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Para entidades feministas, Manual Universa será aliado contra o feminicídio

Deborah Faleiros/UOL
Imagem: Deborah Faleiros/UOL

Camila Brandalise

De Universa

25/11/2020 04h00Atualizada em 25/11/2020 15h51

O jornalismo tem papel essencial no combate à violência contra a mulher - especialmente no Brasil, 5º país no ranking de casos de feminicídio feito pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH). Além de encorajar vítimas a denunciarem, notícias sobre esse tema têm o poder de mobilizar a sociedade, fazendo com que os olhares coletivos se voltem a um assunto tão urgente quanto o combate à violência de gênero.

Ainda assim, sabemos que podemos melhorar - especialmente no tratamento que a imprensa concede às vítimas e familiares de mulheres que sofrem com essa violência. Pensando nisso, formulamos o "Manual Universa para Jornalistas: Boas Práticas na Cobertura da Violência Contra a Mulher", que você pode baixar aqui.

"Cobrir violência de gênero deve estar na lista de prioridade dos jornalistas porque é um crime contra a sociedade", explica Katia Brembatti, uma das diretoras da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e professora na Universidade Positivo.

Diretora de conteúdo do Instituto Patrícia Galvão, Marisa Sanematsu reforça que o manual traz muitas orientações essenciais. "São recomendações importantes para que se faça um bom jornalismo, mostrando a responsabilidade necessária ao se tratar do tema". Ao lado da revista AzMina, o Instituto Patrícia Galvão prestou consultoria analítica ao projeto de Universa.

O jornalismo como holofote

Para a escritora e roteirista Antonia Pellegrino, uma das criadoras do projeto Agora É Que São Elas, a imprensa tem o poder de lançar luz sobre o tema e mostrar que a questão precisa ser resolvida coletivamente.

"O Brasil nunca tratou a violência de gênero como um problema de todos. Mas, nos últimos dez anos, houve grandes avanços na forma como o assunto é tratado pela imprensa. A cobertura é fundamental porque esse não é um problema só das mulheres, mas da nossa sociedade", diz Antonia, que parabenizou Universa pela criação do manual. "É uma iniciativa maravilhosa. Demorou, mas aconteceu."

Helena Bertho, diretora de redação da revista AzMina, ressalta ainda que a cobertura pode pressionar o poder público por políticas de enfrentamento à violência contra a mulher. "Além disso, fornece informações para que as mulheres reconheçam a violência sofrida e também conheçam seus direitos e como buscar ajuda", afirma.

É importante cobrir, mas precisamos melhorar

Como sugere Helena, é só usar o Google para ver que muitas notícias recentes estão calcadas em estereótipos machistas. Se você jogar no site de busca, por exemplo, os termos "mulher assassinada ciúme", verá informações publicadas recentemente em que a emoção masculina é usada para explicar casos de feminicídio.

"É o erro mais comum [da imprensa]: tentar justificar a violência contra a mulher, seja pelos sentimentos do agressor, como ciúme ou paixão, ou pelo comportamento da mulher, citando traição, sua roupa ou bebida", analisa Helena. "Ciúme, paixão, amor, todos nós sentimos. Assim como há pessoas que traem, provocam, bebem, usam roupas dos mais diversos tipos. E nada disso é justificativa para que matemos uns aos outros."

Para Helena, um cuidado que deve ser tomado na hora que cobrir esses casos é justamente não reforçar argumentos que minimizem o trauma da vítima ou que isentem a sociedade do seu papel. "É importante ter sempre cuidado em ressaltar que a violência de gênero acontece porque existe toda uma cultura que leva à objetificação da mulher e permite que homens tenham uma sensação de posse em relação a nós."

Cuidado, atenção e sensibilidade

Por isso, é importante utilizar o espaço de uma notícia para também contextualizar as histórias e mostrar que é um problema social complexo, e não restrito ao caso narrado em específico.

Além disso, o jornalista deve tomar cuidado para não inibir possíveis tentativas de denúncia ou de pedido de ajuda, como explica Marisa, do Instituto Patrícia Galvão. "Se uma matéria, por exemplo, destaca no título que a amiga da vítima foi morta ao tentar ajudá-la, a sensação é que não se deve meter a colher mesmo. E isso é uma ideia errada. Portanto é preciso ter toda a atenção na mensagem que será passada."

"Também é importante que a matéria venha com declarações de fontes e de orientações sobre como denunciar, falando do andamento do processo, da punição que o agressor recebeu. Isso serve para mostrar que os crimes são punidos e estimular as denúncias", opina Katia, da Abraji.

Promotora do MP-SP (Ministério Público de São Paulo) e coordenadora do Núcleo de Gênero da entidade, Valéria Scarance diz ver com frequência reportagens em que se fala de um feminicídio cometido após registro de boletim de ocorrência ou medida protetiva, "como se nada funcionasse". "Essa situação não é regra. A morte da mulher que rompe o silêncio é a exceção da exceção. Em razão de matérias assim, muitas mulheres não buscam ajuda", alerta.

Valéria também comemora a iniciativa de compilar orientações para que se faça uma cobertura mais humanizada dos casos. "É uma atuação fundamental de Universa."

Notícia é informação, informação é poder

A advogada Gabriela Souza, do escritório Advocacia para Mulheres, é uma das fundadoras do movimento Me Too Brasil, que ajuda vítimas de assédio e abuso sexual. Ela salienta que, muitas vezes, narrativas da imprensa são também levadas para o Judiciário como prova em um julgamento. "Bem como a opinião pública a respeito de determinado caso, criada a partir dessa narrativa", diz.

Gabriela também reforça a importância de se informar às mulheres sobre seus direitos, trazendo informações sobre legislação e locais para se fazer denúncia. Mas ressalta que é preciso fugir do juridiquês. "Conhecimento jurídico empodera. Mas é importante explicar os direitos de maneira compreensível ao público em geral, para que a mulher se sinta fortalecida a fazer a denúncia conhecendo seus direitos", afirma.