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Apesar de crença popular, raça não define comportamento do cão, diz estudo

Golden Retriever é conhecido por ser "superamigável", mas estudo indica que raça não determina comportamento - iStock
Golden Retriever é conhecido por ser "superamigável", mas estudo indica que raça não determina comportamento Imagem: iStock

da AFP, em Washington

29/04/2022 15h35

Estereótipos bem conhecidos sobre o comportamento dos cães, como rottweilers e pit bulls sendo agressivos, ou labradores e goldens retrievers superamigáveis, são refutados por um novo estudo sobre comportamento.

Trata-se de uma pesquisa genética publicada na quinta-feira (28) na revista Science em que foram analisadas cerca de 200.000 respostas a questionários feitos aos donos de mais de 2 mil cães, que mostra que assumir que raça e comportamento estão ligados não tem fundamento.

Com certeza, muitos traços comportamentais podem ser hereditários, mas o conceito moderno de raça oferece um valor preditivo parcial para a maioria dos comportamentos, e quase nenhum para quão afetuoso um cão pode ser.

"Embora a genética desempenhe um papel na personalidade de qualquer cão, sua raça específica não é um bom indicador de tais características", segundo Elinor Karlsson, autora do estudo realizado pela universidade Umass Chan, o instituto Broad e a Universidade de Harvard.

Beagles uivariam mais - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Beagles uivam mais, segundo análise do genoma
Imagem: Getty Images/iStockphoto

"O que descobrimos é que os critérios que definem um golden retriever são suas características físicas — o formato de suas orelhas, a cor e qualidade de sua pelagem, seu tamanho — e não se é amigável", acrescentou a cientista.

A pesquisadora Kathleen Morrill explicou que entender as relações entre raça e comportamento pode ser o primeiro passo para entender os genes responsáveis por condições psiquiátricas em humanos, como transtornos obsessivo-compulsivos.

"Não podemos, porém, perguntar aos cães sobre seus problemas, pensamentos ou ansiedades. Sabemos que os cães têm uma vida emocional rica e experimentam distúrbios que se manifestam em seu comportamento", disse à imprensa.

Implicações legais

A equipe de pesquisa sequenciou o DNA de 2.155 animais de raça pura e mistas para encontrar variantes genéticas comuns que pudessem prever seu comportamento e combinou essas informações com as respostas das entrevistas com 18.385 donos de animais da Arca de Darwin, uma iniciativa de dados abertos onde os donos descrevem as características e comportamentos de seus animais de estimação.

Os pesquisadores estabeleceram definições padrão para relatar características como obediência, sociabilidade com humanos e padrões motores relacionados a brinquedos.

Características físicas e estéticas também fizeram parte do estudo.

Border Collies foram considerados geneticamente mais flexíveis - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Border Collies foram considerados geneticamente mais flexíveis
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Ao todo, Karlsson e Morrill encontraram 11 pontos no genoma dos cães associados a diferenças comportamentais, incluindo obediência, devolução de objetos, apontar algo procurado e latidos.

Entre esses comportamentos, a raça desempenhou um certo papel — por exemplo, os beagles e sabujos tendem a uivar mais, os border collies são mais flexíveis, enquanto os shiba inus são muito menos.

Mas sempre há exceções à regra. Por exemplo, embora os labradores tenham uma tendência menor de uivar, 8% o faziam. Ou enquanto 90% dos galgos não enterravam brinquedos, 3% o faziam com frequência.

Não foi encontrada relação direta entre a agressividade e a raça, apesar dos estereótipos em relação a pit bulls (foto) - Mindy Schauer/Digital First Media/Orange County Register via Getty Images - Mindy Schauer/Digital First Media/Orange County Register via Getty Images
Não foi encontrada relação direta entre a agressividade e a raça, apesar dos estereótipos em relação a pit bulls (foto)
Imagem: Mindy Schauer/Digital First Media/Orange County Register via Getty Images

"Quando analisamos o fator que chamamos de limiar agonístico, que incluía muitas perguntas sobre se os cães reagiam agressivamente a determinadas coisas, não vimos um verdadeiro efeito da raça", disse Karlsson.

No geral, a raça explicou apenas 9% das variantes comportamentais, sendo a idade um melhor indicador de algumas características, como o uso de brinquedos. No entanto, as características físicas tiveram cinco vezes mais probabilidades a serem previstas pela raça do que pelo comportamento.

A ideia vai contra suposições generalizadas que influenciaram marcos legais. Por exemplo, o Reino Unido proibiu os pit bull terriers, assim como muitas cidades nos Estados Unidos.

Desordens humanas

Antes do século 19, os cães eram selecionados por suas funções, como caça, guarda e pastoreio, diz a equipe de pesquisa em seu estudo.

"Em vez disso, as raças modernas de cães enfatizam a confirmação dos ideais físicos e a pureza da linhagem, é uma invenção vitoriana", aponta o documento.

As raças modernas carregam variações genéticas de seus antecessores, mas não nas mesmas frequências, explicando a diferença de comportamento entre as raças.

Habilidades observadas nos cães podem estar ligadas à sua relação com o tutor, segundo os especialistas - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Habilidades observadas nos cães podem estar ligadas à sua relação com o tutor, segundo os especialistas
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Os próximos passos, diz Morill, seriam aprofundar o estudo dos comportamentos compulsivos em cães e suas conexões com transtornos obsessivo-compulsivos em humanos.

Uma descoberta intrigante é que a sociabilidade dos cães em relação aos humanos foi "incrivelmente herdada nos cães", mesmo sem depender de sua raça.

Os pesquisadores encontraram um ponto no DNA canino que poderia explicar 4% das diferenças de sociabilidade entre diferentes indivíduos, e esse ponto corresponde a uma área do genoma humano responsável pela formação da memória de longo prazo.

"Pode ser que entender a sociabilidade dos cães com os humanos nos ajude a entender como o cérebro se desenvolve e aprende. Então, estamos apenas arranhando a superfície", apontou Morill.