PUBLICIDADE
Topo

Coluna do Veterinário

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Seu pet pode não demonstrar, mas ele sente dor igual a você

Bichos também sentem dor. Saiba como identificar e tratar - Getty Images
Bichos também sentem dor. Saiba como identificar e tratar
Imagem: Getty Images
Conteúdo exclusivo para assinantes
André Marchina Gonçalves

André Marchina Gonçalves é médico veterinário formado pela FMVZ-USP em 2012. Possui pós-graduação lato sensu em Anestesiologia Veterinária pela PAV e Anestesia Regional Veterinária pelo IEP Ranvier. Trabalhou em alguns dos principais hospitais e clínicas veterinárias de São Paulo entre 2013 e 2019, quando mudou-se para a Espanha. Atualmente é aluno da Universidade de Murcia, onde faz um masters em Medicina de Pequenos Animais.

Colaboração para Nossa, em Murcia (ESP)

01/07/2021 04h00

Diagnosticar a dor em um animal não é tarefa fácil. Nós veterinários sofremos com a mesma dificuldade que sofrem nossos colegas pediatras, ou médicos que trabalham com pacientes que não podem se comunicar: como identificar a dor em um paciente que não pode expressá-la com palavras?

Devido a essa dificuldade de identificação, a capacidade dos animais de sentir dor foi menosprezada por muito tempo. Hoje sabemos que, sim, todos os animais vertebrados sentem dor de uma maneira semelhante, apesar de cada espécie demonstrá-la de maneiras diferentes.

Embora o ensino e os estudos na área tenham se desenvolvido nos últimos anos, até pouco tempo atrás a terapia da dor não recebia a devida atenção nas faculdades de veterinária. Alguns anos atrás, por exemplo, quando eu estava na graduação, participei de aulas de disciplinas na área de produção animal em que foram castrados espécimes sem anestesia e analgesia adequadas. Felizmente, isso não acontece mais nas faculdades, que tem comissões de ética para impedir estas situações. Porém, isso é o que ocorre nas fazendas Brasil afora.

Esse é um dos motivos que faz com que até hoje muitos dos veterinários não saibam tratar a dor adequadamente e nem reconhecê-la. Para muitos, a dor no período pós-operatório é fundamental para que o animal "não se mova" de maneira a não abrir os pontos ou mover os implantes em cirurgias ortopédicas.

Sabemos hoje que este pensamento está completamente errado, e que a inflamação e a dor no período depois de uma cirurgia atrapalham e aumentam o período de recuperação. Um animal com dor depois de uma cirurgia ortopédica, por exemplo, irá demorar mais para voltar a apoiar o membro operado. Com isso terá maior atrofia muscular, e consequentemente um tempo de recuperação mais prolongado.

Além disso, infelizmente para muitos de nós, o correto tratamento da dor não passa de frescura. Observei isso recentemente, após um texto sobre as práticas inadequadas de um veterinário de um programa de televisão. Esse texto repercutiu em um grupo de veterinários em uma rede social. Ali, embora a maioria concordasse com os problemas apontados, entre eles a falta de anestesia e analgesia adequada, para parte dos veterinários eu era um "veterinário Nutella", da geração "mimimi".

Outro exemplo de como a dor nos animais é menosprezada por pessoas da área ocorreu duas semanas atrás, nesse caso com estudantes de veterinária. Eles castraram o cachorro da república em que viviam em condições totalmente inadequadas, sem veterinário formado, local, higiene, anestesia e analgesia adequados. Nesse caso, houve enorme repercussão, e os participantes da sessão de horror foram expulsos da faculdade.

Importância do correto tratamento da dor

Claro, é um pouco óbvio para todos dizer que a dor é uma sensação desagradável e que, por isso, deve ser tratada. Afinal, quem gosta de senti-la?

Mas muito além da sensação desagradável, a dor mal tratada é extremamente prejudicial para diversos sistemas do organismo. Um animal com dor irá liberar, entre outros, hormônios como cortisol e adrenalina, produzindo efeitos como aumento da pressão arterial, aumento da frequência cardíaca, arritmias, vasoconstrição e consequente diminuição da chegada de sangue na pele e vísceras e aumento da glicemia, entre muitos outros.

A curto prazo, essas alterações têm o objetivo de ajudar na proteção e recuperação do organismo, mas a longo prazo podem gerar lesões em órgãos como os rins e o coração. Além disso, uma dor aguda mal tratada pode evoluir para um quadro de dor crônica. Nesses casos, deixa de ser um sintoma e passa a ser o próprio problema. A dor crônica possui características diferentes da dor aguda, de identificação e tratamento muito mais difíceis.

Como identificar a dor?

A primeira coisa a se ter em mente quando seu animal apresenta uma lesão é: isso doeria em você? Se sim, muito provavelmente dói no seu animal também!

Para ilustrar isso, sempre me lembro do exemplo que ouvi da Patrícia Bonifácio Flor, veterinária especialista em tratamento da dor: otite em cães chamamos de otite, mas nas pessoas chamamos de "dor de ouvido" — e quem já teve sabe o quanto dói. Por que fazemos essa diferença e não tratamos a dor quando tratamos uma otite canina?

Em alguns casos, determinar se um animal tem dor é muito claro. Se o seu cão acaba de ser atropelado e tem uma fratura no fêmur, é óbvio que ele está com dor. Provavelmente, nesse momento ele irá chorar e não permitirá toques na pata quebrada, deixando bem claro que está doendo.

Cachorro com pata ferida - Getty Images - Getty Images
Imagem: Getty Images

Porém, em outros casos menos evidentes, de dor mais leve pode ser muito difícil, especialmente nos gatos. Muitas vezes, o animal acaba apresentando sintomas inespecíficos, como não querer comer, dormir mais do que o normal e ficar mais carente, o que dificulta a determinação do quadro.

Por isso, foram criadas nos últimos anos diversas escalas de avaliação da dor. Essas escalas devem ser usadas pelos veterinários de modo a ter uma resposta objetiva para avaliar a sensação subjetiva que é a dor. Com base em questionários sobre diversos aspectos como postura, conforto, vocalização, mobilidade e sensibilidade ao toque, é possível atribuir uma pontuação de dor para o animal. Por meio dessa pontuação, pode-se planejar um tratamento analgésico mais preciso para cada caso.

A vantagem da utilização dessas escalas é trazer uma resposta objetiva, que padroniza a percepção sobre a dor do animal. Sabemos por meio de alguns estudos que essa percepção varia de pessoa para pessoa, e que as mulheres tendem a superestimar a dor que os animais estão sentindo, enquanto os homens a subestimam.

Existem diversos tipos de escala, que devem variar de acordo com a espécie, já que cada uma responde de maneira diferente à dor e ao tipo de dor, já que a dor aguda e a dor crônica também possuem diferentes sinais. Algumas dessas escalas foram testadas para aplicação tanto por donos de animais quanto por enfermeiros e veterinários e apresentaram boa correlação na resposta. Ou seja, com um pequeno treinamento, os donos dos animais foram capazes de identificar a dor da mesma maneira que um veterinário especializado na área.

Esse é o caso da escala de dor em gatos baseada nas alterações das expressões faciais apresentadas por gatos com dor, que é um trabalho da minha amiga Marina Cayetano Evangelista, publicado na revista "Scientific Reports": https://pt.felinegrimacescale.com/ . Nessa escala, por meio da posição das orelhas, da abertura dos olhos, da posição da cabeça e dos bigodes e tensão do focinho é possível atribuir um nível de dor nos animais.

Tratando a dor

O tratamento da dor tem sido muito estudado e evoluiu muito nas últimas décadas. Hoje ele se baseia no grau de dor apresentado, que pode ser leve, moderado, severo ou torturante e no tipo de dor. Para isso, utilizamos diversos tipos de medicamentos anti-inflamatórios, analgésicos, anestésicos e ainda outros tipos de medicamentos chamados de adjuvantes. Estes não geram analgesia por si, mas são capazes de aumentar os efeitos dos analgésicos.

Além dos medicamentos, temos ainda outros tratamentos que auxiliam na diminuição dos sintomas. Este é o caso da fisioterapia e acupuntura. Estas terapias são muito importantes em casos de animais que apresentam alterações crônicas, como osteoartrite e artrose. Nestes casos, diminuem a necessidade de medicamentos que teriam que ser administrados por longos períodos e, consequentemente, os seus efeitos colaterais.

Dada a sua importância, a dor é classificada hoje em dia como um sinal vital, devendo ser avaliada sempre em um exame clínico, assim como os demais parâmetros (frequência cardíaca, frequência respiratória, pulso, pressão arterial e temperatura).

Por tudo isso, nunca subestime a dor que seu animal pode estar sentindo. Lembre-se que eles podem expressá-la de uma maneira diferente do que você imagina e que os animais foram selecionados por muito tempo de maneira a esconder os sintomas de dor.

Na dúvida, procure um veterinário especialista no assunto. Hoje em dia existem serviços exclusivos para o tratamento da dor, como o do Ambulatório da dor do Hospital Veterinário da FMVZ-USP.

E falando nesse assunto, lembrando mais uma vez: nunca dê um remédio para seu pet sem que tenha sido receitado por um veterinário. Nesse caso específico, alguns dos anti-inflamatórios e analgésicos usados para nós humanos são extremamente tóxicos para eles, podendo levar à morte.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL