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Luciana Bugni

Robinho no Santos escancara que o futebol não se importa com a mulher

Robinho era ídolo de Neymar e de muitos outros moleques e garotas dos anos 00: agora não dá mais - Divulgação/Santos FC
Robinho era ídolo de Neymar e de muitos outros moleques e garotas dos anos 00: agora não dá mais Imagem: Divulgação/Santos FC
Luciana Bugni

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na "Revista AnaMaria", no "Diário do Grande ABC", no "Agora São Paulo", na "Contigo!" e em "Universa", aqui no Uol. Mora também no Instagram: @lubugni

Colunista do UOL

11/10/2020 10h48

Nunca, nem nos tempos mais loucos e solteiros da minha vida, combinei com minhas amigas de transar com o mesmo cara ao mesmo tempo. Por isso, a única maneira de justificar uma acusação de estupro coletivo ainda soa estranha para mim. Podem me chamar de careta, mas acho muito esquisito que um grupo de amigos ache boa ideia fazer uma fila para ficar com uma mesma garota mesmo que ela esteja disposta ao ato. Se ela estiver desacordada, então, de um passatempo bizarro passa a ser crime. E quem escolhe cometer vira criminoso.

É, eu vou falar do Robinho. Aquele, que era meu ídolo. Tenho fugido do assunto há alguns anos, desde que ele foi condenado por estupro na Itália, se empirulitou do país e encontrou abrigo aqui no Brasil, em Minas, e depois na Turquia. O craque das pedaladas poderia se defender da condenação (há partes nebulosas no processo). Mas nunca mais apareceu na Itália.

Algum tempo atrás, a jornalista esportiva Analy Cristofani me escreveu perguntando se eu não ia falar do caso. Ela lembra bem quando, no começo dos anos 00 trabalhamos juntas no Diário do Grande ABC e eu endeusava o dono das pedaladas. Eu disse para Analy que não queria entrar nessa história — a verdade é que eu queria mesmo passar um pano, fingir que não estava acontecendo. Mas não dá mais.

Nesse fim de semana, quando o Santos anunciou o retorno de Robinho ao clube, as redes sociais se dividiram. De um lado pessoas que idolatram o cara há duas décadas e ficam felizes com o retorno de um craque (36 anos e um passado recente pouco glorioso, é verdade). Nesse grupo estão Neymar, que festejou a chegada do amigo, e outros caras que usam frases como "quem nunca errou que atire a primeira pedra". Só para ficar claro, não se pode tratar estupro como erro. É um crime.

Do outro, torcedores como eu, que se despedem do ídolo cientes de que não dá para passar pano, não dá para comemorar gol, não dá para receber alguém que foi condenado por estupro como se ele fosse um herói. Robinho não é bem-vindo para essas pessoas. O futebol não poderia aclamá-lo enquanto ele não provar inocência — coisa que ele não parece estar interessado em fazer, visto que fugiu do país onde deveria responder pelo crime.

Robinho, a alegria das pedaladas na Vila, não existe mais. Mas o futebol prefere ignorar os últimos fatos.

Há 18 anos, o mundo era outro. Estupro já era crime, mas existia um conceito ainda mais forte da culpabilização da vítima. Nós éramos incentivadas a competir com outras mulheres e acreditávamos que elas eram sempre potenciais inimigas. Beber demais, usar roupa curta, andar no meio de um monte de homem... todos eram argumentos para justificar atrocidades masculinas com "ela estava pedindo". O futebol, especialmente ele, estava acima do bem e do mal. "Racismo, homofobia e machismo estavam tão intimamente ligados ao esporte que a gente naturalizou um monte de coisas nos cantos, no discurso e no comportamento nos estádios", me escreveu uma amiga indignada nessa madrugada de domingo.

Quase 20 anos depois, eu mudei bastante. Minhas amigas mudaram. Vários homens com os quais convivo mudaram. A gente não quer que homens ligados à violência contra mulheres sejam ídolos de mais ninguém. Mas o futebol ficou na mesma de 20, 30, 100 anos antes. O torcedor continua fazendo uma ginástica cerebral com argumentos fracos para dizer que Robinho merece, sim, lugar no clube, vestindo a camisa que você ama. O cara legal é sempre perdoável. É possível chamar crime de erro. O futebol segue acima do bem e do mal.

E os colegas do esporte, vão levar a discussão até quando?

A tristeza da contratação de Robinho pelo Santos é que ela não surpreende. O futebol segue fazendo pelas mulheres o que sempre fez: calando a torcedora no gramado, na mesa redonda, no Twitter, no sofá de casa.

O jornalista esportivo provavelmente vai levar a discussão para um campo mais confortável: será que Robinho vai render aos 36 anos? Ou passar o tema para a perspectiva do clube: vale a pena para o Santos o ônus da publicidade negativa? Ninguém abordará como se sente a torcedora. E se ele render em campo então, pronto. Vai sorrir na lateral após marcar, vai criar coreografias, vai fazer o torcedor em casa se lembrar de uma época boa e varrer qualquer questionamento para debaixo do tapete. Futebol, um esporte de homens para homens.

Discutir o Robinho criminoso é indigesto. Não cabe na mesa redonda do futebol brasileiro. Vai ser usado enquanto der audiência, por uns dias. Depois as bancadas de homens héteros brancos seguirão fazendo o que fazem bem há décadas: a roda girar, o circo encher, o espetáculo. Mulheres afastadas da torcida reforçam o privilégio deles. É interessante para todo mundo. Se Ana Thaís Matos reclama no Twitter, o homem apreciador de futebol a exclui. "Vai lá ver futebol feminino", eles dizem com desprezo, enquanto mulheres fazem um trabalho bem bacana no gramado e começam timidamente a ter visibilidade.

A contratação de Robinho, condenado por estupro, questiona cada mulher que gosta de futebol. Coloca Elisas, Najilas e outras vítimas do machismo do esporte no mesmo cercadinho que todas nós. À parte.

Até a próxima balada, quando um grupo de amigos achar uma boa ideia fazer uma fila para transar com uma delas. Mesmo que ela esteja desacordada.

O futebol foi aos poucos matando a paixão. Mas a cada capítulo novo parece mais amargo o gosto de que não há lugar para mulher nenhuma nesse sofá. A gente vai seguir falando disso indignada de madrugada. Sozinhas. Ninguém vai se importar, não. E isso é triste demais.

A gente pode falar mais disso no Instagram.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL