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Coluna do Veterinário

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Como saber se seu animal está acima do peso? Pets "gordinhos" correm riscos

Saiba como identificar se seu bichinho está acima do peso - Getty Images/iStockphoto
Saiba como identificar se seu bichinho está acima do peso
Imagem: Getty Images/iStockphoto
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André Marchina Gonçalves

André Marchina Gonçalves é médico veterinário formado pela FMVZ-USP em 2012. Possui pós-graduação lato sensu em Anestesiologia Veterinária pela PAV e Anestesia Regional Veterinária pelo IEP Ranvier. Trabalhou em alguns dos principais hospitais e clínicas veterinárias de São Paulo entre 2013 e 2019, quando mudou-se para a Espanha. Atualmente é aluno da Universidade de Murcia, onde faz um masters em Medicina de Pequenos Animais.

Colaboração para Nossa, em Murcia (ESP)

08/07/2021 04h00

Apesar de minha sogra cuidar muito bem de seus cães, uma característica marcante ocorre com os cachorros dela: o excesso de peso. Já meus pais não têm cães, mas deixei algumas vezes os meus na casa deles enquanto viajava. Depois de algumas semanas na casa dos avós, os quilinhos a mais eram nítidos.

Sempre que conversamos sobre esse assunto, ouço as mesmas respostas deles: "mas eles comem tão pouco", "os cachorros estão passando fome", "imagina que estão gordinhos, eles estão lindos"...

Essa percepção errada sobre o peso dos animais não é exclusividade da minha família. Uma pesquisa de 2014 (em inglês) demonstrou que 65% dos donos de cães que participaram do estudo estimaram o escore de condição corporal (explico mais abaixo) de maneira incorreta. Destes, 92% subestimaram a condição do animal, ou seja, consideraram que ele estava menos gordinho do que, de fato, estava. Essa subestimação foi mais presente nos donos de animais que apresentavam sobrepeso ou obesidade.

Sobrepeso e obesidade são temas delicados. Alguns estudos indicam que este não é um assunto no qual os veterinários se sentem muito à vontade em abordar. Isso ocorre porque ele muitas vezes reflete estilos de vida e o modo como o dono cria seus animais.

Além disso, parece haver uma correlação entre o sobrepeso em pets e o sobrepeso dos donos. Ou seja, um cão ou gato de uma pessoa acima do peso tem maior chance de também estar acima do peso. Portanto, ao abordar o assunto, os veterinários podem entrar em um tema no qual o dono não se sente à vontade.

Essa dificuldade de comunicação foi observada em outro estudo (em inglês), no qual os autores sugerem que 36% dos donos de animais com sobrepeso ou obesos que levavam o seus cães com frequência ao veterinário nunca foram abordados sobre o tema.

Tamanho do problema

Seguindo o mesmo padrão de nós, humanos que vivemos em uma sociedade capitalista ocidental, a obesidade em animais domésticos também tem crescido de maneira alarmante. De acordo com a Association for Pet Obesity Prevention, em 2018, 60% dos gatos e 56% dos cães dos Estados Unidos apresentavam sobrepeso ou obesidade.

Já o estudo "Obesidade Canina: Um estudo de prevalência na Cidade de São Paulo", de Mariana Y. H. Porsani, publicado em 2019, indicou que 40,5% dos cães da cidade estavam acima do peso, sendo 14,8% obesos.

Como determinamos que um animal está acima do peso?

Devido à variação de tamanho existente entre as diferentes espécies e raças, o peso em si não diz muita coisa. Por isso, utilizamos os escores de condição corporal (ECC). Os mais utilizados possuem uma escala que vai de 1 - 9, sendo 1 muito abaixo do peso normal e 9 obesidade. A atribuição de um escore se dá por meio da observação e palpação de diversas partes do corpo, como as costelas, curva abdominal e visibilidade dos ossos da bacia, entre outros.

Por mais que padronizem a avaliação através de características objetivas, os ECC não são tão simples quanto aparentam. O mesmo estudo citado ali acima observou que a maioria dos donos de cães continuou atribuindo valores incorretos aos animais mesmo após a utilização de um guia para avaliação. Isso demonstra a dificuldade que pode existir ao avaliar o sobrepeso e obesidade.

Gato obeso - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Problemas causados pela obesidade

O acúmulo de tecido adiposo e gordura nos diferentes órgãos causa uma série de alterações metabólicas e hormonais. Além disso, os adipócitos, que são as células responsáveis por armazenar gordura, liberam substâncias que possuem caráter inflamatório. Por conta disso, a obesidade é hoje caracterizada como um estado inflamatório crônico. A longo prazo, essa inflamação constante passa a repercutir negativamente nos diversos sistemas do organismo.

Entre os principais problemas decorrentes da obesidade, podemos citar a resistência à insulina — que pode levar a uma diabetes mellitus —, osteoartrite, hiperlipidemia (aumento de triglicérides e colesterol), aumento da pressão arterial, diminuição da capacidade respiratória - que agrava condições como colapso de traqueia -, aumento do risco para alguns tipos de câncer e aumento do risco anestésico, entre outros.

Isso tudo leva a uma piora na qualidade e na expectativa de vida dos animais acometidos.

Causas do problema

Hoje em dia temos identificados alguns genes relacionados à obesidade. Isso pode explicar porque algumas raças de cães, como labradores e beagles, têm maior propensão ao problema. Outras condições como a castração e sua consequente alteração metabólica e no nível de atividade também podem contribuir. O mesmo vale para doenças, como o hipotiroidismo.

Porém, não existe muito segredo. O mesmo que vale para nós, vale para eles. O acúmulo de gordura e tecido adiposo ocorre quando temos um balanço energético positivo. Ou seja, quando se consome mais calorias do que se gasta.

No caso dos cães e gatos, o sedentarismo é muito comum. Um animal que passa todo o dia dentro de casa dormindo, sem estímulos para fazer suas atividades, irá fatalmente ser um candidato ao ganho de peso. Considerando que nossos animais também não são capazes de assaltar a geladeira, somos os responsáveis por fornecer toda a comida que eles ingerem.

Portanto, se somos os responsáveis pelo nível de atividade dos nossos animais, por meio de brincadeiras, passeios e atividades físicas, e também pelo tipo e quantidade de comida que ingerem, somos os grandes responsáveis pela sua condição física.

Mas foi só um pedacinho…

Na rotina veterinária, muitas vezes escutamos no começo da consulta: "meu cão come só ração, nada mais". Porém, após alguns minutos começam a aparecer algumas outras coisinhas… "em dia de pizza eu deixo ele comer as bordinhas", "no café da manhã eu dou uma banana pra ele"...

No caso da pizza, obviamente está completamente errado, mas mesmo as frutas, por mais saudáveis que sejam, podem ser grandes vilãs. Eu explico:

Nas embalagens de comida, sempre encontramos uma tabela nutricional baseada em um padrão de 2000 kCal por dia. Isso significa que um adulto médio necessita ingerir essa quantidade de calorias para manter o seu peso. Um atleta poderá necessitar muito mais, enquanto uma mulher sedentária e pequena irá necessitar menos.

Para os animais, também existe uma quantidade de energia necessária por dia, mas esse cálculo é feito por meio de fórmulas que levam em conta o peso ideal, sendo que para animais maiores o valor é proporcionalmente menor.

Um cão de 5 kg, por exemplo, necessita de algo em torno de 300 kCal/dia. Os valores são aproximados, mas vamos supor que ao longo da semana seu dono dê a ele alguns petiscos: uma maçã (60 kCal), uma banana (100 kCal) e as duas bordinhas de pizza no fim de semana (100 kCal). Ao longo dessa semana, ele terá ingerido 260 kCal a mais do que o necessário, ou terá comido o equivalente a quase um dia a mais do que deveria.

Outro tipo de caso muito comum é dos animais que só tomam remédio quando ele está escondido dentro de algum alimento. Um yorkshire de 2 kg que toma diariamente um remédio para o coração, mas só aceita a medicação escondida dentro de um pedaço de queijo. Esse cão necessita de aproximadamente 180 kCal por dia, mas toda noite, junto com seu remédio, come uma fatia de mussarela de 40 Kcal. É quase um quarto a mais do que necessita. Você pode imaginar o resultado disso a longo prazo?

Resolvendo o problema

O primeiro passo para resolver o problema é reconhecê-lo. Como notamos, essa tarefa pode ser mais difícil do que aparenta. Uma vez reconhecido, infelizmente, não existe fórmula mágica, e não é uma tarefa fácil.

Na grande maioria dos casos, a obesidade é causada por atividade física de menos, comida de mais, ou pela soma dos dois fatores. A maneira de resolver o problema é mudando os hábitos de vida, aumentando a atividade física e diminuindo a quantidade de comida.

Novamente, o seu cão ou gato não irá assaltar a geladeira sozinho, então depende de você ser forte, resistir à carinha de dó, aos miados insistentes e fornecer apenas a quantidade de comida adequada.

Seu veterinário pode auxiliar indicando o tipo de dieta mais adequada para o seu animal, em função de suas características físicas e nível de atividade.

Hoje em dia temos ainda uma série de especialidades, que irão ajudar no controle do peso ideal: veterinários nutricionistas que podem receitar a dieta mais adequada, e endocrinologistas, que podem identificar problemas concomitantes. Também existem clínicas de reabilitação que auxiliam na perda de peso, com atividades como a natação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL