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Robinho e o "oral não é transar": mulher bêbada não é ser humano?

Luciana Bugni

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na "Revista AnaMaria", no "Diário do Grande ABC", no "Agora São Paulo", na "Contigo!" e em "Universa", aqui no Uol. Mora também no Instagram: @lubugni

Colunista do UOL

16/10/2020 12h22

"Olha, os caras estão na m*rda... Ainda bem que existe Deus, porque eu nem toquei aquela garota. Vi (NOME DE AMIGO 2), e os outros foderam ela, eles vão ter problemas, não eu... Lembro que os caras que pegaram ela foram (NOME DE AMIGO 1) e (NOME DE AMIGO 2).... Eram cinco em cima dela."

A frase é do jogador Robinho, segundo a apuração do repórter Lucas Ferraz para o GloboEsporte. Todas as mulheres que conheço leram as informações com o estômago embrulhado. Robinho diz que não está nem aí porque ela estava completamente bêbada.

A maior preocupação desses caras é se a mulher com quem vários "transaram" em uma boate de Milão, na Itália, em 2013, se lembraria do que aconteceu para fazer a acusação. Na sequência, eles começam a conversar sobre o fato de alguém ter ou não gozado dentro dela. Como se a única possibilidade do caso ficar grave mesmo seria ela se ela tivesse engravidado.

Em nenhum momento parecem ter colocado a mão na consciência e notado que o que fizeram foi criminoso. De que uma mulher completamente bêbada, como descrevem, não tem condições de tomar decisões e isso é crime.

- Estou rindo porque não estou nem aí, a mulher estava completamente bêbada, não sabe nem o que aconteceu.

A frase de Robinho ecoa na minha cabeça. Primeiro porque sempre gostei do Robinho jogador. Segundo, porque a reconheço nela colegas da faculdade que contavam histórias desse tipo com ares de glória. Eu nunca fiz nada para impedir. Eu, há 20 anos, mais ou menos quando comecei a admirar Robinho, naturalizava a falta de respeito dos homens com as mulheres bêbadas como se fosse culpa delas.

Mesmo que a mulher bêbada fosse eu. Eu achava que a culpa era minha mesmo.

Um dos amigos afirma que viu quando ele colocou o pênis dentro da boca da garota. Ele respondeu que isso não o preocupava, pois não é transar. De fato, Robinho. É estupro.

Robinho diz ainda bem que existe Deus, porque ele não tocou na garota. Depois se contradiz, pois se colocou o pênis na boca dela, tocou nela, sim, e de maneira bem íntima. Não sei qual é o Deus do Robinho, mas gosto de pensar que ele não protege o homem estuprador. Se a fé em Deus é tão grande assim, ao se deparar com uma cena de violência, de sexo grupal, de estupro de uma mulher desacordada... o comportamento esperado é proteger a mulher. É afastar os homens. É se certificar de que ela está em segurança. Como faríamos com qualquer ser humano — amor ao próximo é o que espera Deus, certo?

A agonia gerada pelas frases ditas por Robinho é que conhecemos homens que realmente pensam assim. "Estava completamente bêbada? Deu azar." Precisamos falar mais disso até que fique claro que esse raciocínio é um absurdo.

O alívio pequeno é ver o adolescente fã de futebol aqui em casa lendo a matéria indignado. "É criminoso! Está evidente! Como ninguém parou isso?" Ele tem 19 anos e sabe bem mais do que eu sabia com a idade dele. Se coloca no lugar da garota. Acha impossível assistir a cena calado.

Que o senso comum entenda que Robinho não pode ser aclamado no futebol como herói. Para que o exemplo sirva para mais garotos de 19 anos por aí. E eles entendam que mulheres, bêbadas ou não, devem ser respeitadas sempre.

Há de se renovar a esperança para tirar o gosto amargo da boca.

A gente pode falar mais disso no Instagram.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL