a infectologista, que é pianista desde criança e também cantora, contou que, no momento, se dedica a seu site, Des-Infectando, e analisa propostas de trabalho ligadas ao terceiro setor e à iniciativa privada.

UNIVERSA - Por que acredita que sua participação na CPI da Covid repercutiu tanto?

LUANA ARAÚJO - Significa que existe uma necessidade de se obter informações de qualidade e confiáveis. O que aconteceu comigo nessa história só me mostra que as pessoas estão sedentas por conhecimento inteligível. Não acho que tem relação comigo, mas com uma lacuna que existe e que a ciência precisa fazer um mea culpa.

Durante muitas décadas, a gente criou um ambiente hermético no conhecimento, no vocabulário, na construção do raciocínio, talvez tenhamos colocado a ciência em um pedestal dissociado da realidade das pessoas.

Já vimos muitas cenas de machismo durante a CPI. Sentiu algum constrangimento ao depor?

De jeito nenhum me senti intimidada. Eu me senti exercendo meu papel e, nisso, sou muito segura porque entendo o tamanho do meu conhecimento, assim como entendo o limite da minha capacidade. O que me incomodou profundamente foi não ter nenhuma senadora integrando a comissão. Fiquei triste mesmo. E não me interessa o lado de cada uma, não me interessa de onde venha, interessa que estejam ali. Uma coisa que também me chamou muita atenção é que quando entrei no Ministério da Saúde pela primeira vez, vi uma parede grande, com não sei quantos retratos de todos os ministros. Fui ver quem eu conhecia e foi me dando uma angústia, não tinha uma mulher.

Sobre machismo, acho que o pior veio depois da minha participação na CPI. As pessoas têm todo direito de contrapor ou não concordar, mas quando querem fazer isso e não conseguem, expõem o que há de mais sub-humano: em vez de raciocínios claros, querem atacar o mensageiro.

E isso veio como misoginia explícita, com insinuações de que eu estava na CPI como prostituta. Infelizmente, ser mulher no Brasil implica isso. Mas se acham que vou me sentir enfraquecida ou humilhada, se enganam.

Você foi vítima de ataques e fake news tanto da direita quanto da esquerda. Resgataram, por exemplo, um post seu em uma rede social em que você estaria defendendo a primeira-dama Michelle Bolsonaro. Como lidou com isso?

Essa postagem da primeira-dama foi porque, no dia da posse do presidente, ela fez um discurso em libras. Um jornal americano postou uma foto dizendo que ela reproduzia um gesto militar, mas era um gesto da linguagem de libras. Eu disse que não era verdade, que era uma notícia falsa. Isso foi distorcido como apoio político, mas não foi. Isso é típico dessa coisa extremista que vivemos. É um reducionismo. A perspectiva global é o que me interessa mais. Até porque, se fosse apoio político, eu não estaria nessa posição que estou agora.

Você apoia o governo Bolsonaro?

Não falo sobre política nesse sentido, meu papel não é esse. Meu papel é lidar com políticas públicas, não me interessa quem está no poder.

Se falam que sou isenta, isso é um problema das pessoas que querem ou acham que podem encaixotar as outras. Isso não serve para mim. Me guio pelos meus valores. Minha atuação é política, mas não é partidária.

O negacionismo, com pessoas recusando vacina e o uso de máscara, é sinal de que o Brasil falha na educação científica?

Sim. No geral, temos um grau de analfabetismo científico que é constrangedor. O Brasil falha terrivelmente na educação do povo como um todo, na básica, científica, na profissional. A qualidade dos profissionais de saúde é deficitária em vários níveis também. E aí vira um espaço fértil para fake news. É extremamente importante que as pessoas estejam informadas e desenvolvam o senso crítico. Em uma pandemia, os atores mais importantes não são médicos ou cientistas, são as pessoas. Eu posso falar o que eu quiser, mas se as pessoas não usarem máscara, não vamos a lugar nenhum. A ignorância, no sentido de falta de informação, é letal.

Após a ida à CPI, você também sofreu ataques por ser cantora. Mas a impressão é que você tem muito orgulho disso, certo?

Jamais conseguirão me desqualificar por isso. O Brasil é o único país do mundo que tenta usar a arte para desabonar a qualificação profissional de uma pessoa. Quando eu falei que era musicista clássica na Hopkins, as pessoas ficaram enlouquecidas, me pediam para tocar piano. Eu canto para me aliviar, para me divertir. Tenho piano em casa. Já fiz turnê pela Europa, shows, gravei músicas, todas próprias. Não tenho nenhum problema com isso.

Me disseram que em um desses programas de direita, que desconheço o nome e os participantes, usaram o nome do meu último EP, "Lioness" (em português, leoa) e começaram a me chamar de 'doutora leoa', como se fosse algo difamatório.

Eu vi aquilo e tive a sensação de que o pessoal está jogando um campeonato infantil enquanto você está jogando a Champions League.

O governador de São Paulo, João Doria, a convidou para participar do Comitê de Contingência da covid no estado. Já respondeu?

Sim. Eu agradeci imensamente ao governador, mas não é meu interesse, neste momento, assumir papel em uma administração pública. Nós estamos em um momento político muito sensível, e eu entendi que minha participação nessa história, como foi na CPI, poderia ser interpretada de outra forma que não a real, a de uma técnica fazendo seu trabalho.

O que pretende fazer daqui para frente?

Minha ideia é atuar nas interfaces entre terceiro setor, setor público e setor privado. Tenho propostas nesse sentido. Saúde pública não é só trabalhar em governo. Existem muitas possibilidades de ação hoje que têm um impacto muito grande e que precisam de pessoas qualificadas. E também tem esse espaço que acabei alcançando de divulgação de ciência.

Neste momento, não posso me abster disso. Vou fazer lives, tirar dúvidas das pessoas. Já tinha essa percepção de que havia uma necessidade de fazer divulgação científica tanto que, quando voltei ao Brasil, em maio de 2020, criei o site Des-infectando. A percepção da época encontrou uma demanda real agora.

Você foi a primeira brasileira a receber a bolsa Sommer para estudar na Johns Hopkins, considerada uma das maiores escolas de saúde pública do mundo. O desejo de seguir carreira na área vem desde a faculdade de medicina?

Não. Segui a área de infectologia, e a saúde pública veio depois. Em um determinado momento da minha vida, tinha um convite para trabalhar na indústria farmacêutica e outro, que na verdade era um pedido de ajuda, de uma cidade no interior do Mato Grosso chamada Nova Mutum, que estava lidando com um surto de sífilis gestacional. Fui para lá para entender o que estava acontecendo e entendi que aquele trabalho era uma evolução do que eu fazia como infectologista, que poderia proporcionar melhores condições para muito mais gente.

Desenvolvi um projeto na cidade, contivemos o surto, foram feitas várias mudanças desde a atenção básica. Depois disso escrevi para universidade americanas me apresentando, mostrando meus resultados. Queria saber se alguém poderia me ajudar a bolar novas estratégias. Recebi inúmeras respostas de instituições americanas, entre elas a Johns Hopkins, e eu fui.

Chamou a atenção a presença do seu pai na CPI. Sempre teve o apoio dele na sua carreira?

Muito. Somos em quatro irmãos. Tanto meu pai, que é médico, quanto a minha mãe, que é professora, dedicaram tudo que puderam para investir na educação dos filhos. Fiz dança, música, pintura. Tenho uma história que entendo ser extremamente privilegiada. Eles queriam que a gente tivesse uma visão mais ampla da vida.

Entrei na escola e fiz o que se chamava de ciclo básico em menos de um ano [o ciclo básico é equivalente ao ensino médio, com três anos de estudos]. Estudava em escola pública, e o Estado disse que eu teria que ficar repetindo de ano para seguir o sistema. Meus pais não deixaram, eles sempre foram muito lúcidos. Depois disso, meu pai foi estudar direito para evitar que algo parecido voltasse a acontecer. Mal sabia ele que tantos anos depois estaria ao meu lado em uma CPI.

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