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'Levaria um tiro por ele': Após Kurt Cobain, Dave Grohl perde outro 'irmão'

Maurício Dehò

De Splash, em São Paulo

26/03/2022 12h07Atualizada em 27/03/2022 08h27

"Um homem por quem eu levaria um tiro". Era assim que Dave Grohl, líder do Foo Fighters, se referia a Taylor Hawkins, seu colega de banda, encontrado morto ontem na Colômbia.

A morte de Taylor revive a história da formação do Foo Fighters. O grupo surgiu de outra tragédia, a morte de Kurt Cobain, do Nirvana. Grohl tocava bateria no grupo, um ícone do grunge, e precisou refazer sua vida após Cobain cometer suicídio, aos 27 anos.

Hawkins foi achado morto em um quarto de hotel de Bogotá, na Colômbia, poucas horas antes de um show do Foo Fighters no festival Estéreo Picnic. A causa da morte ainda será investigada. A banda em seguida viria ao Brasil para o Lollapalooza, mas a apresentação já foi cancelada, segundo apurou Splash.

Morte de Cobain

O frontman do Nirvana, Kurt Cobain, foi achado morto em 8 de abril de 1994, três dias após cometer suicídio. Uma semana antes, ele havia deixado uma clínica de reabilitação.

cobain - Reprodução - Reprodução
Integrantes do grupo Nirvana se divertem na piscina.
Imagem: Reprodução

Grohl ganhou fama tocando bateria no Nirvana e descreveu a tragédia como seus dias "mais sombrios". Por muitas vezes, o líder do Foo Fighters disse que não passa um dia sem lembrar do colega de banda, a quem descrevia como um irmão.

Cobain teve uma overdose em março, que já havia assustado Grohl. "Meus joelhos dobraram e eu caí no chão do quarto, cobrindo meu rosto com as mãos, e comecei a chorar", contou ele, ao New York Post.

A segunda notícia foi real. Cobain havia morrido. "Dessa vez era de verdade. Ele tinha partido. Não tinha um segundo telefonema para dizer que estavam errados".

Sem Cobain, o Nirvana acabou. Grohl teve convites imediatos para entrar em outras bandas, mas os recusou. Ele voltaria à música para criar o Foo Fighters, arriscando assumir o papel de frontman, tocando guitarra e cantando. No início, ele era o único integrante da banda.

Hawkins, o novo irmão

Taylor Hawkins chegou ao Foo Fighters para o terceiro disco da banda, substituindo William Goldsmith. Ele havia tocado com Alanis Morissette, e estreou em "There is Nothing Left to Loose", de 1999. O grupo enfileirou hits, com "Breakout" e "Learn to Fly".

Curiosamente, Taylor apareceu no clipe de "Everlong", do disco anterior à sua entrada.

Dave conta que eles se deram bem desde o princípio.

Ele era meu irmão de outra mãe, meu melhor amigo, um cara por quem eu tomaria um tiro Grohl, em 2021, no livro "The Storyteller"

"Desde que nos conhecemos, nossa ligação foi imediata e nós crescemos juntos, a cada dia, a cada música, a cada nota que tocávamos junto. Nós absolutamente fomos feitos um pro outro e sou agradecido de termos nos achado."

Taylor conta que ele e Grohl se conheceram nos bastidores de um show, quando ele ainda tocava com Alanis.

Não tenho medo de dizer que foi tipo amor à primeira vista, criando uma 'chama de gêmeos' que queima até hoje. Viramos uma dupla imparável, perseguindo qualquer aventura que pudéssemos achar.

Em um show no Chile, Taylor elogiou o companheiro ao assumir o microfone por uma música.

"O bom de virar o cantor do Foo Fighters por uma música é que eu tenho o melhor baterista do planeta terra atrás de mim", comentou ele, no Chile, no último dia 18.

Overdose e brigas

O documentário "Back & Forth" conta a história do Foo Fighters em detalhes e não se esquiva dos problemas enfrentados internamente na banda.

O mais grave foi quando Taylor teve uma overdose, em 2001. Ele estava em Londres, passou mal e foi hospitalizado. Foram duas semanas em coma.

"Nós começamos a ficar bêbados antes de entrar no palco, e ficávamos horríveis até o final do show", relembra Dave Grohl. "Taylor vinha lidando com um problema com drogas, a gente falou sobre isso algumas vezes."

Taylor explica:

Eu não sabia como lidar com o jeito que as pessoas queriam que a gente fosse. Eu achava que para ser um roqueiro, tinha que ser como o Keith Richards. Algo obscuro. Que isso era o verdadeiro rock n' roll.

Dave rebate:

Eu dizia pra ele: 'Cara, te amo como um irmão. Não sou policial, ou seu pai. Mas estou preocupado com você, sabe?'. Em Londres, fui para o quarto mais cedo e recebi de manhã a ligação de que ele estava a caminho do hospital. Nosso cara do som disse: 'Ele vai morrer, ele tá morto'. Foi tão estranho. Ele não morreu, mas ele teve uma overdose. Eu me senti sem chão, sabe?

Ainda no documentário, Taylor fala sobre a morte. "Dave é meu melhor amigo, ele é mesmo como um irmão. Se algo acontecesse com Dave e ele ficasse à beira da morte, eu ia perder minha cabeça. E ele estava assim", diz o baterista.

Outro momento em que eles se estranharam foi quando Dave Grohl tocou bateria com o Queens of the Stone Age. Taylor não gostou de ver o Foo Fighters ser preterido e o clima na banda ficou ruim.

O grupo tinha uma apresentação com o Foo Fighters e outra com o Queens no Coachella, e eles chegaram a pensar que seriam as últimas juntos. Os shows foram tão bons, que deram uma nova energia e a dupla aceitou se encontrar, escrever novas músicas, e a parceria deslanchou novamente, começando com "Times Like These".

Homenagem: 'Ele se subestimava'

Antes da morte, Dave Grohl disse à Rolling Stone que não consegue enxergar como seria sua carreira sem Taylor e que via o colega diminuindo sua importância na banda, injustamente.

"Eu acho que Taylor se subestima muito sobre sua importância na banda. Talvez por não ter sido o baterista original. Mas, meu deus, o que seríamos sem Taylor Hawkins? Você consegue imaginar? Seria algo completamente diferente", afirmou Grohl na reportagem de capa da revista.

Último projeto

O último projeto lançado por eles foi atípico: o filme de terror "Studio 666". Nele os músicos do Foo Fighters atuam nos papéis principais.

A trilha sonora é de heavy metal - com faixas de death metal e grindcore -, mas a bateria ficou a cargo de Grohl.

Hawkins deixa mulher, Alison, e três filhos.