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Violência doméstica na pandemia: mulheres criam coletivo para ajudar vítima

coletivo de mulheres Brazilinas ajuda vitimas de violencia domestica - arquivo pessoal
coletivo de mulheres Brazilinas ajuda vitimas de violencia domestica Imagem: arquivo pessoal

Deborah Bresser

Colaboração para Universa

04/04/2021 04h00

No início da pandemia, em 2020, o aumento da violência doméstica com o isolamento social levou mulheres de diferentes regiões do país a se juntarem para ajudar de alguma maneira essas vítimas em um momento de crise sanitária e econômica. Surgia assim o Coletivo Brazilinas, formado por profissionais liberais de diversas áreas e influenciadoras digitais que já atuavam de alguma forma com voluntariado em questões sociais, que se organizaram para contribuir com mulheres em situação de vulnerabilidade social.

Começou com Daniele Costa, de São Paulo, que teve a ideia de reunir mulheres que queriam contribuir de alguma forma com as questões de equidade de gênero. Ela convidou algumas amigas que gostaram da proposta e elas também falaram com outras mulheres que resolveram somar forças e entrar para o grupo. "Num primeiro momento selecionamos entidades que atuavam no combate à violência contra a mulher e que precisavam de ajuda", conta Daniele, que é coordenadora do Brazilinas.

Segundo a 14° edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, lançado em 2020, a violência de gênero nos primeiros seis meses de 2020 cresceu 1,5% em relação ao mesmo período de 2019 e o número de feminicídio aumentou 1,9% no mesmo período. Em relação à violência doméstica, os registros de lesão corporal aumentaram 5,2%. Dados de 2019 compilados no anuário mostram que a cada dois minutos ocorre uma agressão contra mulher.

O Brazilinas conseguiu colocou no ar duas campanhas de arrecadação de verba por meio da plataforma Solidário Brasil e conseguiu arrecadar mais de 10 mil reais para duas entidades que trabalham com vítimas de violência doméstica: a Casa Noeli e o programa Apolônias do Bem.

A Casa Noeli abriga mulheres vítimas de violência doméstica, em Ariquemes, Rondônia; e o programa Apolônias do Bem reúne dentistas voluntários de todo o Brasil que atendem mulheres que sofreram agressões físicas e tiveram rosto, bocas e dentes atingidos.

"Começamos com ação de arrecadação de dinheiro para cestas básicas e produtos de limpeza e no decorrer dos meses percebemos que a Casa Noeli poderia ser a primeira entidade a contar com nosso curso de capacitação, que era uma das propostas iniciais do Coletivo Brazilinas", explica Daniele.

Na Casa Noeli também houve um aumento de vítimas de violência doméstica acolhidas em 2020. A maioria das mulheres abrigadas no local é formada por jovens de 19 a 25 anos, com ensino médio incompleto e com dois filhos. A maioria já trabalhava, mas muitas dependiam do companheiro para sobreviver.

"A partir do segundo semestre, partimos para uma ação de capacitação dessas mulheres. Quem sofre violência fica sem autoestima", diz Daniele. As Brazilinas desenvolveram então um ciclo de palestras para empoderar essas mulheres. "Selecionamos temas como autoconhecimento, inteligência emocional, mentalidade empreendedora, utilização de redes sociais e ferramentas de marketing, eliminação de crenças de escassez e criação de consciência financeira, autoestima e imagem pessoal", conta a coordenadora do coletivo. "O retorno é muito positivo, algo simples e prático.

Cursos de capacitação ajudam vítimas a conseguir renda

Durante a pandemia, a Casa Noeli abriu uma exceção para acolher as vítimas de violência doméstica por mais tempo. Em vez dos três meses que a instituição garantia, M. S. (nome preservado por questões de segurança), mãe de cinco filhos, conseguiu ficar abrigada no local durante 1 ano e 8 meses. Ela foi uma das participantes dos cursos realizados por mulheres parceiras do Coletivo Brazilinas. Ela, que começou a vender roupas e lingerie, conta que tem conseguido organizar melhor o trabalho depois das dicas, técnicas e orientações recebidas nos cursos, principalmente o de consciência financeira — que tem ajudado ela a conseguir poupar um pouco para reinvestir em seu negócio.

"Essas mulheres que nos deram os cursos não sabem muito bem quem somos, pois foi tudo à distância, mas gostaria que soubessem que eu sei quem elas são e o quanto me ajudaram, pois estou realmente me esforçando e colocando na prática o que ouvi e aprendi nos cursos", diz a vendedora.

Para P. A. R., colocar a vida em ordem é o primeiro passo. Ela se mudou para outro município e no momento não está trabalhando (tem um bebê mais a mudança de cidade), mas assim que estiver instalada quer colocar as dicas do curso de capacitação em prática. Quer vender bolos, que é o que gosta de fazer, mas agora tendo conhecimentos básicos de educação financeira e marketing digital com foco em vender pelas mídias sociais.

"Aprendi nos últimos cursos que é preciso colocar a casa em dia para começar a poupar. Assim tenho feito, além me valorizar mais, preciso ter segurança da minha capacidade de alcançar o que sonho e quero para minha vida e dos meus filhos", diz ela.

Segundo Daniele Costa, levar essas ações de capacitação são uma forma de jogar luz e mostrar que há saída, mesmo que se comece com passos de formiguinha, e o amor-próprio são o primeiro estímulo para isso. Além de lembrar essas vítimas de que elas não estão sozinhas, que existe uma rede de apoio e acolhimento.

Ao todo foram capacitadas 57 mulheres e o Coletivo já está pensando em novas ações, mais voltadas ao empreendedorismo.

Por enquanto o projeto piloto do curso de capacitação do Coletivo Brazilinas está sendo realizado apenas para as mulheres atendidas pela Casa Noeli. A ideia é também ampliar o curso para mulheres atendidas por outras entidades.

Em caso de violência, denuncie!

Sempre que presenciar um episódio de agressão contra mulheres, ligue para 190 e denuncie. Vale lembrar que casos de violência doméstica são aqueles em que o agressor mora na mesma casa da vítima e, na maior parte, são cometidos por parceiros ou ex-companheiros, mas a Lei Maria da Penha também pode ser aplicada em agressões cometidas por familiares.

Além do 190, também é possível realizar denúncias de violência pelo aplicativo Direitos Humanos Brasil e na página da Ouvidoria Nacional de Diretos Humanos (ONDH) do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH). Vítimas de violência doméstica podem fazer a denúncia em até seis meses a partir da data da agressão. Caso esteja se sentindo em risco, a vítima pode solicitar uma medida protetiva de urgência.

Clique aqui, acesse o Manual de Universa de combate ao feminicídio e saiba mais sobre o assunto.