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Coordenadora do MeToo Brasil sobre Melhem: Forçar beijo não é erro, é crime

O humorista Marcius Melhem (Reprodução / Globo) - Reprodução / Internet
O humorista Marcius Melhem (Reprodução / Globo) Imagem: Reprodução / Internet

Luiza Souto

De Universa

25/10/2020 13h39

Após o mundo acompanhar artistas de Hollywood, nos Estados Unidos, levando a público graves denúncias de má conduta sexual contra figurões da indústria do entretenimento como o produtor Harvey Weinstein, condenado a 23 anos de prisão, o Brasil parece viver história semelhante quatro anos depois: seis mulheres acusam formalmente o ex-diretor da Globo Marcius Melhem de assédio sexual, outras de assédio moral, num processo de compliance aberto pela emissora. A informação foi dada pela advogada das vítimas em entrevista à Folha neste sábado (24).

E como aconteceu nos Estados Unidos, o Brasil acabou ganhando a versão do movimento #Metoo, para encorajar mulheres a denunciar casos como esses, através da plataforma online do grupo.

Uma das especialistas responsáveis pelo atendimento é a advogada Isabela Del Monde, coordenadora do MeToo Brasil e sócia da Gema Consultoria em Equidade. Em conversa com Universa, ela diz que chamou atenção a forma como a Rede Globo conduziu o caso, por "simplesmente demitir Marcius sem qualquer tipo de reconhecimento do que aconteceu".

Em agosto desse ano, Melhem deixou a Globo, onde coordenava os projetos de humor da emissora desde 2018 e ajudou a implantar atrações como o "Tá no Ar: A TV na TV" e "Fora de Hora". Ele estava na empresa havia 17 anos. Sua saída se deu no mesmo período em que acusações de assédio moral contra ele vieram à tona.

"No caso do José Mayer pelo menos houve reconhecimento do que aconteceu, embora tenha tido uma condescendência", comenta ela, referindo-se à denúncia de assédio contra o ator, feita pela figurinista Su Tonani em 2017. Ela acusou o artista de ter lhe assediado por meses e tocado suas partes íntimas nos bastidores do Projac. Na época, ele divulgou carta aberta assumindo que "errou".

Num post publicado em sua conta no Twitter, Melhem também falou que vai expor a sua inocência e os seus erros. Entre as acusações, ele teria colocado as vítimas contra a parede e tentado beijá-las à força.

"Não é um erro nem deslize. Erro é colocar alguém errado em destinatário de e-mail. Forçar a beijar não é erro, é crime", aponta ela. Um beijo forçado é considerado importunação sexual. Ele pode ainda ser enquadrado no crime de assédio sexual, por utilizar a relação de poder para os ataques, explica Isabela.

Veja principais trechos da entrevista

Em sua defesa, Melhem fez uma série de tuítes falando em "reconhecer meus erros". Há essa dificuldade mesmo das pessoas reconhecerem o crime como tal?

Não é um erro nem deslize. Erro é colocar alguém errado em destinatário de e-mail. Forçar a beijar não é erro, é crime. Muitos homens não compreendem o que é consentimento, porque não compreendem a mulher como sujeito, mas objeto. Eles precisam entender que estão sendo responsabilizados pelas suas condutas.

Quando a mulher traz uma denúncia como essa um tempo após o crime, às vezes anos, duvida-se de sua narrativa. Inclusive, num desses posts, o próprio Melhem diz que jamais seria capaz de emparedar alguém à força. A mulher mente sobre uma denúncia como essa?

Não! Não há nenhuma estatística que mostre relatos falsos de violência sexual. Nenhum estudo mostra isso. O que mostram é que 98% das denúncias são verdadeiras. A palavra da vítima tem especial relevância no crime de violência sexual, porque muitas vezes não deixam marcas. Nesse caso específico do Marcius, a gente vê a repetição de padrão. Se tem várias pessoas que não se conhecem, não são amigas, contando o mesmo padrão, estamos vendo que não tinha como inventar a mesma história, e o mesmo tipo de detalhe. Além disso, elas falam em mensagens enviadas. E aí?

Ele escreve ainda: "quem me conhece sabe que não faria uma coisa dessa". Esse discurso desacredita a vítima?

Essa é uma fala que traz muitos elementos, e o principal deles é o reforço da ideia de que estuprador/abusador é um monstro ou que não sabia o que estava fazendo. Ele sabia muito bem o que estava fazendo. Quando o Marcius fala uma coisa dessa, está dizendo para as sobreviventes de abusos, as que sofreram nas mãos de um pai, um chefe, um primo, que nada aconteceu porque essas pessoas eram conhecidas. O agressor sexual é um homem comum. Essa defesa não está mais colando.

Nenhuma mulher que acusa Melhem quis se identificar por enquanto, apesar dele ter saído da Globo. Seria por vergonha e medo?

Uma mulher que sofre a violência sexual é perseguida nas redes, perde emprego, relacionamento, apoio familiar. Já o homem que fala publicamente que cometeu violência sexual vira presidente dos Estados Unidos. Esse medo não é só do agressor, do que ele possa fazer. Eles perseguem, intimidam, e elas ficam marcadas para sempre. Tem ainda a percepção muito distorcida quanto ao estereótipo da vítima, de que ela é uma mulher fraca, que bebe, que faz comédia. Evidentemente há o medo social. Quando a mulher se pronuncia, ela não é socialmente acolhida, é hostilizada.

Já vimos casos em que por causa de inconsistências com relação a datas e fatos no depoimento de uma vítima, ela acaba sendo desacreditada também. Por que há essas confusões?

Quem é especialista em atendimento a vítimas sabe que inconsistências de narrativa são comuns, porque a lembrança é entrecortada, vem em flashes. E elas demoram a reconhecer o crime. A principal reação que a vítima tem diante da violência sexual é a imobilidade tônica. Nosso tônus muscular não se move. É uma reação incontrolável, irracional. E tem-se aí a alteração completa na dinâmica do cérebro. Ela não consegue correr nem fugir, e leva um tempo para a compreensão do que aconteceu. E quando compreende, tem a vergonha.

Qual seria a conduta ideal da TV Globo, e também das empresas em geral, diante de um caso como esse?

A metodologia de atendimento à vítima tem que ter alguns pilares. Tem que ter uma atuação centrada nela, e isso não significa atuação parcial, mas que leve em consideração aquele trauma que o assédio, o abuso causam, e o que ela deseja, o que ela precisa, como apoio psicológico e jurídico. É uma escuta que fale: "eu te escuto", "o que você está dizendo é importante", "sinto muito pelo que você está me relatando". É olhar no olho, acolher sem fazer pergunta do tipo "você tem certeza disso?". Esse tipo de fala destrói a vítima e qualquer projeto de restauração e reparação. A vítima não está atrás da punição do agressor, mas do reconhecimento de sua dor.

Afastar o agressor da empresa não resolve?

Muita gente acha que a solução é afastar o agressor, mas isso não traz reparação à vítima. A violência sexual, o assédio não se interrompe com a remoção do agressor. É uma prática estrutural. Eu elimino o sujeito, mas não trabalho na causa do assédio. O ideal seria estabelecer um protocolo. Claro que a Rede Globo vai falar que tem canal de compliance, mas quem atende esse canal? Não dá para ter um mesmo canal de compliance para corrupção e violência sexual. Tem que haver especialistas que saibam ouvir a vítima.

E qual a melhor forma de trabalhar o agressor?

Ele não tem só que ser responsabilizado, preso, mas ter uma pena que exija a participação de grupos reflexivos sobre masculinidade. É um problema complexo que exige política pública, atuação das empresas, do terceiro setor, da sociedade, da imprensa, de todos. Não são apenas boas intenções que vão levar a estratégias e soluções.

Como o Metoo Brasil trabalha hoje?

Ele é destinado para homens e mulheres. Sabemos que 90% das vítimas são mulheres, mas isso não elimina o fato de que o homem possa ser vítima de violência. E a gente pode encontrar também pessoas que foram vítimas de violência na infância. É uma plataforma aberta para todos. A gente precisa de empenho coletivo para eliminar a cultura do estupro. Nossa intenção com esse debate público é trazer as vítimas para a conversa. A gente conversa, ouve, explica como funciona o processo de denúncia, quem estará ao lado da vítima. A denúncia leva em consideração a autonomia de vontade da vítima. Damos todo escopo para que ela possa tomar uma decisão fundamentada em informações. Não existe um quartel general das feministas tentando destruir a vida dos homens, mas tentamos reconstruir a vida das mulheres.