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Luciana Bugni

Robinho, Alê Oliveira, Mazepin, Melhem e o clube das desculpas esfarrapadas

Robinho sorri em treino no Santos, há uns meses: pedir desculpa assim nem precisa - Ivan Storti/Santos FC
Robinho sorri em treino no Santos, há uns meses: pedir desculpa assim nem precisa Imagem: Ivan Storti/Santos FC
Luciana Bugni

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na "Revista AnaMaria", no "Diário do Grande ABC", no "Agora São Paulo", na "Contigo!" e em "Universa", aqui no Uol. Mora também no Instagram: @lubugni

Colunista do UOL

11/12/2020 04h00Atualizada em 11/12/2020 14h36

Robinho é o assunto do dia novamente, quebrando a internet nessa sexta (11) na base do ódio. O Uol teve acesso às conversas dele com um amigo envolvido no caso de estupro na Itália. Ele foi condenado em segunda instância na quinta (10).

As mensagens parecem um filme de terror para as mulheres que leem. A única preocupação dos rapazes é serem ou não condenados. Comentam apreensivos a possibilidade da garota ter engravidado, o que os incriminaria. Eles riem do fato de terem feito uma fila para estuprar a moça no dia de seu aniversário. Parecem ter estado bem conscientes durante o crime, pois lembram com riqueza de detalhes. Robinho tem medo de vazar na mídia (esses jornalistas são sempre um perigo para criminosos). Robinho está preocupado com o que vai dizer para sua nega (sic.). O criminoso só pensa em si do começo até o fim da gravação.

Robinho, aquele cara que ia ser contratado pelo Santos há uns meses. Que recuou dizendo que Deus ia provar sua inocência. Me lembrei da entrevista em que ele pediu desculpas apenas à própria mulher pela traição, mas não à vítima. Nem às outras mulheres a quem ofende cada vez que esses áudios vêm à tona. "Tem mulheres que nem mulheres são", ele disse na época. E culpou o feminismo, claro. Um clássico.

O jogador ajudou a perpetuar a máxima de que a mulher bêbada não é vítima e sim culpada. Sua defesa tentou argumentar com provas de que a vítima tinha intimidade com álcool (quê?). Sim, esse Robinho. Ele é criminoso e pediu desculpas do jeito mais tosco possível, se colocando no papel de marido arrependido. Horroroso.

Mas tem muito mais desculpa esfarrapada de onde veio essa

"Estou em desconstrução e cometi alguns excessos, até em razão das circunstâncias deste fim de relacionamento que resumo acima."

A frase é do comentarista esportivo Alê Oliveira sobre as acusações de relacionamento abusivo com sua ex-mulher que vieram à mídia nessa quinta (10). Mas poderia ser de muitos outros homens. Primeiro, chamar erro de excesso. Segundo, dizer que está em desconstrução. Afinal, todos nós, adultos em 2020, temos em algum ponto resquícios da educação machista de que tivemos. Estar desconstruindo isso não é mérito. É o mínimo que podemos fazer. O terceiro ponto é culpar a mulher pelo erro que ele eufemiza como excesso. Erros são sempre nossos. Se a gente pede desculpas (Alê nem essa palavra usou), não da para minimizar culpando as supostas vítimas. Como disse minha amiga Nina Lemos, esse é o cara que precisa mudar urgentemente.

O mesmo aconteceu com o piloto de F1 Nikita Mazepin, da Haas. No Twitter, ele pediu desculpas ter assediado uma mulher. Ele, que momentos antes achou uma boa ideia colocar as mãos à força nos seios de uma amiga, filmar e postar no Instagram. Mesmo estando essa amiga visivelmente contrariada. "Gostaria de pedir desculpas por minhas ações recentes, tanto em termos de meu próprio comportamento inadequado quanto pelo fato de isso ter sido postado nas redes sociais. Lamento a ofensa e o constrangimento que causei à Haas F1 Team. Tenho que manter um padrão mais alto como piloto de Fórmula 1 e reconheço que decepcionei a mim mesmo e a muitas pessoas. Eu prometo que vou aprender com isso".

Que loucura, menino. Ele expõe uma mulher e pede desculpas à Fórmula 1? Está triste porque decepcionou a si mesmo? Socorro! E acha que isso é um pedido de desculpas. Mas, Nikita do céu, vamos conversar. Não é desse jeito que a gente reconhece erros e tenta mudar, não. A gente tem que perceber o outro como vítima. E lamentar por isso.

O mesmo vale para Marcius Melhem, em entrevista para a editora-chefe de Universa, Dolores Orosco e o colunista de Splash Maurício Stycer. Ele usa as palavras "tóxico", "excessos", "péssimo". E diz, de um jeito que parece realmente heroico, que teve de mergulhar na própria lama para entender seus erros. Mas meu filho... Se a lama é sua, os erros são seus, mergulhe com mais profundidade e volte com mais respostas e desculpas mais sinceras.

Não adianta usar a tática José Mayer de "mas é que eu cresci machista". Poxa, todo mundo cresceu machista. Se eu contar os absurdos que pensava a meu próprio respeito quando era mais nova, ninguém acreditaria. Mas me esforcei e mudei. Não é fácil, não. É um esforço de desconstrução diário. Que não dá é para usar isso de muleta.

Acho válido reconhecer os erros e pedir desculpas. É o primeiro passo para se tornar uma pessoa melhor. Particularmente, nunca recebi um telegrama de algum dos inúmeros caras assediadores ou abusadores que cruzaram meu caminho pedindo perdão por suas atitudes. Não sei como seria minha reação, portanto. Eles devem acham até hoje que a culpa era minha.

Mas caso eu recebesse o telegrama e ele começasse com "estou me desconstruindo", eu já iria para o próximo.

De desculpinhas para sair bonito na foto do Instagram, o inferno está cheio.

Você pode discordar de mim no Instagram.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL