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Mulheres protagonizam um mundo em evolução


Traição, influência e corrupção: as histórias das primeiras-damas do Brasil

Camila Brandalise

De Universa

26/02/2020 04h00

Michelle, Marcela, Marisa, Ruth... quem mais? Não é só você que precisa fazer um esforço, provavelmente sem muito êxito, para se lembrar dos vários nomes que ocuparam o posto de primeira-dama antes das mais recentes. Muitas delas não se apagaram só da sua memória. Foram esquecidas também pela história brasileira.

Apesar das centenas de livros que se debruçam sobre a vida dos presidentes, a produção sobre as mulheres é ínfima. E, quando há, o eixo da narrativa ainda costuma ser o homem, inclusive nas autobiografias escritas por elas.

Essa lacuna saltou aos olhos dos autores de "Todas as Mulheres dos Presidentes" (editora Máquina de Livros), lançado no final de 2019, que compilaram pesquisas em livros, revistas e jornais para montar minibiografias das 34 primeiras-damas nos 130 anos de República.

Escrito pelos jornalistas Ciça Guedes e Murilo Fiuza de Melo, o livro, ao falar dessas mulheres, acaba fazendo também uma análise da evolução dos direitos femininos no Brasil desde a República Velha, quando a esposa só podia trabalhar se apresentasse uma autorização do marido.

"O fato de, entre as 34, só três terem curso superior — Marcela Temer, Rosane Collor e Ruth Cardoso — mostra que o entendimento sempre foi de que a mulher chega num ponto da vida e vai se tornar mãe de família. Não tinha por que estudar ou ter uma carreira", afirma Ciça. "Das 34, 13 casaram com menos de 20. Aconteceu mais no início da República, mas era comum elas terem nove, dez filhos", complementa Melo.

Abaixo, Universa selecionou, entre as histórias do livro, curiosidades sobre algumas delas:

Traídas, sim. Separadas, nunca

O levantamento feito pelos autores mostra outra face desses relacionamentos: enquanto a maioria das primeiras-damas era a mãe de família com funções reservadas ao ambiente doméstico, os presidentes eram — e ainda são — o "macho alfa".

Isso fica bem evidente aqui: pouquíssimos presidentes não traíram suas mulheres publicamente — entre os mais antigos, só Floriano Peixoto e Afonso Penna não tiveram casos extraconjugais. "As mulheres de forma alguma falavam sobre, repercutiam as notícias dos casos ou se separavam. Eram obrigadas a aceitar. Era um comportamento visto como uma afirmação do macho alfa. Nunca manchou a biografia de nenhum deles", diz Ciça.

As traições não eram apenas naturalizadas como ovacionadas pelo senso comum e pelos livros de história. "No caso do Deodoro da Fonseca, por exemplo, os biógrafos falam que ele era um homem maravilhoso, tinha porte atlético e uma tendência a atrair belas mulheres", comenta Melo. O marechal foi casado com Mariana por 34 anos, até sua morte.

Mariana, a mulher sem rosto

Quadro que registra a assinatura do primeito projeto da Constituição Republicana, de 1890: Mariana, mulher do presidente, é a única pessoa de costas - Marcos Oliveira/Agência Senado
Quadro que registra a assinatura do primeito projeto da Constituição Republicana, de 1890: Mariana, mulher do presidente, é a única pessoa de costas
Imagem: Marcos Oliveira/Agência Senado

A mulher que inaugurou o posto de primeira-dama no Brasil em 1889, Mariana Cecília de Sousa Meireles, é descrita em livros de história e biografias como uma esposa "virtuosa" e dedicada. Nesses registros, os relatos sobre sua existência não avançam mais do que ser a pessoa ao lado do primeiro presidente da nação, Manuel Deodoro da Fonseca.

É também a única mulher entre as 19 pessoas retratadas no quadro do pintor Gustavo Hastoy na cena de assinatura do projeto da primeira Constituição. Na pintura, que hoje ocupa uma das paredes do Museu do Senado, estão todos ao redor de uma mesa com Deodoro ao centro. Nela, Mariana não tem rosto: é a única de costas.

Ela morreu em 1905, 12 anos depois da morte do marido. Os restos do casal foram depositados no monumento-mausoléu na praça que leva o nome do marechal, no centro do Rio de Janeiro. Há várias estátuas além da dele representando personagens importantes do período em que foi presidente, como a de colegas republicanos e jornalistas. Mas nenhuma delas representa Mariana.

Nair de Teffé: de cartunista descolada à mulher de militar

Era o início do século 20 e uma jovem alcançava o feito de ser a primeira cartunista mulher a ter uma ilustração publicada em um jornal. Nair de Teffé era talentosa nos desenhos, mas abandonou a carreira ao se casar, em 1913, com o marechal Hermes da Fonseca, 31 anos mais velho — ela tinha 27; ele, 58.

Antes do casamento, Nair era uma jovem descolada: andava pelas ruas com as amigas fumando cigarrilha, vestindo terno, gravata e chapéu de feltro. Debochadas, elas raspavam a cabeça e usavam perucas, cada dia de um tipo e cor diferentes. A ideia era ridicularizar os homens, que se espantavam com as mudanças de visual de um dia para o outro.

"Ela só voltaria a viver a própria vida depois que ele morre, em 1923". Aos 37, Nair abriu o cinema Rian, um anagrama do seu nome, voltou a desenhar e entrou para a Academia Fluminense de Letras.

Darcy Vargas: criadora do trabalho em assistência social

A ligação das primeiras-damas com trabalhos de assistência social foi uma criação de Darcy Vargas, mulher de Getúlio. Darcy institucionalizou a função ao criar a LBA (Legião Brasileira de Assistência), em 1942, com o objetivo de "promover a proteção à maternidade, à infância e à velhice, o incentivo à educação e a atenção à saúde e à habitação popular".

Darcy Vargas, criadora da LBA - Reprodução
Darcy Vargas, criadora da LBA
Imagem: Reprodução

Diz o livro: "Seria a primeira entidade pública de assistência social de âmbito nacional. Até então o Estado não considerava as questões sociais como um problema público, mas algo ligado exclusivamente à Igreja e às associações particulares, como as Santas Casas de Misericórdia. À frente dessa revolução estava uma mulher."

Darcy também era envolvida com causas feministas e dos direitos das mulheres. Em 1934, foi a grande patrocinadora do 3º Congresso Feminino do Brasil, que contou com palestras de lideranças do movimento na época, como a bióloga Bertha Luz, um dos maiores nomes na luta pelo direito ao voto feminino.

Sarah Kubitschek: infeliz no amor, próspera no trabalho

Sarah Kubitschek - Divulgação
Sarah Kubitschek
Imagem: Divulgação

"Ela foi muito infeliz ao lado dele como mulher", diz Ciça sobre Sarah e seu relacionamento com Juscelino Kubitschek. "A união deles foi de uma frustração crescente. Ele foi tendo casos e mais casos. E ela tendo que se manter do lado. Mas não se deixou abater: fez um trabalho como primeira-dama sensacional ao criar ações para a prevenção do câncer ginecológico."

Sarah concebeu a ideia e batalhou pela criação do Centro de Pesquisa Luísa Gomes Lemos, inaugurado em 1957 no Rio de Janeiro, voltado para trabalhos de prevenção e detecção precoce do câncer de mama e ginecológico — entre eles o do colo do útero, que havia vitimizado sua mãe anos antes.

Até hoje, seu nome é citado pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), referência nos estudos em saúde no Brasil, como autora das primeiras iniciativas para prevenir e tratar a doença.

Dormindo com um general

O período da Ditadura Militar (1964-1985) contou com primeiras-damas tão austeras quanto seus maridos. Discretas, apareciam e falavam muito pouco. Eram mais velhas que as anteriores, também porque os maridos o eram. A ideia era que vendessem a imagem de que eram um típico exemplar do bom comportamento feminino. Mas nem sempre foi assim.

Yolanda Costa e Silva - Divulgação
Yolanda Costa e Silva
Imagem: Divulgação

Yolanda, mulher de Arthur da Costa e Silva, gostava de beber e de jogar cartas e era assídua frequentadora de bailes de Carnaval. Foi primeira-dama entre 1967 e 1969.

Nunca foi recriminada pelo marido por isso, pelo contrário. Influenciava sobremaneira as decisões de Costa e Silva, a ponto de dizerem, na época, que das pessoas interessadas em pedir ajuda ao presidente, 50% procuravam por ele, outros 50%, por ela. "Foi ela quem o convenceu, por exemplo, a nomear Paulo Maluf como presidente da Caixa Econômica Federal". Foi o primeiro cargo público de Maluf.

Diferentemente de Yolanda, Scylla, mulher de Emílio Garrastazu Médici, responsável pelo período mais sanguinário do regime, era a típica "recatada e do lar". "A única vez que falou publicamente sobre casamento, disse que era 'uma pessoa que não tinha valia'. Ela referia-se a si como uma pessoa que vivia para o marido e para os filhos", conta Ciça.

Dulce, mulher de João Figueiredo, último presidente militar, também teve influência no governo do marido. Foi por intercessão dela, por exemplo, que Silvio Santos conseguiu a concessão de TV para criar o que hoje é o SBT.

Rosane Collor: acusada de roubar o dinheiro do leite

Rosane com o marido, o então presidente Fernando Collor - Juan Esteves - 15.mar.1990/Folhapress
Rosane com o marido, o então presidente Fernando Collor
Imagem: Juan Esteves - 15.mar.1990/Folhapress

Das 19 mulheres que sucederam Darcy Vargas, só quatro assumiram a presidência da LBA, órgão criado pela esposa de Getúlio. Entre elas Rosane Collor, de 1990 a 1991. Um ano depois de deixar o cargo, porém, veio a denúncia de corrupção: Rosane era acusada de desviar verba que seria usada para comprar leite em pó.

Em 2006, o processo concluiu que Rosane praticou fraude, corrupção passiva e peculato, sob acusação de receber cerca de R$ 600 mil de empresas beneficiadas numa licitação para a compra de 1,6 milhão de quilos de leite em pó. Mas os crimes haviam prescrito e ela sequer foi julgada.

Ruth Cardoso e o pavor de ser primeira-dama

Os autores são unânimes ao apontar a socióloga Ruth Cardoso como a mulher que revolucionou o cargo de primeira-dama. Primeiro, por ser quem era: pesquisadora de longa data, com uma carreira acadêmica brilhante, quando subiu a rampa do Palácio do Planalto, em 1995, já havia concluído um pós-doutorado na Universidade de Columbia, em Nova York, sete anos antes.

Segundo, por desenvolver um trabalho como primeira-dama que realmente fez diferença e mudou os rumos da assistência social no país.

Ruth extinguiu a LBA e criou o Programa Comunidade Solidária, um projeto de trabalho social do governo que cria parcerias entre empresários, sociedade civil e ONGs.

Mas ela não escondia o pavor da vida pública. "Quando FHC decidiu se candidatar ao Senado, em 1983, Ruth entrou em pânico, não queria que ele concorresse", diz Ciça. Foi convencida pelo amigo José Gregori, que posteriormente ocupou os cargos de secretário de Direitos Humanos e ministro da Justiça.

Ruth Cardoso foi a única primeira-dama brasileira a discursas na ONU - Fundação FHC
Ruth Cardoso foi a única primeira-dama brasileira a discursas na ONU
Imagem: Fundação FHC

O Programa Comunidade Solidária foi encerrado em 2002 e substituído pelo Programa Fome Zero, criado em 2003 no governo Lula.

"Ruth teve um trabalho excelente na área e mostrou que faria muita diferença se uma primeira-dama realmente se envolvesse, como ela fez, com as causas sociais", opina Ciça. "Ela conseguiu articular Estado, ONGs e empresários pela primeira vez e amplificou o papel da mulher."

Michelle Bolsonaro: havia esperança

Em contrapartida à visão que têm sobre Ruth, os autores se dizem decepcionados com a atual primeira-dama, Michelle Bolsonaro. Afirmam ter tido alguma esperança quando ela apareceu na posse discursando antes do marido e se mostrou envolvida com questões relacionadas às pessoas com deficiência.

"Parecia que teria uma ação forte, mas encolheu", diz Melo. "Ela é jovem, cheia de energia, sabe que a vida é dura [Michelle nasceu e cresceu em Ceilândia, uma cidade-satélite na periferia de Brasília]. Mas não tem tido força, não tem nenhuma visibilidade", diz Ciça. "Vai depender dela salvar a própria biografia. Pode ser espelhar nos bons exemplos e mostrar do que é capaz."

Por que elas não falam sobre mulheres?

É curioso rever a história das primeiras-damas e perceber que nenhuma delas chegou a se dedicar aos direitos das mulheres. E isso não significa ser feminista, como Ruth, mas promover campanhas contra a violência doméstica ou o feminicídio, por exemplo. Pelo menos é essa a opinião de Ciça e Melo.

"Somos o quinto país no ranking de mortes violentas de mulheres. Já pensou se uma primeira-dama ousasse trabalhar por esse tema?", questiona Ciça.

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