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Rafael Reis


Proibir beijos e abraços em campo não faz diferença nenhuma; é só marketing

Grujic recebe beijo de companheiro após gol do Hertha Berlim no Campeonato Alemão - Thomas Kienzle/AFP/Getty Images
Grujic recebe beijo de companheiro após gol do Hertha Berlim no Campeonato Alemão Imagem: Thomas Kienzle/AFP/Getty Images
Rafael Reis

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

21/05/2020 04h20

A cena pôde ser vista nas duas primeiras rodadas do Campeonato Sul-Coreano, esteve presente no último fim de semana na Bundesliga alemã e fará parte da rotina de praticamente todas as competições de futebol pós-pandemia.

Após balançar as redes adversárias, o autor do gol sai festejando sozinho. Se algum dos seus companheiros se aproxima um pouco mais dele é para cumprimentá-lo no ar ou fazer alguma dancinha combinada previamente.

A proibição de beijos, abraços, apertos de mão e qualquer outro tipo de contato físico na comemoração dos gols é um dos protocolos que vêm sendo utilizados pelos campeonatos que já retomaram suas atividades para diminuir o risco de transmissão do novo coronavírus (Covid-19).

Só que, na prática, essa é uma medida que tem pouco (para não dizer nenhum) impacto real na preservação da saúde dos atletas de futebol.

É óbvio que abraços, beijos e o simples toque de mãos transmitem o novo coronavírus. Mas aquele típico esfrega-esfrega dentro da área na hora da cobrança de um escanteio, agarrões e mesmo a marcação mais próxima também podem fazer o vírus se espalhar entre os jogadores. Mesmo assim, nenhum deles foi proibido.

O protocolo que limita as comemorações de gol é muito mais uma ação de marketing do que uma medida de segurança sanitária. Antes de tudo, sua missão é lembrar o mundo que, mesmo com o futebol tendo voltado, vivemos uma pandemia e o distanciamento social continua sendo necessário.

Mas não é a proibição de um abraço que vai impedir que um jogador seja contaminado. Ir a campo para bater bola com dez parceiros e enfrentar 11 adversários, ainda que em um ambiente aberto, é um risco.

A única forma real de minimizá-lo, sem que as competições sejam paralisadas, é utilizar a testagem em massa dos atletas aliada a uma política de isolamento de quem testar positivo para o coronavírus ou apresentar algum sintoma da doença.

Vetar comemorações coletivas de gol, obrigar que os atletas mantenham uma certa distância antes do apito inicial e não posar para aquela tradicional foto do time inteiro junto são medidas legais como propaganda. Mas nada mais que isso.

As próprias entidades que organizam as competições de futebol sabem disso. Na Alemanha, os beijos e abraços estão proibidos, mas não há nenhuma punição prevista (nem mesmo a aplicação de cartão amarelo) para quem descumprir essa regra.

Isso aconteceu já na primeira rodada pós-retorno da Bundesliga. O brasileiro Matheus Cunha foi abraçado na comemoração de um dos gols do Hertha Berlim contra o Hoffenheim, no sábado. No mesmo jogo, o sérvio Marko Grujic ganhou um beijinho na bochecha de um companheiro após balançar as redes.

Os jogadores do Bayern de Munique, líder da competição e clube mais poderoso da Alemanha, também não cumpriram 100% do determinado. Ainda que de maneira tímida, eles se cumprimentaram batendo as mãos ao marcarem na vitória por 2 a 0 sobre o Union Berlim, domingo.

Segundo informações da OMS (Organização Mundial de Saúde), a pandemia da Covid-19 já infectou mais de 4,7 milhões de pessoas em quase todos os países do globo. O número de mortes decorrentes da doença já ultrapassou a casa dos 316 mil.

Rafael Reis